21 E 22/09/2006 – CLIPPING

O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.
O ESTADO DE SÃO PAULO – 22/09/2006
Espanhol para professor é criticado
Profissionais da USP, Unesp e Unicamp atacam curso oferecido pelo Instituto Cervantes e pelo governo do Estado
Renata Cafardo
Professores das universidades públicas de São Paulo condenam em manifesto conjunto o programa do governo do Estado para formação de professores em espanhol, lançado neste mês. Eles alegam que o curso, que será pago pelo Grupo Santander e oferecido pelo Instituto Cervantes, tem currículo precário e não leva em conta as pesquisas feitas pelas maiores universidades do País. O projeto prevê ensino totalmente a distância. Os professores pretendem entrar na Justiça para impedir o início do curso, em outubro.
A secretária de Educação, Maria Lúcia Vasconcelos, disse ao Estado que vai retomar a discussão com o Santander para deixar clara a intenção do programa. Segundo ela, o objetivo é apenas ensinar a língua aos professores e não habilitá-los para dar aulas de espanhol. Apesar disso, o próprio site da secretaria estadual e o material de divulgação do banco e do site Universia, que operacionaliza o projeto, diziam que os profissionais seriam formados paro ensino da língua. Professores que participaram de discussões sobre o projeto também dizem que foram informados de que era esse o objetivo.
O projeto prevê a capacitação inicial de 2 mil professores e um total de 45 mil nos próximos anos. Quem já leciona no ensino médio da rede estadual - em matemática, educação física ou qualquer outra disciplina - pode se inscrever no programa que foi chamado de Oye!. 'Mais uma vez a escola pública vai ficar com o piores professores e os bem formados vão para a rede particular', diz a professora do departamento de letras modernas da Universidade de São Paulo (USP) e responsável pelas orientações curriculares nacionais de espanhol, Neide Gonzalez.
Os professores sustentam que o currículo, que tem 600 horas/aula, abrange apenas o ensino da língua. A legislação nacional exige carga horária mínima de 2.800 horas/aula para formação de professores. 'É preciso ter conteúdos metodológicos, literatura e cultura espanhola', afirma a coordenadora da área de espanhol da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Ana Mariza Benedetti. Ontem, a congregação do Instituto de Estudos de Linguagens, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aprovou um parecer que diz que o 'embasamento científico da proposta' é nulo.
O site da Secretaria Estadual de Educação menciona como justificativa para o programa a Lei nº 11.161, aprovada em 2005, que exige o oferecimento de aulas de espanhol nas escolas de ensino médio do País até 2010. O texto do governo diz: 'essa obrigatoriedade do ensino exigirá esforço concentrado na formação de docentes'. A secretária disse ontem que mandou tirar o site do ar.
O programa foi lançado pelo governador Claudio Lembo no dia 6 e teve a participação do presidente do grupo Santander, Emílio Botín. A divulgação feita à imprensa pelo banco e pelo portal Universia dizia que o programa capacitaria '45 mil professores para o ensino da língua espanhola na rede pública de São Paulo'. Agências internacionais retransmitiram a notícia. A Assessoria de Imprensa do Universia não localizou nenhum responsável para comentar o assunto.
Apesar da indignação dos profissionais, os reitores da USP, Unesp e Unicamp participaram do lançamento do projeto. E também foi divulgado que professores das universidades fariam o monitoramento do programa. O Cervantes não é uma instituição de ensino superior. As reitorias declararam ao Estado que ainda não assinaram o convênio. 'Não vamos participar se o projeto continuar como está. Temos anos de pesquisa, pagas com o dinheiro público, que estão sendo desconsideradas', diz a coordenadora da pós-graduação da Unicamp, Silvana Mabel Serrani. Os professores se dizem dispostos a elaborar outro programa.
O curso do governo foi ainda repudiado pela Associação dos Professores de Espanhol do Estado de São Paulo e pela Associação Brasileira dos Hispanistas, que encaminhou documento ao Ministério da Educação sobre o assunto. As inscrições para o curso terminam hoje no site da secretaria. O País tem 23.561 escolas de ensino médio. Não há estimativa de professores formados na área.
O ESTADO DE SÃO PAULO – 21/09/2006
UFBA substitui vestibular por Enem
Universidade planeja acabar com prova em 2008, abrir vagas e criar ciclo básico de 3 anos para todos os alunos
Ricardo Westin
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) quer ser a primeira universidade pública do País a acabar com o vestibular. Recém-reeleito, o reitor Naomar Monteiro de Almeida Filho dá como certo que o projeto já estará valendo para os alunos admitidos em 2008.
'A tragédia do vestibular é que a pessoa decide sua vida inteira num único dia', diz Almeida Filho, o criador do sistema de cotas da universidade - desde 2005, 45% das vagas vão para negros e índios saídos de escolas públicas.
Além de ambicioso, o projeto é complexo, pois exigirá mudanças na estrutura da universidade. Serão admitidos mais alunos que hoje, e os cursos ficarão mais longos. Professores serão contratados. Haverá um ciclo básico de três anos, igual para todos os estudantes, de Dança a Medicina. É como se o vestibular se diluísse em três anos. Só depois disso, dentro da universidade, é que o curso será escolhido. Arquitetura, por exemplo, durará dois ou três anos.
Ainda não se sabe quantas vagas a universidade terá. Hoje a UFBA tem 24 mil alunos e 2 mil professores, proporção de 12 para 1. Segundo o reitor, o ideal é que haja 60 alunos para cada professor. Apesar do aumento, o novo número de vagas não será suficiente para absorver todos os recém-saídos do ensino médio (2º grau), o que exigirá uma seleção. Em vez do vestibular tradicional, será utilizado o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prova elaborada pelo Ministério da Educação para todos os alunos do 3º ano do ensino médio. 'O Enem é nacional, é gratuito e avalia o potencial', diz Almeida Filho.
Segundo o reitor, os vestibulares precisam ser extintos porque avaliam apenas o conhecimento acumulado, não o talento dos estudantes. 'Eu dificilmente passaria no vestibular. Quer dizer que não tenho condição de cursar a universidade?', diz ele, que é médico. 'No Enem, eu teria nota boa.'
INTERDISCIPLINAR
Os universitários cursarão três anos de um ciclo básico, com liberdade para escolher as disciplinas que quiserem, de todas as áreas. Isso, na visão da UFBA, fará com que deixem de ficar limitados às suas áreas e cegos às demais. Almeida Filho lembra que era esse o plano do educador Anísio Teixeira (1900-1971) ao idealizar a Universidade de Brasília (UnB). 'A idéia só não foi adiante porque os militares não deixaram. Não queriam universitários com espírito crítico.'
Modelo semelhante é aplicada na recém-inaugurada Universidade Federal do ABC,
Na UFBA, só passarão para os cursos pretendidos os alunos que tiverem acumulado boas notas no ciclo básico. Quem não passar não terá perdido tempo. Receberá um diploma de bacharel.
O novo modelo ajudará a reduzir a evasão. Para educadores, nem todos os estudantes têm maturidade para escolher uma carreira aos 16 anos e, por isso, desistem do curso no meio do caminho. Nos três anos iniciais, além de mais tempo para decidir, os estudantes terão contato com disciplinas de várias áreas.
Não será preciso construir prédios para receber os novos alunos já que muitas salas ficam vazias em certos períodos do dia. Porém, será necessário dinheiro para a contratação de professores.
O vestibular não é obrigatório. As universidades têm autonomia para escolher a forma como selecionam seus alunos.
Dezenas de especialistas estão envolvidos nas modificações, que precisarão ser aprovadas pelo Conselho Universitário. O reitor crê que não terá dificuldades. Ele acaba de ser reeleito com 60% dos votos. O fim do vestibular foi sua principal bandeira de campanha.
USP poderá aplicar provas durante 2º grau
A Fuvest estuda realizar mudanças no vestibular da Universidade de São Paulo (USP), um dos mais concorridos do País. Está em análise a aplicação de avaliações ao longo dos três anos do ensino médio (2º grau). O aluno escolheria ou as três avaliações ou o vestibular tradicional.
'O vestibular seriado é uma idéia que está em gestação', afirmou o diretor da Fuvest, Roberto Costa, num congresso sobre vestibulares realizado ontem
Há seis meses, a Fuvest teve uma reunião com representantes de quatro universidades do País que já realizam avaliação seriada. O objetivo foi conhecer as diferentes experiências e, a partir delas, criar um modelo próprio. A Fuvest não fala em datas.
Uma das instituições ouvidas foi a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pioneira nesse tipo de alternativa ao vestibular. A universidade gaúcha reserva 20% das vagas para os alunos mais bem avaliados nas três provas do ensino médio.
JORNAL DA TARDE – 22/09/2006
NOTAS
Biblioteca promove 'Leituras do Brasil'
Obras de autores consagrados das áreas de Direito, História, Sociologia e Política serão lidas e discutidas durante o evento 'Leituras do Brasil', de
Concerto em prol de entidade no Memorial
Pelo 4º ano consecutivo, a Orquestra Jazz Sinfônica faz um concerto em prol do Movimento de Apoio à Integração Social. Será no dia 8/10, às 11h, no Memorial da América Latina. Preço: R$ 30. Tel: 11-6957-9922
JORNAL DA TARDE – 22/09/2006
Educadores discutem educação infantil
MARIA REHDER
Educadores de todo o País se reuniram ontem em Brasília em torno de um único objetivo: definir as diretrizes para uma educação infantil pública de qualidade, por meio do Movimento Interfóruns de Educação Infantil no Brasil (Mieib).
Profissionais bem remunerados e capacitados para a efetivação de projetos pedagógicos que promovam a autonomia de crianças com até 6 anos.Esse é um dos maiores desafios atuais da educação infantil no Brasil, segundo Liz Ramos, membro do Comitê Diretivo do Mieib em Pernambuco. “O governo precisa valorizar os profissionais da educação infantil. Na minha opinião, o gasto anual por aluno com até 6 anos deveria ser até maior do que o valor gasto por aluno do ensino fundamental.”
Em 2005, o gasto público anual por aluno da educação infantil foi de R$ 1.107 e o valor por aluno de 1ª à 4ª série foi R$ 1.238, investimentos considerados baixíssimos quando comparados aos R$ 10.711 gastos por aluno de ensino superior no mesmo período.
Liz chama atenção para o fato de que o Brasil demorou para valorizar a educação infantil. “As entidades assistencialistas é que tiveram de se organizar para atender à crescente demanda da população. Entretanto, nem todas essas entidades, que hoje pertencem a uma rede conveniada ao governo, têm estrutura para atender às necessidades de desenvolvimento das crianças de até 6 anos.”
A especialista explica que o ideal seria que a sociedade se unisse para tentar aumentar o número de escolas públicas de educação infantil. “Não defendo o aumento de entidades conveniadas ao governo, mas sim a oferta de escolas que garantam as crianças o acesso ao ensino público de qualidade.”
Já Angela Barreto, membro do Comitê Diretivo do Mieib no Distrito Federal, também chama a atenção para as condições de infra-estrutura na Educação Infantil pública do País. “De acordo com os últimos levantamentos, apenas cerca de 32% das crianças brasileiras matriculadas na educação infantil têm acesso a um parquinho infantil.”
A educadora ressalta que apenas crianças com 6 anos completos é que estão preparadas para ingressar no ensino fundamental.
O Mieib conta com a participação de pessoas de todo o País que se articulam por meio de comitês regionais. Os interessados em fazer parte do movimento podem acessar o site: www.mieib.org.br. O telefone
Boa gestão faz toda a diferença
Segundo Mônica Amoroso, assistente de direção da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Maria Luiza Moretti Gentile, Zona Leste, um gestor com boa formação em administração é fundamental para a oferta de um ensino de qualidade. “A escola tem de garantir que seus profissionais recebam boa formação e o espaço físico seja adequado às crianças de até 6 anos para que o projeto pedagógico seja bem-sucedido.”
Já Vladi Ribeiro, diretor da creche Cônego Luiz Biasi, Zona Norte, ressalta que os gestores das entidades conveniadas têm de driblar o desafio de reter e atrair bons profissionais. “O piso salarial dos auxiliares de desenvolvimento infantil (ADI) que atuam nas redes conveniadas é menor do que o piso fixado para os ADIs que atuam nas Emeis.”
De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias de São Paulo (Sindsep), hoje o piso salarial de um ADI da creche conveniada é R$ 572,56 e o piso de um ADI inicial da rede pública de ensino é de R$ 798,03, podendo chegar até R$ 1.026,76, de acordo com o seu tempo de exercício. Para Ana Paula do Canto, diretora do Núcleo Municipal de Educação Infantil Beija-Flor, de Santana do Parnaíba, uma escola de Educação Infantil de qualidade é aquela cuja a gestão dá autonomia às crianças.
JORNAL DA TARDE – 21/09/2006
Como ajudar aluno a superar a perda
MAÍRA TEIXEIRA
A morte de uma pessoa querida é sempre uma situação dolorosa. Mas não é por isso que o luto deve ser evitado, pelo contrário, é preciso vivê-lo. Para Luciana Mazorra, doutoranda em psicologia clínica pela PUC-SP, o luto deve ser tratado da maneira mais clara possível, independentemente da idade da pessoa que está sofrendo a perda. 'É difícil tanto para adultos quanto para crianças, porque as pessoas nunca estão preparadas para enfrentar essa realidade. No entanto, crianças e adolescentes devem ser melhores preparados e amparados.'
'O professor deve preparar os colegas de classe para receberem bem o aluno que está passando pelo problema. É um momento em que as pessoas precisam de apoio, principalmente quando morre o pai ou mãe, que são a base de sustentação dos filhos.' Nessa situação, é preciso encontrar pessoas que possam dar a segurança perdida. 'Outro papel importante da escola e do professor é o de manter a rotina e estabilidade de horários e tarefas. 'Isso faz com que esse momento de instabilidade tenha um curso a ser seguido, dê um norte.'
Não há um tempo estipulado para vivenciar o luto, segundo Luciana. 'Cada pessoa reage de um jeito e é preciso viver esse período sem pressa e, principalmente, não se deve cobrar alegria ou querer alegrar uma pessoa que está digerindo e vivenciando a perda. As pessoas ficam tentando alegrar quem passa por isso, mas essa experiência (a dor) é inevitável. O máximo que podemos oferecer é apoio e disposição para ouvir os desabafos.'
A psicóloga ensina que o uso de metáforas como 'a vovó foi para o céu' ou 'fulano está descansando' é prejudicial. 'A criança cresce com uma visão errada do que é a morte e pode se sentir enganada. Uma pessoa em quem a criança confie e tenha carinho deve dar a notícia, explicar o que é a morte e ficar à disposição para ouvir os desabafos e, assim, a criança possa se sentir segura para conversar. É necessário estabelecer essa relação de confiança.'
Responder as questões o mais simples e honestamente possível também é importante. 'Evite utilizar metáforas. Se você diz a uma criança 'o vovô está dormindo para sempre', por exemplo, ela pode ficar com medo de dormir.'
A dica que ela dá aos professores é jamais explicar a perda com visões religiosas. 'Isso pode gerar um conflito, pois nem sempre os pais do aluno têm a mesma convicção religiosa do professor', explica. A especialista credita à escola, aos professores e aos colegas um papel fundamental na superação da perda.
Curiosidades
É comum surgirem muitas dúvidas. 'Tudo que a criança quiser saber dependerá de sua idade e experiência prévia com a morte. Geralmente, crianças pré-escolares não entendem que a morte é final e podem perguntar quando a pessoa que morreu vai voltar. Entre 5 e 10 anos, as crianças começam a entender que a morte é irreversível, mas acreditam que somente pessoas velhas e vítimas de acidentes morrem. Após os 10 anos, ela começa a entender que a morte é parte da ordem natural das coisas e as pessoas morrem em todas as idades, por diversas razões.'
Professor pode ajudar
Há dois anos, Renata, de 8 anos, perdeu a mãe, vítima de uma doença. A partir desse momento a menina recusou-se a falar. Preocupado e sem saber o que fazer, o pai precisou ter muito tato para ajudar a filha a desabafar e explicar o que era a morte. 'Como eu também estava sofrendo, havia dias em que chorávamos juntos e outros onde eu dava meu ombro para ela chorar.'Após muitos questionamentos sobre a morte, Renata retornou à escola , a rotina foi se normalizando e ela voltou a falar normalmente.
Para o professor e diretor da Escola de Aplicação da USP, Fabio Bezerra de Brito, algumas práticas podem ser adotadas na escola para ajudar o aluno.
Atenção às necessidades de cada pessoa
Não há prazo determinado para se superar uma perda. Cada um tem o seu tempo
No 1º ano após a morte, a vivência é mais intensa porque serão vividas as primeiras datas sem a pessoa, mas isso não
significa que a fase do luto acaba aí
Conviver com as lembranças é importante e saudável. Não prive a criança do convívio com fotos e lembranças de histórias
Permita que a criança viva, chore e assimile o luto
Crianças de 1ª a 4ª série precisam de uma atenção mais próxima do professor, que tem de estar mais sensível às necessidades. Já os adolescentes demonstram precisar mais da companhia de amigos e colegas de classe
É preciso estimular a sensibilidade dos professores e da coordenação, assim é possível perceber as necessidades do aluno e dar o respaldo emocional
JORNAL DA TARDE – 21/09/2006
NOTAS
Curso de tarô para autoconhecimento
No próximo final de semana, das 9h30 às 18h30, o tarólogo Arhan (Sérgio Padovan) ministrará um curso de tarô oracular e terapêutico. Aberto para o público em geral, o profissional ensinará técnicas de autoconhecimento, utilizando conceitos da metafísica, mitologia e psicanálise. “Após adquirir esses conhecimentos, muitas pessoas têm conseguido uma relação mais rica consigo mesma”, garante o tarólogo. O evento será no flat
Oficina de Leitura no Museu
Estão abertas as inscrições para o Projeto Oficina de Leitura - A escrita feminina. São vinte vagas que serão preenchidas através do envio de cartas de interesse pelo e-mail: museu@museudalingua.org.br ou pessoalmente na administração do Museu (Praça da Luz, s/n, 3326-0775). As cartas serão avaliadas pela orientadora da oficina, a professora Tereza Isabel de Carvalho. As aulas começam dia 27, das 14h30 às 17h30.
FOLHA DE SÃO PAULO – 21/09/2006
"A crase não foi feita para..."
PASQUALE CIPRO NETO
NO ANO PASSADO, tive a honra de ser um dos entrevistadores do poeta Ferreira Gullar em sua participação na sabatina da Folha. Aliás, fui eu que fiz a tal pergunta sobre a relação dele com os concretistas e o concretismo. A resposta de Gullar causou polêmica, manifestos, réplica, tréplica etc.
Quando cheguei ao camarim do teatro em que se deu o evento, Gullar já estava lá. Antes mesmo de me cumprimentar, foi logo dizendo: "A frase é minha, sim". "Então você lê as bobagens que escrevo", respondi, feliz com a honraria.
O autor do célebre e já trintenário "Poema Sujo" referia-se a um texto em que afirmei que, "salvo engano", a frase "A crase não foi feita para humilhar ninguém" era dele. E não é que um dos nobres integrantes do nosso nobilíssimo Parlamento teve a idéia de apresentar um projeto de lei que propõe a extinção do acento indicador de crase? Assessores do parlamentar procuraram Gullar para pedir a ele autorização para o uso da tal frase no arrazoado do projeto. O tom da coisa é demagógico, populista, típico dos sombrios dias que vivemos em relação à ignorância -alguns luminares da nossa intelectualidade adotam o paternalismo tosco, obscurantista, que resulta na falsa defesa dos fracos e oprimidos, ou seja, na manutenção destes nas trevas profundas da ignorância. Gullar mandou todos às favas, é claro ("Não entenderam coisa alguma").
A esta altura, convém relembrar o que vem a ser o fenômeno da crase. Originária do grego, a palavra "crase" significa "fusão", "ação de misturar". Em termos estritos, crase pode ser, por exemplo, a mistura de álcool e gasolina, coca-cola e rum etc. O "Aurélio" diz que em medicina "crase" significa "mistura harmoniosa dos humores corporais". Em se tratando do idioma, crase vem a ser a fusão de duas vogais iguais numa só. Há crase em "ler", por exemplo. Na evolução do latim ("legere") para o português, chegou-se a "leer" e depois a "ler".
A crase (= "fusão") se dá na transformação de "ee" em "e". Há crase também em "Vou à escola". A preposição "a" (regida pelo verbo "ir" -ir a algum lugar) se funde com o artigo "a", determinante do substantivo feminino "escola". Nesse caso, a crase, ou seja, a fusão (da preposição "a" com o artigo "a") é marcada com o acento grave.
Posto isso, vejamos uma questão (adaptada) do último vestibular da UFRGS, que pedia o preenchimento das lacunas deste trecho: "Não notamos, mas precisamos da memória também, por exemplo, para associar -- bicicleta caída -- um tombo que levamos ou para associar o trajeto da cozinha -- sala". As opções eram, respectivamente, estas: aquela ou àquela, a ou à, a ou à. Na primeira lacuna, coloca-se "aquela" ou "àquela"? Tanto faz? A resposta não é "tanto faz"; é "depende". Se a opção for por "aquela", colocar-se-á "a" na segunda lacuna ("para associar aquela bicicleta caída a um tombo que..."); se for por "àquela", a segunda lacuna ficará em branco ("para associar àquela bicicleta caída um tombo que...").
Percebeu, caro leitor, que o acento indicador de crase muda tudo, mexe com a frase toda etc.? Então, nada de cair em soluções mágicas, facilitaristas ou demagógicas. A solução é outra: ler, estudar... É isso.
inculta@uol.com.br
