Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

19/08/2026 - Resistência pedagógica à implantação obrigatória da plataforma Elefante Letrado


Pela autonomia docente, pela leitura como experiência cultural e pela defesa da escola pública

Nós,  profissionais de educação da rede municipal de ensino de São Paulo, reconhecemos que as tecnologias digitais podem constituir instrumentos auxiliares importantes para o trabalho pedagógico.

Entretanto, afirmamos que nenhuma tecnologia deve ser naturalizada como política pedagógica simplesmente porque está disponível pela Secretaria de Educação do governo do Estado, tampouco deve ser transformada em instrumento obrigatório de organização do trabalho docente, acompanhamento da aprendizagem ou controle da atividade dos estudantes, sem ampla discussão pedagógica, avaliação de impacto e participação efetiva dos profissionais de educação.

A disponibilização da plataforma Elefante Letrado na rede municipal de ensino precisa, portanto, ser analisada para além da pergunta, se é boa ou ruim.


PARA O SINPEEM, A QUESTÃO PEDAGÓGICA É FUNDENTAL PARA A ALFABETIZAÇÃO E A APRENDIZAGEM

Que concepção de leitura, aprendizagem, infância, avaliação e trabalho docente está sendo produzida quando uma plataforma digital passa a mediar, sistematicamente, a experiência leitora das crianças?

Não propomos aqui, uma rejeição simplista da tecnologia. Propomos algo mais rigoroso: a tecnologia deve estar subordinada ao projeto pedagógico da escola e não o projeto pedagógico subordinado à lógica da plataforma.


ESTA DIFERENÇA DIFERENÇA É FUNDAMENTAL

O SINPEEM, representante dos profissionais de educação da rede municipal de ensino, defende:

1. a autonomia pedagógica dos professores;

2. a leitura como prática cultural, social, estética e crítica;

3. o direito das crianças à literatura para além da lógica da produtividade;

4. a centralidade da relação professor/aluno;

5. a sala de leitura como espaço de formação de leitores;

6. a leitura compartilhada e coletiva;

7. a diversidade de práticas leitoras;

8. a avaliação pedagógica realizada pelos docentes e não por plataformas;

9. a proteção integral dos dados das crianças;

10. a participação dos educadores nas decisões que interferem no currículo e no trabalho pedagógico; e

11. a utilização de tecnologias apenas quando elas contribuírem, efetivamente, para os objetivos educacionais definidos pela escola.

 
NÃO ACEITAMOS PRINCÍPIOS PEDAGÓGICOS NOS QUAIS:

- o tempo de tela seja igual à aprendizagem;

- a quantidade de livros acessados seja  igual à formação do leitor;

- o número de atividades realizadas seja igual à qualidade da leitura;

- o percentual de acertos seja igual à compreensão integral do texto;

- o registro digital seja igual à avaliação pedagógica;

- o dado produzido pela plataforma seja igual à verdade sobre a criança.


PRINCÍPIO QUE NÃO PODE SER RELEGADO: A LEITURA NÃO É UMA MERCADORIA DE DESEMPENHO COMO QUER IMPOR A PLATAFORMA ELEFANTE LETRADO

A leitura é uma prática social e cultural. 

Ler não significa apenas decodificar palavras, responder questões ou cumprir determinada quantidade de páginas.

A formação do leitor envolve:

- interpretação, imaginação, memória, experiência, diálogo, produção de sentidos,  conhecimento de mundo, apreciação estética, posicionamento diante do texto,  construção da identidade e relação com outras pessoas e com a cultura.

Uma criança pode ler um livro rapidamente e não construir uma experiência significativa.

Outra pode demorar muito tempo, reler uma passagem diversas vezes, conversar com colegas e produzir uma interpretação profundamente significativa.

Um sistema digital pode registrar determinados comportamentos. Mas não pode substituir a experiência pedagógica do professor na interpretação desses comportamentos.

A utilização acrítica de plataformas pode produzir justamente o movimento contrário: o aluno passa a aprender aquilo que o sistema consegue solicitar e registrar.

 
PLATAFORMA COMO MECANISMO DE CONTROLE DA ATIVIDADE ESCOLAR

A tecnologia está ampliando a autonomia do educando ou está apenas sofisticando mecanismos de controle da atividade escolar?

Essa pergunta deve ser feita antes de qualquer política de utilização obrigatória.

Uma plataforma não pode ser confundida ou substituir o próprio processo de letramento.

Preocupa os profissionais de educação e é muito perigoso quando a ferramenta - plataforma - passa a funcionar como se fosse o ambiente completo de formação do leitor.

“A CRIANÇA NÃO É UM RECIPIENTE DE RESPOSTAS” (Emilia Ferreiro)

As pesquisas de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky sobre a psicogênese da língua escrita demonstram a importância de compreender a criança como sujeito ativo na construção de conhecimentos sobre a escrita.

A criança formula hipóteses, experimenta, erra, reorganiza seu pensamento, produz interpretações, constrói conhecimentos em interação com o mundo.

A pergunta do professor muitas vezes é mais importante do que a resposta automática do sistema.

Por isso, nenhum algoritmo deve substituir a interpretação pedagógica que o professor faz do percurso intelectual de uma criança.

A roda de leitura, a conversa entre crianças, a divergência de interpretações e a mediação do professor são componentes fundamentais do processo.

Quando a leitura é convertida, prioritariamente, em interação individual entre a criança e a plataforma, corre-se o risco de enfraquecer justamente a dimensão dialógica da literatura.

A escola não deve formar crianças que apenas saibam responder às perguntas de um sistema.

Deve formar crianças capazes de perguntar ao texto, ao mundo e umas às outras.

“APRENDIZAGEM É RELAÇÃO SOCIAL” (Lev Vygotsky)

A contribuição de Lev Vygotsky também é fundamental.

O desenvolvimento intelectual ocorre em processos mediados socialmente.


O PROFESSOR NÃO É SIMPLESMENTE UM DISTRIBUIDOR DA TAREFAS, COMO O GOVERNO QUER FAZÊ-LO

Ele intervém, questiona, provoca, explica, reformula, oferece pistas, escuta, observa e cria situações de aprendizagem.

Uma plataforma pode oferecer recursos, mas não pode e não consegue, ainda bem, substituir a mediação humana.


BNCC NÃO AUTORIZA REDUZIR A LITERATURA À PLATAFORMA

A BNCC apresenta a literatura como parte das práticas de linguagem e destaca a importância da relação da criança com o professor, da cultura literária e da progressiva autonomia leitora.

A própria documentação curricular destaca o papel do leitor adulto na apresentação de histórias e poesias e reconhece que crianças podem construir sentidos também por meio das imagens e da escuta de textos literários. (Base Nacional Comum⁠ Curricular)

Pedagogicamente, a formação leitora não depende exclusivamente de uma criança estar sozinha diante de uma tela.

A criança pode ouvir o professor ler; ouvir outra criança, observar imagens, conversar, dramatizar,  desenhar, escrever, recontar,  comparar histórias,  questionar personagens, discordar do autor relacionar a obra com sua vida e construir interpretações coletivas.

Portanto, a plataforma não pode ocupar o lugar do conjunto de práticas que constitui uma educação literária, tampouco as competências dos professores e professoras.


GAMIFICAÇÃO: MOTIVAÇÃO NÃO É FORMAÇÃO

A gamificação pode aumentar o interesse imediato da criança. Entretanto, precisamos e é necessário distinguir motivação para realizar uma atividade de motivação para ler.

Uma criança pode desejar obter pontos, completar fases ou alcançar determinada meta sem, necessariamente, desenvolver uma relação autônoma e prazerosa com a literatura.

O objetivo da escola não pode ser criar dependência de recompensas externas para que a criança leia.

O objetivo deve ser formar um leitor que, progressivamente, consiga dizer: - Eu quero ler. E não apenas; - Eu preciso completar a atividade.


RISCO DA PLATAFORMIZAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE

Existe um problema maior que a plataforma específica. É a transformação da escola em ambiente governado por plataformas.

Nesse modelo:

1. a atividade do estudante produz dados;

2. os dados produzem indicadores;

3. os indicadores produzem relatórios;

4. os relatórios produzem metas; e

5. as metas reorganizam o trabalho docente.

Gradualmente, o professor pode deixar de perguntar o que essa criança precisa aprender, para perguntar:

- o que preciso fazer para melhorar o indicador desta criança?

Essa inversão é pedagogicamente perigosa.


AUTONOMIA DOCENTE NÃO É OBSTÁCULO À TECNOLOGIA

O professor não é mero executor de protocolos. A autonomia profissional significa poder analisar:

- contexto da turma;

- necessidades individuais;

- desenvolvimento dos estudantes;

- currículo;

- recursos disponíveis;

- objetivos de aprendizagem; e

- adequação de determinada atividade.

Assim, uma plataforma pode ser utilizada por um professor em determinada situação e ser considerada inadequada em outra.

Isso não é resistência à inovação. É exercício da profissão docente.


PERGUNTAS DIRIGIDAS À SME

A SME fez comunicação de fato consumado. Não pode tratar assim a educação e os seus profissionais. Exigimos respostas documentadas às seguintes questões sobre a decisão de aceitar e impor a plataforma Elefante Letrado:

1. qual estudo técnico-pedagógico que fundamentou a adoção?

2. quem participou da decisão?

3. por que as unidades escolares e os seus profissionais não foram consultados, antes de qualquer decisão?

5. houve avaliação dos projetos pedagógicos já existentes na própria rede municipal de ensino e seus resultados?

6. qual é o objetivo pedagógico específico da adoção?

7. quais pesquisas demonstram impacto positivo da plataforma na aprendizagem?

8. existem dados específicos da Rede Municipal de São Paulo sobre uso dessa da plataforma?


SOBRE O TRABALHO DOCENTE:

1. a utilização será obrigatória?

2. quais atividades serão obrigatórias?

3. o professor poderá decidir não utilizar determinada atividade por razões pedagógicas?

4. os dados da plataforma serão utilizados para avaliar professores?

5. os dados serão utilizados para estabelecer metas individuais de docentes ou escolas?


SOBRE OS ESTUDANTES:

1. como serão tratados os estudantes sem acesso adequado à internet?

2. como serão contempladas crianças com deficiência?

3. como serão atendidas crianças que não conseguem utilizar a interface autonomamente?

4. como serão respeitados diferentes ritmos de aprendizagem?


SOBRE DADOS E COMPARTILHAMENTOS:

1. quais dados dos estudantes serão enviados à plataforma?

2. quem será o controlador de cada operação?

3. quem será o operador?

4. onde os dados serão armazenados?

5. por quanto tempo?

6. quem terá acesso?

7. haverá compartilhamento com terceiros?

8. haverá utilização dos dados para treinamento de inteligência artificial?

9. como serão eliminados os dados após o encerramento da relação contratual?

10. como será garantido o melhor interesse das crianças?
 

PROPOSTA DE DELIBERAÇÃO DO CONSELHO DE ESCOLA

Propomos que os Conselhos de Escola discutam e registrem em ata:

- o Conselho de Escola reconhece a importância da leitura e da utilização crítica de tecnologias educacionais, mas manifesta preocupação com a adoção obrigatória de plataformas digitais como mediadoras do processo de formação leitora;

- o Conselho defende que qualquer utilização da plataforma Elefante Letrado, ou outra com o mesmo objetivo declarado, seja complementar às práticas de leitura desenvolvidas pelos professores e pela escola, preservando a autonomia docente, a diversidade de metodologias, a centralidade da literatura, a interação humana e a avaliação pedagógica profissional;

- o Conselho solicita à Secretaria Municipal de Educação transparência quanto aos fundamentos pedagógicos, critérios de avaliação, tratamento de dados pessoais, responsabilidades institucionais, período de armazenamento das informações e utilização dos indicadores produzidos pela plataforma;

- o Conselho se manifesta contrário à utilização automática dos dados produzidos pela plataforma como instrumento de avaliação de professores, estudantes ou unidades escolares;

- solicita, ainda, que qualquer ampliação ou obrigatoriedade da utilização seja precedida de avaliação pedagógica independente e de efetiva participação dos profissionais da educação.

Para o SINPEEM a resistência deve ser coletiva e institucional.

Luta que segue em defesa da educação e da nossa profissão!

A DIRETORIA

CLAUDIO FONSECA
Presidente 

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