Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

10/07/2006 – CLIPPING


O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.


SP fica entre as piores no ranking do ensino

FOLHA DE SÃO PAULO – 10/07/2006

Capital paulista ficou em 21º lugar entre 26 capitais (Brasília não foi incluída) em português e em 20º em matemática

Avaliação
foi feita em 2005 pelo Ministério da Educação; para especialistas, resultado é reflexo da formação deficitária dos professores

DANIELA TÓFOLI
DA REPORTAGEM LOCAL

A quarta série da rede de ensino da Prefeitura de São Paulo está entre as sete piores do país, quando comparada com a das demais capitais do Brasil. O desempenho foi avaliado no fim de 2005 pela Prova Brasil, realizada pelo Ministério da Educação, e mostra o município em 21º lugar entre 26 capitais (Brasília não foi incluída) em português e em 20º em matemática. O resultado só foi divulgado no final de junho, mas apenas com os dados específicos de cada escola. O ranking geral foi feito pela Folha.
Com média 160,42 na primeira disciplina e 166,86 na segunda, os alunos das escolas municipais não alcançaram nem a metade do total de pontos possíveis nas provas, que é de 350. Eles ainda ficaram 12 pontos abaixo da média nacional em língua portuguesa e 13 pontos abaixo em matemática.
A diferença da rede municipal de São Paulo para a de Campo Grande, primeira colocada em português, é de 31 pontos e, para Curitiba, que encabeça o ranking de matemática, é de 28. Mas, na oitava série, São Paulo ganha posições e passa para a 12ª colocação em ambas as disciplinas.
O secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, afirma não ter se surpreendido com os resultados. "Esperava por esse desempenho porque já tínhamos detectado problemas na rede. Ele é fruto de anos de gestão que confundia educação com ação social", afirma. "As escolas se tornaram pontos de distribuição de projetos sociais que vão desde uniforme até renda mínima e acabaram sobrecarregadas. O corpo docente deixou de ter como única obrigação o desenvolvimento do programa pedagógico, que deve ser o foco principal da educação."
O secretário afirma que as escolas precisam voltar o foco para o ensino e conta que já há um grupo de estudos em parceria com a Secretaria de Gestão para resolver como ficará a distribuição dos projetos sociais e, assim, liberar diretores de escola dessas obrigações. Ele ressalta, no entanto, que todos os benefícios serão mantidos.

Formação dos professores

Ana Rosa Abreu, que coordenou os Parâmetros Curriculares Nacionais e faz parte do Instituto Sangari (ONG com foco na educação básica), acredita que a sobrecarga no corpo docente influencia a má qualidade do ensino municipal em São Paulo, mas, para ela, o principal problema está na formação dos professores.
"A rede da capital é hoje uma rede desgastada. Foram feitas muitas capacitações, muitas delas com projetos excelentes, mas todas de maneira desarticulada", diz. "O professor não consegue aplicar o que aprende na sala de aula. Temos um shopping de projetos de formação sem nenhum impacto na prática."
Lisandre Maria Castelo Branco, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, concorda que o problema está na formação do professor, que, segundo ela, " não foi formado para ter uma preocupação em compreender a realidade dos alunos que o cercam nem para entender -e, assim, explicar- os motivos de ensinar determinadas matérias".
Para Lisandre, o resultado ajuda a desmontar o mito de que tudo é melhor em São Paulo. "É ilusão achar que nas grandes metrópoles estão as melhores oportunidades de trabalho, de ensino ou do que for. A vida para quem não tem dinheiro aqui é brutal."
Já a presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Maria do Pilar Lacerda, também secretária municipal de Educação de Belo Horizonte, diz que é impossível comparar as redes porque as condições do país são muito diferentes. "Temos de analisar as dificuldades de cada cidade. As avaliações servem para cada sistema refletir sobre seus erros e melhorar."

Veja o ranking completo das capitais www.folha.com.br/061883

PORTUGUÊS/4ª SÉRIE

PORTUGUÊS/8ª SÉRIE**

Capital

Nota

Capital

Nota

Campo Grande

191,15

Campo Grande

241,35

Curitiba

185,30

Curitiba

238,43

Belo Horizonte

183,24

Florianópolis

230,95

Rio de Janeiro

182,93

Rio de Janeiro

230,68

Rio Branco

181,47

Boa Vista

228,80

Vitória

178,28

Porto Velho

227,98

Goiânia

175,46

Natal

227,92

Florianópolis

175,27

Teresina

227,11

Teresina

174,94

Vitória

226,15

Palmas

171,57

Goiânia

222,02

Porto Alegre

167,46

Aracaju

221,71

Manaus

165,87

São Paulo

220,09

Fortaleza

165,47

Belém

218,02

São Luís

164,64

São Luís

217,06

Salvador

164,35

Fortaleza

216,59

Cuiabá

163,65

Cuiabá

216,05

Maceió

163,31

Belo Horizonte

214,70

João Pessoa

163,26

Manaus

213,10

Aracaju

162,09

Macapá

212,59

Macapá

160,44

João Pessoa

212,18

São Paulo

160,42

Salvador

209,65

Boa Vista

161,97

Porto Alegre

209,62

Belém

159,82

Maceió

207,05

Porto Velho

158,85

Recife

201,89

Natal

150,12

Rio Branco

195,37

Recife

148,78

 

 

MATEMÁTICA/4ª SÉRIE

MATEMÁTICA/8ª SÉRIE**

Capital

Nota

Capital

Nota

Curitiba

195,34

Curitiba

260,38

Campo Grande

194,80

Campo Grande

256,95

Rio de Janeiro

189,63

Florianópolis

248,42

Belo Horizonte

187,29

Rio de Janeiro

246,42

Vitória

185,38

Natal

244,94

Florianópolis

181,95

Teresina

244,84

Teresina

180,46

Vitória

243,05

Rio Branco

179,76

Boa Vista

240,93

Goiânia

178,35

Aracaju

240,86

Porto Alegre

175,88

Porto Velho

238,68

Palmas

175,42

Goiânia

234,09

João Pessoa

172,45

São Paulo

232,27

Maceió

171,74

Cuiabá

230,32

Cuiabá

170,55

Belo Horizonte

230,21

Salvador

170,52

São Luís

229,29

Manaus

170,24

Fortaleza

227,98

Fortaleza

170,17

Belém

226,43

Aracaju

169,12

João Pessoa

224,74

São Luís

169,05

Manaus

222,63

São Paulo

166,86

Porto Alegre

222,58

Macapá

166,10

Maceió

221,16

Boa Vista

165,86

Salvador

220,66

Belém

165,81

Macapá

220,15

Porto Velho

165,38

Recife

214,82

Natal

158,69

Rio Branco

212,37

Recife

157,13

 

 


* Em Brasília não há rede municipal de ensino
** Os resultados da 8ª série de Palmas foram extraviados

Resultados são insatisfatórios em todo o país

DA REPORTAGEM LOCAL

Os resultados da Prova Brasil comprovaram que a qualidade do ensino básico brasileiro continua bem abaixo do ideal. A média de pontos obtidos pelos alunos da oitava série é a que os da quarta série deveriam ter conseguido, segundo parâmetros internacionais.
Segundo o exame, alunos de quarta série, por exemplo, ainda se atrapalham ao interpretar textos mais longos e não conseguem ler as horas em relógios de ponteiros. A média brasileira dessa série em português foi de 172,91 e, em matemática, de 179,98. Na oitava série, as médias foram 222,63 e 237,46, respectivamente. O total de pontos possíveis era de 350.
O exame foi aplicado pela primeira vez no ano passado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, órgão do MEC responsável pelas avaliações nacionais) e ainda não se sabe qual será sua periodicidade. Em 2005, a prova foi feita em 5.398 municípios de todos os Estados, avaliando 3.306.378 alunos.
O objetivo do exame, segundo o Inep, é auxiliar no direcionamento de recursos financeiros e na implantação de ações pedagógicas. (DT)

FOLHA DE SÃO PAULO – 09/07/2006
Senador admite alterar Estatuto da Igualdade Racial e incluir cota social

Para o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais), questão é de desigualdade 

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Autor do projeto que deu origem ao Estatuto da Igualdade Racial, o senador Paulo Paim (PT-RS) admitiu ontem que, se for esta a vontade do governo, pode ampliar o conceito do estatuto para cotas sociais, o que incluiria critérios de pobreza e renda, e não mais raciais.
Ontem, o senador discutiu a possibilidade de mudança com a ministra Matilde Ribeiro (Secretaria Especial para Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil). "Como o projeto já está em tramitação há muito tempo, o melhor caminho seria, se for o caso, fazer essa modificação na Câmara", afirmou.
Caso seja modificado, o projeto terá de voltar ao Senado, no qual já havia sido aprovado em consenso entre oposição e governo. Nesta semana, Paim e a ministra voltarão a discutir a possibilidade de mudança.
A sinalização de que o governo deve mudar seu entendimento surgiu em declarações do ministro Tarso Genro (Relações Institucionais). À Folha, ele negou que o governo tenha mudado de posição em relação ao tema, mas admitiu querer "ajudar" para que a discussão das cotas não seja colocada só como uma questão racial.
"Achamos que a questão racial existe, mas está imersa na desigualdade social. E, dentro dessa desigualdade, os afro-descendentes são os mais atingidos", afirmou Tarso.
Segundo o ministro, o governo vê o projeto do senador Paim como positivo, mas avalia que, sem um debate amplo, ele pode sofrer resistências.
O ministro também disse que a prioridade do governo é tentar acelerar a tramitação do projeto que reserva 50% de vagas nas universidades públicas federais para alunos de escolas públicas. Pelo projeto, parte dessas vagas seriam reservadas para negros e índios.
O projeto que prevê as cotas foi aprovado nas comissões da Câmara e seria encaminhado ao Senado. Mas, devido a um requerimento do deputado Alberto Goldman (PSDB-SP), terá que ser apreciado também pelo plenário da Câmara.
O Estatuto da Igualdade Racial tem alguns pontos polêmicos, como o que prevê ao menos 20% de atores afro-brasileiros em programas de TV.

FOLHA DE SÃO PAULO – 09/07/2006
Apenas R$ 12
 

Gilberto Dimenstein

UMA DAS regiões mais pobres e violentas da região da Baixada Fluminense, marcada pelo desemprego e tráfico de drogas, Nova Iguaçu iniciou neste ano uma experiência que mostra como manter uma criança na escola de manhã até o final da tarde -e ao custo de apenas R$ 12 mensais por aluno.
Esse valor foi atingido porque se decidiu não contratar ninguém, não alugar nenhum imóvel, nem construir novas instalações: aproveitou-se o que já estava, na cidade, disponível, pouco usado e disperso tanto de espaços como de recursos. Como neste ano eleitoral candidatos à Presidência e a governos estaduais serão obrigados a apresentar soluções para os problemas da educação e da violência, especialmente em áreas metropolitanas, experiências como a de Nova Iguaçu, apesar de engatinhando, merecem ser observadas.
Essa solução nasceu por causa de um impasse. A prefeitura, dirigida por Lindberg Farias (PT), queria construir escolas como os CEUs, em São Paulo, e os CIEPs, no Rio. Feitas as contas, percebeu-se que não haveria dinheiro para a construção nem para a manutenção dessas unidades. Por falta de alternativa, o município investiu então na idéia de bairros educativos para ocupar os espaços próximos às escolas que pudessem ser utilizados pelos estudantes depois ou antes de assistirem às aulas -clubes, academias esportivas, núcleos socioeducativos, entidades não-governamentais, templos e igrejas, que fariam parte de trilhas organizadas e monitoradas por professores.
Um prosaico problema impedia a circulação dos estudantes: as calçadas repletas de camelôs ou tomadas pelos comerciantes. Depois de uma negociação, eles desocuparam o espaço público. Para dar visibilidade às trilhas, crianças, seus pais e artistas da comunidade fizeram intervenções coloridas nos muros - o que serviu para embelezar a cidade e facilitar os trajetos. Por trás dessa rede opera um mecanismo de gestão dentro do governo para colocar as diferentes secretarias num foco comum, cruzando as diversas políticas públicas. Seria impossível, por exemplo, para uma diretora de ensino, por mais bem-intencionada, tirar os camelôs das calçadas ou aprimorar a sinalização nas ruas para facilitar a circulação dos estudantes. Fazer uma parceria com os agentes de saúde ou guardas municipais para que olhem seus alunos ou oferecer, como se está planejando, esportes de madrugada para reduzir a violência juvenil.
Mesmo sem erguer nada e utilizando os espaços disponíveis, chegou-se ao gasto mensal de R$ 45 por criança. Para baixar esse valor até bater nos R$ 12, concentraram-se no projeto de bairros educativos os recursos do município de programas federais voltados à inclusão pela educação, antes dispersos em rubricas de esporte, cultura, geração de renda, trabalho infantil. E, aí, o projeto tornou-se viável -e, de quebra, replicável. Apesar de se ver mudança na atitude dos alunos em casa e na escola, ainda é cedo para avaliar a experiência, cujo sucesso depende de uma série de fatores, entre eles a qualificação dos profissionais, a capacidade de manter as políticas públicas articuladas e a adesão da cidade. Depende também de que não vire instrumento de marketing de um governo ou de um prefeito, mas um patrimônio coletivo. Não se está inventando a roda. Estudos extremamente detalhados demonstram que a rede formada por família, comunidade e escola tende a estimular o aprendizado e reduzir a violência. Basta ver o ranking, divulgado há poucos dias, da Prova Brasil, que avalia o conhecimento dos alunos em português e matemática da rede pública em todo o país. As escolas de cidade do interior, onde o capital social -a família está mais próxima dos filhos e dos professores, por exemplo- tiraram, na média, as melhores notas. 
O que Nova Iguaçu está sugerindo é que a escola em tempo integral, uma das peças para reduzir desigualdades, combater a violência e elevar a taxa de cidadania, depende menos de obras e contratações do que de gestão de recursos disponíveis.
P.S. - O município de São Paulo, sede de faculdades e de centros de pesquisa de renome mundial, de sofisticadas fundações empresariais e ONGs, acaba de demonstrar seu maior sinal de incompetência. Na Prova Brasil, a cidade conseguiu ficar abaixo das médias de Estados como Piauí, Ceará, Bahia, Maranhão e Alagoas, marcados pela miséria extrema e por carências educacionais. Isso deveria ser o maior motivo de vergonha dos paulistanos, em geral, e de seus ex-prefeitos, em particular.
@ - gdimen@uol.com.br

FOLHA DE SÃO PAULO – 09/07/2006 (TENDÊNCIAS/DEBATES)
Educação básica

FERNANDO HADDAD

O Senado Federal deu demonstração de grandeza aprovando o Fundeb por unanimidade, na esteira do ocorrido na Câmara

GRAÇAS À AÇÃO coordenada dos dirigentes da educação dos três níveis de governo -municipal, estadual e federal- foi possível acordar uma agenda de transformação da educação básica do país. Os avanços até aqui obtidos merecem consideração. A arrecadação para repasses da União aos Estados e municípios relativos ao salário-educação saltou de R$ 3,7 bilhões em 2002 para R$ 5,9 bilhões em 2005.
As transferências voluntárias da União, que em 2002 atenderam 497 municípios, passaram a atender 1.625, o que permitiu ampliar o acesso a projetos federais voltados para formação de professores, reforma e construção de escolas, equipamentos, material pedagógico etc.
O ensino obrigatório, em linha com a experiência internacional, passou de oito para nove anos. O investimento mínimo por aluno do ensino fundamental, no Fundef, teve reajuste de 26% acima da inflação. A merenda escolar, que teve seu valor reajustado em 70% (após uma década sem reajuste), foi estendida à educação infantil, e o livro didático foi oferecido aos estudantes do ensino médio.
O Bolsa-Família praticamente universalizou o atendimento às crianças pobres e garantiu sua permanência na escola (hoje, 90% das escolas informam a freqüência das crianças atendidas contra 19% em 2002). Foi estimulada a integração do ensino médio à educação profissional, vedada por decreto de 1997, e ampliadas as oportunidades de acesso de estudantes de nível médio à educação superior, pelo ProUni (100 mil bolsas de estudos ao ano) e pela expansão das universidades federais (ampliação de 25% da oferta de vagas públicas).
Criou-se programa emergencial de apoio ao ensino médio com investimentos anuais de R$ 400 milhões. Retomaram-se os investimentos, vedados por lei de 1998, na expansão das escolas técnicas federais (50 novas escolas, com ampliação de 40% da oferta de vagas).
Todo esse esforço é coroado por três projetos estruturais: Prova Brasil, Universidade Aberta e Fundo da Educação Básica. O Prova Brasil muda o conceito de avaliação. Os dados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), antes amostrais, são divulgados também por escola, o que aumenta a responsabilidade da comunidade de pais, professores e dirigentes com o desempenho. Torna a escola menos estatal e mais pública. Permite identificar boas práticas, disseminando-as, e insuficiências, o que torna possível enfrentá-las de forma efetiva.
Os dados, recém-lançados, sugerem que os esforços de Estados e municípios em melhorar a qualidade da educação surtem efeito. As médias, que vinham caindo desde que a qualidade da educação básica é medida, sofrem uma inflexão significativa na 4ª série do ensino fundamental. A Universidade Aberta muda o conceito de formação de professores. Em regime de colaboração, Estados e municípios, de um lado, e universidades federais, de outro, estabelecem acordos de cooperação técnica. Por meio deles, os entes federados mantêm pólos de apoio presencial para abrigar professores sem curso superior ou formar novos professores.
As universidades federais, da sua parte, oferecem os cursos de licenciatura e pedagogia. A União remunera professores-bolsistas das universidades responsáveis pelas disciplinas ministradas e arca com custos da produção do material pedagógico. No dia 30 de junho foram assinados 311 acordos de cooperação, o que permitirá oferecer, em 2007, 90 mil vagas de ingresso, majoritariamente para professores da educação básica, atendidos por 4.800 professores universitários. Quando instalados os 1.000 pólos previstos, os mais de 2 milhões de professores do país estarão associados a um pólo nas proximidades de onde trabalham.
Por fim, o Fundeb (Fundo da Educação Básica), o mais ambicioso projeto de financiamento da educação básica, substituirá o Fundef com três vantagens: 1) aumenta substancialmente o compromisso da União com a educação básica, aportando cerca de R$ 5 bilhões de investimento ao ano (contra uma média de R$ 500 milhões), 2) institui um único fundo para toda a educação básica, da creche ao ensino médio (e não apenas para o ensino fundamental) e 3) estabelece piso salarial nacional do magistério.
O Senado Federal deu demonstração de grandeza com a educação básica, aprovando o Fundeb por unanimidade, na esteira do ocorrido na Câmara dos Deputados, que aprovou o novo fundo, em janeiro, pelo placar de 457 votos a 5. Que a educação continue sendo tratada de forma suprapartidária para o bem do Brasil.
FERNANDO HADDAD é ministro da Educação.

FOLHA DE SÃO PAULO – 09/07/2006 (TENDÊNCIAS/DEBATES)
Apelo ao bom senso

ANTÔNIO GOIS

RIO DE JANEIRO - O debate sobre a lei de cotas e do estatuto da igualdade racial corre o risco de ficar polarizado em dois extremos que não levarão a nada. Do lado dos partidários das ações afirmativas, percebe-se, em alguns grupos, um perigoso radicalismo que reduz a questão a um embate entre os defensores dos negros e uma elite branca e racista que não quer perder seus privilégios e que, por isso, se opõe às mudanças.
O estabelecimento de critérios oficiais de definição de raça pelo Estado altera a estrutura da sociedade brasileira de forma radical. É legítimo e fundamentado o temor, por parte de alguns intelectuais, de que isso atrapalhe mais do que ajude no processo de construção de uma verdadeira democracia racial.
Do lado dos que atacam as ações afirmativas, no entanto, também há um discurso simplista que tenta desqualificar os defensores do projeto. O argumento mais usado é de que estes não entendem que o mais importante é investir no ensino básico de qualidade como forma de acabar com as desigualdades.
O investimento na base é óbvio e urgente, e deve ser feito com ou sem cotas. Ninguém está propondo ações afirmativas em vez de um ensino público de qualidade. Não é essa a discussão.
O risco que corremos, neste caso, é repetir na educação a tese de que é preciso esperar o bolo crescer para reparti-lo. E se o bolo da educação não crescer, como tem sido regra na nossa história? O que diremos daqui a 20 anos a esta população que, justamente, cobra igualdade de oportunidades?
Tomo livremente emprestada do pesquisador Creso Franco, da PUC do Rio, a seguinte frase: "A segunda pior solução possível para esse problema são as cotas. A pior é não fazer nada".
agois@folhasp.com.br

FOLHA DE SÃO PAULO – 08/07/2006
Filosofia e sociologia serão obrigatórias no ensino médio 

Decisão foi aprovada ontem; depois da homologação, escolas, inclusive as da rede particular, deverão ajustar grade curricular no prazo máximo de um ano

SIMONE HARNIK
DA REPORTAGEM LOCAL

As disciplinas de filosofia e sociologia vão se tornar obrigatórias no ensino médio. A decisão foi aprovada ontem, com um parecer do Conselho Nacional de Educação, e deve ser homologada nas próximas semanas pelo ministério.
A partir daí, as escolas terão um ano para ajustar a grade curricular.
A mudança afeta os Estados que não oferecem as disciplinas -que terão ainda os custos de contratação de professores- e a rede particular de ensino.
Para as escolas com sistema de currículo flexível, ou seja, que não ensinam por meio de matérias, mas sim de conteúdos, não vai haver necessidade de alterações.
Hoje em dia, 17 Estados já oferecem as duas matérias de maneira obrigatória, duas de forma optativa e seis não oferecem.
Pela lei atual, que vai ser modificada, é preciso transmitir os conteúdos dessas áreas, mas não necessariamente na forma de disciplina -os conteúdos podem, por exemplo, ser passados nas aulas de história.
De acordo com o relator do parecer, o conselheiro Cesar Callegari, originalmente a idéia era fixar um prazo mais curto, de seis meses, para a adaptação dos sistemas educacionais. Mas, por causa do ano eleitoral, esse prazo foi ampliado.

Conseqüências
As conseqüências da aprovação da medida pelo conselho nacional e sua homologação no Ministério da Educação, segundo ele, serão amplas.
"Vai ser preciso contratar professores, readequar currículos, formular material didático, determinar o programa das matérias e criar programas para a capacitação de professores, pois muitos dos licenciados não vinham trabalhando na área, já que as matérias estavam fora do currículo", afirma.
Para o presidente do Sieesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo), José Augusto de Mattos Lourenço, a mudança é negativa. "A inclusão dessas novas disciplinas é totalmente absurda. Isso vai engessar as escolas, que tinham liberdade para montar sua grade curricular."
Segundo ele, os colégios deverão diminuir a carga horária de outras disciplinas para acrescentar as novas matérias. "Se for para aumentar a quantidade de aulas, com certeza isso terá reflexo no valor da anuidade", acrescenta.
A reivindicação da obrigatoriedade das duas disciplinas começou em 1998. Para a Apeoesp (sindicato dos professores do Estado de São Paulo), a medida está relacionada à qualidade do ensino humanista.
Na rede estadual paulista, de acordo com a presidente em exercício do sindicato, Maria Izabel Azevedo Noronha, os impactos não devem ser tão grandes.
"As disciplinas já foram instituídas no ensino médio e há professores para ministrá-las", aponta.


O ESTADO DE SÃO PAULO – 10/07/2006
Cristovam quer pasta para educação básica

Na TV, ele critica presidente e diz que início de sua gestão foi um caos 

Silvia Campos 

O candidato do PDT à Presidência da República, senador Cristovam Buarque, defendeu a criação de um ministério exclusivo para a educação básica, caso seja eleito, em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Bandeirantes. Cristovam, que falou de educação na maior parte do tempo, defende a federalização do ensino básico e a criação de um programa nacional para o magistério.
Em crítica ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cristovam reafirmou que se indispôs com a administração petista durante o período em que foi ministro da Educação. Ele disse que não conseguiu combinar o seu plano para a educação com a equipe de Lula, porque o início do governo era um "caos". "Entreguei 31 metas (para a educação) para o Lula e ele jogou fora", disse. Cristovam planeja para um eventual governo dobrar o salário dos professores em quatro anos. A meta seria aumentar o orçamento para a pasta em R$ 20 bilhões neste período.
O senador defende a estabilidade monetária na economia e revelou que, em 1998, chegou a aconselhar Lula a manter o ex-ministro da Fazenda da gestão de Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, e Gustavo Franco por cem dias durante o período de transição.
Questionado se as suas opiniões sobre a política econômica não se diferenciam das do PDT, Cristovam retrucou: "O PDT me escolheu candidato sem que eu mudasse uma linha do meu discurso."
Voltando a falar sobre educação, ele criticou o Fundeb, o qual considera um programa "medíocre". "O Brasil é um País que comemora mediocridades", afirmou o candidato.
O senador também fez críticas ao PT e disse que saiu da sigla porque o partido fugiu dos seus princípios. Revelou que enviou uma carta ao então ministro Luiz Gushiken duas semanas antes de ser demitido para falar sobre sua insatisfação e brincou: "Talvez seja por isso (que foi demitido)."
"O que é grave para o Lula é que ele era a única esperança do País no banco de reservas, entrou em campo e frustrou." Ele não quis revelar quem apoiaria num eventual segundo turno.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 10/07/2006
Autor aceita incluir cotas sociais no estatuto 


Fabio Graner

Paim prefere sistema híbrido, mas diz que o principal é chegar a um projeto que inclua excluídos

Autor do projeto do Estatuto da Igualdade Racial, o senador Paulo Paim (PT-RS) disse ao Estado que aceita mudá-lo, desde que de fato "inclua os excluídos". Segundo ele, o ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) afirmou que o governo apóia o projeto como está, mas aceita discutir a substituição das cotas raciais por cotas sociais. Paim não vê problema na discussão e acha positiva a idéia de um sistema híbrido. "O estatuto está em debate há dez anos no Congresso. É o terceiro substitutivo. Foi construído mediante amplo acordo que envolveu Congresso e ministérios."
Na semana passada, Tarso anunciou, em entrevista ao Estado, que o governo planeja rever o projeto do estatuto, alterando os critérios para concessão de cotas. Em vez da raça, seriam consideradas a renda e a origem da pessoa.
Segundo Paim, Tarso lhe garantiu que o governo não retirou o apoio à proposta do estatuto, apesar da mudança no critério. "Mas ele disse que o projeto está aberto à discussão na Câmara dos Deputados", afirmou.
"Minha posição é semelhante. Não estou preocupado com o nome do estatuto. Estou preocupado que a redação final saia com políticas afirmativas que incluam os que estão excluídos. Se o governo entender que deva fazer alterações, e a sociedade, que contribuam para uma redação de consenso, que efetivamente inclua os excluídos, não tenho nada contra. Vou além, pretendo na segunda-feira pedir no Senado audiência pública para fazer um debate qualificado com as duas partes que se manifestaram, contra e a favor", disse o senador petista.

RESGATE DOS NEGROS


A alteração do critério, de racial para social, pode, no entanto, reduzir o potencial de resgate do negro, na opinião de Paim. "Reduz o potencial de inclusão do povo negro tão marginalizado. É real. Não há quem não reconheça no Brasil que o racismo existe, não é isso que está em debate. O movimento negro apresentou o projeto de cotas. Como disse frei Davi, se alguém tiver projeto melhor para a inclusão do povo negro, que apresente. Acho que tem que estar aberto ao debate", disse.
Como alternativa, Paim afirmou que concordaria com um sistema híbrido, que combinasse o critério racial com o social. "Um sistema híbrido, que contemplasse a questão social, que é horizontal e atinge todo mundo, é universal; e pensar nos que estão sendo discriminados de forma acentuada."
Por esse prisma, de acordo com o senador, em um grupo de negros, aqueles que têm melhor situação social não precisariam ser alvo da política afirmativa. "Vou te dar o meu exemplo. Eu vou além. Eu, como senador, seria um absurdo colocar meus filhos na (universidade) federal. Porque, se posso pagar, vou colocar meus filhos na federal, enquanto os filhos dos pobres têm que ir para a particular? Temos de criar uma solidariedade. Que os que possam mais não tirem o lugar dos que podem menos", concluiu Paim.
Apesar da discussão em torno do Estatuto da Igualdade Racial e da política decotas, Paim diz considerar que não há perigo de um agravamento do preconceito com a política, conforme defende um grupo de intelectuais que, inclusive, já divulgou um manifesto nesse sentido.

PRECONCEITO


"Não há a menor possibilidade (de agravamento do preconceito). Políticas afirmativas são de inclusão. Houve o mesmo debate quando resolvemos incluir a história dos afro-brasileiros na formação do povo brasileiro. No fim, aprovou-se a lei, as escolas passaram a aplicar e não houve problema algum. Esta não é a questão. Ninguém em sã consciência vai entender que se nós aprovarmos as políticas afirmativas isso será um instrumento para acirrar a disputa entre raças ou classes", disse Paim.
O senador diz que o maior problema do estatuto é a questão das cotas. "A polêmica está aí. Temos de ouvir todos os setores para construir o melhor. Cada um tem um ponto de vista", afirmou o petista Paim.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 10/07/2006
Desafio: estender as qualidades do ensino no interior para a capital

Schneider explica como pretende aplicar algumas das virtudes em prática no interior em toda as escolas da cidade


Lourival Sant’Anna


A Prova Brasil, o exame realizado em toda a rede pública do País pelo Ministério da Educação, e divulgado há uma semana, confirmou algo que já se percebia: as escolas públicas do interior têm, em média, desempenho melhor que as de cidades grandes. Elas reúnem ingredientes como baixa rotatividade de diretores e professores, participação da comunidade e salários que dão maior poder de compra e atraem profissionais melhores.
Na rede municipal da cidade de São Paulo, há escolas boas e ruins. As boas costumam contar com pelo menos parte desses ingredientes. Em entrevista ao Estado, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, explica como pretende estender algumas dessas virtudes para toda a rede da cidade. Entre as prioridades, Schneider, de 36 anos, formado em administração pela Fundação Getulio Vargas, enumera acabar com os três turnos diurnos, melhorar os salários dos professores , livrar os diretores de escolas de tarefas dissociadas do ensino e consolidar o programa de reforço em leitura e escrita.
Seria possível estender as virtudes das boas escolas do interior para as da capital, ou é uma dinâmica totalmente
diferente e a abordagem é outra?
Lógico que tem similaridades. Existem escolas como a Amorim Lima, no Butantã, em que a diretora está lá há dez anos. Tem um projeto. É uma escola que funciona em dois turnos, é organizada, está numa região que tem uma universidade próxima (a USP), uma série de organizações (comunitárias), o que possibilita uma interação, num bairro com estrutura, com crianças que têm uma vida mais estável. Acho que tudo isso ajuda a ter resultados melhores que os de outras escolas que a gente tem na rede, que têm muitas dificuldades. Das nossas 459 escolas de ensino fundamental, 309 operam em três turnos diurnos, e justamente na periferia, em regiões onde não há redes (locais) formadas, e onde os pais têm mais dificuldades de participar do dia-a-dia da escola. Então, esses ingredientes não se verificam nessas escolas. Além disso, tem uma coisa que vale para a rede inteira, que é um histórico da administração, que levou para a escola uma série de atribuições que não são as de ensinar.

Quais?

Hoje, um diretor de escola se preocupa com entrega do leite, do uniforme escolar, de tênis, organização do transporte escolar, cadastramento nos programas sociais do município, do Estado e do governo federal. Isso tira o diretor do foco principal dele que é saber se as crianças estão ou não aprendendo. Estamos tomando algumas medidas para desonerar o diretor - e muitas vezes até o professor. Estamos falando com os sindicatos, e a idéia é que a gente ou crie essa função dentro da escola, para cuidar disso, ou que a gente tire da escola essas funções, que talvez seja o caminho mais adequado. As subprefeituras podem distribuir uniformes. A gente veste uma cidade média paulista: são 1 milhão de peças. Então, o seu diagnóstico está correto. É natural que nas cidades menores a gente tenha um melhor desempenho porque a comunidade está mais próxima da escola. Muitas vezes, o professor dá aula para o filho de um conhecido, há um controle social, e o salário não é ruim para a realidade local.

Dá para melhorar o salário?

Estamos trabalhando para melhorar o salário, apertando a execução do orçamento deste ano. Para melhorar o salário, é preciso ter dinheiro. É o que a gente está buscando. Ainda não tem um horizonte de prazo.

Não dá para mexer na estrutura de gastos?

Estamos mexendo. É onde a gente alcança. Temos 50 mil profissionais. A educação significa para o município 50% do funcionalismo inteiro. Enquanto a escola assumiu aquelas funções sociais, a gestão pedagógica foi deixada de lado. Os papéis foram invertidos. O currículo ficava a cargo de cada escola. Cada um dava o que queria. Isso, desde o ano passado, começou a mudar. No primeiro semestre do ano passado, fizemos um diagnóstico; no segundo semestre, planejamento; e em fevereiro deste ano lançamos o Programa de Desenvolvimento de Competência Leitora e Escritora, aplicado a todas as disciplinas. Nossa própria equipe, juntamente com os coordenadores pedagógicos das melhores escolas da rede, está criando um material didático próprio, em apostilas, que dá uma idéia para o professor de como organizar todas as atividades.

Faz sentido manter o programa de CEUs (Centros Educacionais Unificados), de escolas-modelo, diante dessa realidade emergencial, em que a maioria das escolas funciona com três turnos diurnos?

Faz sentido, se a gente conseguir acabar com os três turnos, e é isso que a gente vai fazer até 2008. O CEU não é só escola-modelo. É um local que está aberto mais do que para os alunos, também para a comunidade, seus pais, o entorno. E estão em locais onde não tem isso. O melhor equipamento, ou o único, é o CEU. Isso é importante.

Para coordenadora, lei é permissiva com professor

A legislação estadual é “permissiva” e precisa mudar. A opinião é de Sônia Silva, coordenadora de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria Estadual de Educação, sobre o alto índice de faltas de professores, apontado ontem pelo Estado. Segundo ela, o problema diminuiu com a política de dar bônus anuais de acordo com a assiduidade dos professores.
Sônia não acredita que os baixos salários sejam determinantes. “Muitas pessoas que ganham os mesmos salários nunca faltaram, apesar de todas as adversidades”, argumenta. “É uma questão de compromisso com a educação. O professor tem de ter consciência do papel social que tem.” Para jornada de 30 horas, o salário inicial no ensino fundamental é de R$ 1.144, segundo a secretaria.
A coordenadora também é incisiva quanto à capacitação. “Quem quer, se aperfeiçoa”, diz. Pelo programa Teia do Saber, as diretorias de ensino firmam convênios com universidades e oferecem cursos nos fins de semana, com transporte pago. Quem participa, sobe na carreira. São oferecidas também bolsas de mestrado e doutorado.
De acordo com a secretaria, das 5.408 escolas estaduais, 4.637 estão informatizadas. Sônia diz que, nas escolas em que os alunos não têm acesso aos computadores, muitas vezes o que acontece é que os diretores têm medo de que eles quebrem. “Já dissemos aos diretores: mesmo que quebre, é para usar.”
A secretaria anunciou que vai liberar recursos extras para a manutenção dos computadores. Curso criado pela PUC-SP, com patrocínio da Microsoft, capacita diretores em “gestão da informação e da comunicação”. Sônia diz que a secretaria oferece “a todo professor que quiser” curso de informática básica e de uso de software em sua matéria específica.L.S.

JORNAL DA TARDE – 10/07/2006
NOTAS
 

Cursinho barato
 

Nos próximos dias 15, 22 e 29, o Cursinho 20 de Novembro, voltado a alunos de baixa renda, recebe inscrições para as turmas de agosto, em suas unidades do Metrô Tiradentes e Vila Matilde. As aulas acontecem a partir de 4 de agosto, sempre aos sábados e domingos. Informações: 6651-8811.

Aprenda a elaborar um projeto cultural 

Projetos culturais e leis de incentivo são tema de curso na Universidade do Livro, que tem início no próximo sábado. Serão abordados temas como a elaboração de projetos culturais, os aspectos econômicos, o que são as leis de incentivo e o procedimento para o uso do incentivo, assim como preenchimento de formulários e apresentação do projeto. As aulas acontecem nos dias 15, 22 e 29 de julho. R$ 280. Informações: 3242-9555.

Cursos grátis na Livraria Cultura 

Neste mês, as duas filiais da Livraria Cultura (Shopping Villa-Lobos e Market Place) vão promover atividades gratuitas para crianças. Nesta quinta-feira, será feita uma oficina de 'aramemania', que vai ensinar a fazer cartões, blocos, animais, cadarços de tênis, flores, etc. No sábado é a vez da oficina de origami, em que um arte-educador ensinará o público a confeccionar diversas figuras tridimensionais por meio desta arte de dobrar o papel.

Metodista: trabalho social no Litoral Sul 

Quarenta alunos da Universidade Metodista de São Paulo ficarão uma semana em Praia Grande, no Litoral Sul, junto a voluntários da Igreja Metodista, para atuarem nas comunidades carentes. O projeto acontece entre os dias 15 e 22. Os estudantes são de disciplinas diversas e realizarão trabalhos de assistência social, como bazar, corte de cabelo gratuito e cursos de artesanato. Mais informações no site da universidade: www.metodista.br.

JORNAL DA TARDE – 10/07/2006
Os professores também estudam 

O Museu Lasar Segall promove curso de artes para os docentes em julho 

O Museu Lasar Segall promove, entre os dias 19 e 21, o curso especial de férias para professores, voltado para profissionais em exercício, educadores de instituições culturais e estudantes de licenciatura em artes.
O curso fornece subsídios para a preparação do ensino de arte em sala de aula, com enfoque nas xilogravuras e gravuras em metal desenvolvidas por Lasar Segall (1891-1957), e trabalhos que enfocam as linguagens do desenho, pintura e escultura e suas possibilidades educativas.
Cada professor recebe duas unidades de material didático, com textos sobre o expressionismo e sobre a trajetória de Segall, além de 28 imagens de obras com proposições didáticas. “As aulas oferecem dinâmicas individuais e em grupo, que propiciam múltiplas possibilidades de uso do material”, diz a coordenadora da Área de Ação Educativa do museu, Anny Christina Lima.
As inscrições serão abertas amanhã. As vagas são limitadas - 35 professores, sendo dez da rede de ensino estadual, dez da municipal, dez da particular e cinco para educadores de instituições culturais e estudantes. O valor do curso é R$ 60 para profissionais da rede privada e R$ 30 para profissionais da rede pública. Mais informações pelo telefone 5574-7322.
O Museu Lasar Segall foi idealizado por Jenny Klabin Segall, viúva do artista, e fundado em 1967 pelos filhos Mauricio Segall e Oscar Klabin Segall. Hoje, ele integra o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

JORNAL DA TARDE – 10/07/2006
Folga? Não, férias em Harvard

Cinco alunos do Augusto Laranja ganham bolsa de estudos na universidade americana 

As férias de cinco alunos do Colégio Augusto Laranja também serão na escola - mas em uma das melhores do mundo. Eles viajaram dia 24 de junho para Massachusetts, nos Estados Unidos, e estudarão até o dia 17 deste mês na conceituada Universidade de Harvard.
A bolsa de estudos para o curso de verão na instituição americana é dada aos alunos do 3º ano do ensino médio que conseguiram média geral igual ou maior que 9 durante todo o 2º ano. Geralmente, um ou dois alunos do Augusto Laranja conseguem a proeza por ano. Desta vez, cinco estudantes chegaram lá!
"A premiação foi se fortalecendo a cada ano e passou a ser um referencial importante para os alunos", afirma a diretora escolar Rosa Costa de Paula. De acordo com ela, manter média tão alta em todas as matérias no 2º ano em um colégio exigente como o Augusto Laranja não é nada fácil.
"Eles batalharam, demonstraram interesse, motivação, autoconfiança e foram muito exigentes consigo, por isso, mereceram o prêmio", afirma Rosa.
Em Harvard, os participantes do programa de verão podem optar por um curso profissionalizante dentre as diversas áreas oferecidas e, no final, entregam um projeto que será avaliado com uma nota pelo professor. Amanda Cappellazzo Arabage, de 16 anos, foi uma das ganhadoras. Ela conta que esta é sua primeira vez no exterior. "Sabia que seria uma oportunidade única e me esforcei muito para isso. Algumas vezes, cheguei a achar que não ia conseguir, mas felizmente deu tudo certo", comemorou.
Estudando no Augusto Laranja desde a 4ª série do ensino fundamental, Amanda disse que, no ano passado, aumentou sua rotina de estudos, mas manteve as atividades de teatro, espanhol e inglês desenvolvidas no colégio.

JORNAL DA TARDE – 10/07/2006
Curtindo as férias. Na escola

Alunos que não foram viajar passam o mês com professores, em atividades especiais 

Sair de férias nem sempre é sinônimo de ficar longe dos livros ou da escola. Muitas instituições de ensino aproveitam o período para realizar, em suas próprias dependências, atividades recreativas e culturais voltadas aos estudantes que não viajaram. Outras dão aos alunos lição de casa para ser feita durante as férias, além de sugestões de livros, filmes e peças .
Pela primeira vez, no Colégio Assunção (3887-3433), as portas foram abertas em julho para a realização de atividades esportivas e socioeducativas. "Em cada semana, fazemos as brincadeiras e até os lanchinhos ligados a um continente diferente. Agora, por exemplo, o tema das atividades é a África", conta a diretora pedagógica do colégio, Sílvia Russo. "A intenção é não dar cara de aula ao conteúdo passado, mas ensinar de uma maneira bem lúdica." Segundo Sílvia, o projeto é voltado principalmente às crianças do período integral. "Fazemos isso porque muitos pais continuam trabalhando em julho e não têm onde deixar os filhos."
Nas dependências da Casinha Pequenina ( 5548-3131), unidade de educação infantil do Colégio Friburgo, crianças de 3 a 6 anos têm, até o dia 28, a oportunidade de brincar e aprender pintura, modelagem, teatrinho, música, histórias e culinária na própria escola - instalada em uma ampla área verde, com pôneis, ovelhas, coelhos e pássaros. O curso de férias é aberto a não alunos e oferecido em três períodos: manhã e tarde (R$ 25 a diária, com um lanche) ou integral (R$ 53, com dois lanches e almoço).
Também a Escola Ponto Omega (3031-4296) abriu as portas para a criançada - alunos ou não - nas férias, com todas as atividades feitas na Oficina de Artes. Elas aprendem a criar marionetes de papel, porta-moedas coloridos, esculturas em argila e até caixinhas com mosaicos diversos. Os preços dos cursos variam conforme a permanência da criança na escola.
Já no Colégio Santa Maria (5687-4122), os estudantes da educação infantil ao ensino fundamental levaram tarefas para casa. A turma do pré ganhou um livrinho com lições de escrita e desenho. A 1ª série deve ler um livro e elaborar um diário de férias. Os estudantes de 5ª a 8ª séries saíram com um roteiro de sugestões de livros que serão trabalhados no segundo semestre, além de dicas de passeios culturais. A aluna da 6ª série, Amanda Figueira, de 12 anos, já está adiantando as lições e começando a ler os livros. "Também vou ao Museu do Ipiranga", conta. Ela diz que "gosta mais ou menos" das atividades dadas pelos professores no mês de folga. "Depende da lição..."

JORNAL DA TARDE – 10/07/2006
O educar não tem férias 

Içami Tiba 

Quem tem filhos pequenos nunca tem paz: perto ou longe deles os pais sempre zelam pelos seus filhos. Portanto, o educar não tem férias. Trabalho e afazeres e escola ocupam uma boa parte do ano da família. Férias seriam para dar um tempo para fazer algo desligante, diferente, repousante, aventureiro, prazeroso. As férias podem ser excelentes para estreitar os laços familiares, para numa convivência concentrada haver uma educação de duas vias: de pais para filhos e vice-versa. Pela convivência concentrada os pais podem se dedicar a perceber como os filhos curtem o passeio, o filme, o shopping, as compras, os programas. Isto se consegue com os pais se colocando como se fossem os filhos, ajudados pelo que os filhos lhes passam. Num zoológico, os pais podem mostrar um elefante e o filhinho registrar o tamanho de suas fezes. Um bom exercício educativo é os filhos escolherem seus programas tendo como acompanhante os pais. A maneira que os pais se comportam eles podem imitar quando acompanharem os programas que os pais escolherem. Pratica-se o aprendizado com as novidades, passam-se os valores relacionais e sociais de uma maneira light e vivida.

JORNAL DA TARDE – 10/07/2006
Um desafio ao secretário
 

Em entrevista, diz o que fará para melhorar ensino 

LOURIVAL SANT'ANNA

A Prova Brasil, exame realizado em toda a rede pública do País pelo Ministério da Educação, e divulgado há uma semana, confirmou algo que já se percebia: as escolas públicas do interior têm, em média, desempenho melhor que as de cidades grandes. Elas reúnem ingredientes como baixa rotatividade de diretores e professores, participação da comunidade e salários que dão maior poder de compra e atraem melhores profissionais.
Na rede municipal de São Paulo, há escolas boas e ruins. As boas costumam contar com pelo menos parte desses ingredientes. Em entrevista ao JT, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, explica como pretende estender algumas dessas virtudes para toda a rede da cidade. Entre as prioridades, Schneider, de 36 anos, formado em administração pela Fundação Getúlio Vargas, aponta acabar com os três turnos diurnos, melhorar os salários dos professores, livrar os diretores de escolas de tarefas dissociadas do ensino e consolidar o programa de reforço em leitura e escrita. Leia a seguir:
Seria possível estender as virtudes das boas escolas do interior para as da capital, ou é uma dinâmica totalmente diferente e a abordagem é outra?
Lógico que tem similaridades. Existem escolas como a Amorim Lima, no Butantã, em que a diretora está lá há dez anos. Tem um projeto. É uma escola que funciona em dois turnos, é organizada, está numa região que tem uma universidade próxima (a USP), uma série de organizações (comunitárias), o que possibilita uma interação, num bairro com estrutura, com crianças que têm uma vida mais estável. Acho que tudo isso ajuda a ter resultados melhores que os de outras escolas que a gente tem na rede, que têm muitas dificuldades. Das nossas 459 escolas de ensino fundamental, 309 operam em três turnos diurnos, e justamente na periferia, em regiões onde não há redes (locais) formadas, e onde os pais têm mais dificuldades de participar do dia-a-dia da escola. Então, esses ingredientes não se verificam nessas escolas. Além disso, tem uma coisa que vale para a rede inteira, que é um histórico da administração, que levou para a escola uma série de atribuições que não são as de ensinar.

Quais?

Hoje, um diretor de escola se preocupa com entrega do leite, do uniforme escolar, de tênis, organização do transporte escolar, cadastramento nos programas sociais do município, do Estado e do governo federal. Isso tira o diretor do foco principal dele que é saber se as crianças estão ou não aprendendo. Estamos tomando algumas medidas para desonerar o diretor - e muitas vezes até o professor. Estamos falando com os sindicatos, e a idéia é que a gente ou crie essa função dentro da escola, para cuidar disso, ou que a gente tire da escola essas funções, que talvez seja o caminho mais adequado. As subprefeituras podem distribuir uniformes. A gente veste uma cidade média paulista: são um milhão de peças. Então, o seu diagnóstico está correto. É natural que nas cidades menores a gente tenha um melhor desempenho porque a comunidade está mais próxima da escola. Muitas vezes, o professor dá aula para o filho de um conhecido, há um controle social, e o salário não é ruim para a realidade local.

Dá para melhorar o salário?

Estamos trabalhando para melhorar o salário, apertando a execução do orçamento deste ano. Para melhorar o salário, é preciso ter dinheiro. É o que a gente está buscando. Ainda não tem um horizonte de prazo.

Não dá para mexer na estrutura de gastos?

Estamos mexendo. É onde a gente alcança. Temos mais de 50 mil profissionais. A educação significa para o município 50% do funcionalismo inteiro. Enquanto a escola assumiu aquelas funções sociais, a gestão pedagógica foi deixada de lado. Os papéis foram invertidos. O currículo ficava a cargo de cada instituição de ensino. Cada um dava o que queria. Isso, desde o ano passado, começou a mudar. No primeiro semestre do ano passado, fizemos um diagnóstico; no segundo semestre, planejamento; e, em fevereiro deste ano, lançamos o Programa de Desenvolvimento de Competência Leitora e Escritora, aplicado a todas as disciplinas. Nossa própria equipe, juntamente com os coordenadores pedagógicos das melhores escolas da rede, está criando um material didático próprio, em apostilas, que dá uma idéia para o professor de como organizar todas as atividades.

Faz sentido manter o programa de CEUs (Centros Educacionais Unificados), de escolas-modelo, diante dessa realidade emergencial, em que a maioria das escolas funciona com três turnos diurnos?

Faz sentido, se a gente conseguir acabar com os três turnos, e é isso que a gente vai fazer até 2008. O CEU não é só escola-modelo. É um local que está aberto mais do que para os alunos, também para a comunidade, seus pais, o entorno. E estão em locais onde não tem isso. O melhor equipamento, ou o único, é o CEU. Isso é importante.

JORNAL DA TARDE – 09/07/2006
Agora só falta aprender
 

LOURIVAL SANT'ANNA

Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou heroicamente o desafio da universalização do ensino fundamental. Enquanto menos da metade das crianças entre 7 e 14 anos freqüentava a escola nos anos 50, hoje esse índice é de 96%. Agora que quase todas elas estão lá, a pergunta a fazer é: o que estão aprendendo?
Muito pouco. A realidade é sombria, sobretudo nas escolas públicas, que atendem 90% dos alunos no ensino fundamental e 88% no médio. A Prova Brasil, avaliação feita pelo Ministério da Educação na rede pública, e divulgada há uma semana, mostrou que o aluno médio conclui a 4ª série compreendendo apenas textos curtos e contas simples. Na 8ª série, ele chega ao nível que deveria ter atingido na 4ª.
Não há somente um motivo para a escola pública ser ruim. "Nos anos 50, as professoras eram meninas de classe média, porque no mundo machista da época mulher não podia ser outra coisa", lembra o especialista Cláudio de Moura Castro, de Belo Horizonte. Com os salários que se pagam - o da rede municipal de São Paulo, que não é dos piores, começa em R$ 509 e vai até R$ 2.461 -, a escola pública não atrai profissionais qualificados.
"Não vejo como um cidadão pode viver com um salário desse", diz Adelson Cavalcanti de Queiroz, presidente interino do Sindicato dos Profissionais em Educação do Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem). "Não temos condições de desenvolver o que precisamos para sermos bons profissionais."
Como as carreiras das professoras só duram 25 anos (e dos professores, 30), já ingressamos na geração que estudou na escola pública massificada e decadente. "Os professores não sabem ler e escrever", constata a consultora Guiomar Namo de Mello, de São Paulo.
A primeira - e óbvia - tarefa seria formar melhor o professor. Como sua base é em geral ruim, não é uma empreitada fácil. Mas, em grande medida, não se está sequer tentando. "Nunca se pensa na aprendizagem do mestre", critica Guiomar.
A progressão continuada, que aboliu a reprovação dos alunos - uma outra boa idéia, em princípio -, retirou um fator de pressão para que os alunos assimilassem conteúdos. "Não é progressão continuada, é aprovação automática", lamenta Maria Izabel Noronha, presidente interina do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). "Os alunos são literalmente empurrados."
Mesmo as crianças e adolescentes pobres são bombardeados de estímulos no seu mundo, ainda que só tenham acesso à televisão - sem falar em internet, videogame etc. Desconectada da realidade, a escola se reduz a uma obrigação sem sentido. Na pesquisa que fez com 1.172 professores, e que resultou no livro O professor refém, Tania Zagury, pesquisadora carioca, perguntou qual a maior dificuldade deles. "Manter a disciplina em sala" veio em primeiro lugar, com 22%, seguida de "Motivar os alunos", com 21%.
Eles não têm recursos, intelectuais e materiais, para motivar os alunos. Muitas escolas públicas têm salas de computadores, por exemplo, mas ficam fechadas, pois não há professores que saibam utilizar as máquinas.
Além de se desempenharem mal, muitas vezes os professores não comparecem. Segundo Tania, o alto índice de faltas se deve, em grande parte, à desmotivação e ao esgotamento causado pela sobrecarga de trabalho.
Conversando com estudantes de escolas públicas de São Paulo (ver abaixo), o JT constatou como podem ser fúteis os motivos alegados para a ausência dos mestres. A professora de educação física, por exemplo, faltou três semanas porque bateu o carro e o de inglês, que só vai uma vez por mês, está fazendo tratamento para gagueira.
"Uma escola em que o professor falta porque quebrou o carro, a diretora provavelmente não está conseguindo gerenciar", analisa Guiomar. Por outro lado, diz a especialista: "Que diretor admite um professor gago? Alguém o entrevistou."
Se quiser combinar universalização e qualidade, o Brasil terá de fazer muito mais. "É necessário muito dinheiro", diz Guiomar. "Não de salário de professor, mas de recurso, de tempo de permanência da criança na escola, de apoio pedagógico e de aprendizagem para o professor, porque se ele não souber, não vai conseguir ensinar."

'Na hora a gente entende, depois esquece' 

Em depoimentos, crianças e adolescentes que estudam em escolas públicas de sete bairros das zonas Norte e Leste de São Paulo falaram sobre o que estão aprendendo 

15 ANOS, 1.º ANO
ESCOLA ESTADUAL
MANOEL DA NÓBREGA
Casa Verde
Ela avalia que suas notas estão boas: teve média geral de 5,5 no semestre. Quer estudar medicina. Teve média 7 em biologia. No seu caderno, há uma lição sobre o sistema circulatório. "Ele é formado por...?", pergunta o repórter. "Faringe", erra a menina; "coração, fígado", continua. "Ah, não sei. Quando tá no dia da matéria, a gente entende, mas depois esquece." Ela tem lição de casa a cada três dias.

13 ANOS, 7.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL
MANOEL DA NÓBREGA
Casa Verde
"Inglês aprendi pouco porque o professor está sempre faltando. Ele é gago e diz que tem de faltar para ir ao médico. Só tem comparecido uma vez por mês. Aprendi o possessive. Acho que é isso." Ela não sabe como se diz "meu" em inglês. O professor disse que os alunos precisam comprar um livro para estudarem em casa. Mas ainda não passou o nome do livro.

14 ANOS, 8.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL
HUMBERTO DANTAS
Vila Nova Cachoeirinha
Ele gosta só de geografia e de história, nas quais tirou média "P", de "plenamente satisfatório", a mais alta. Em geografia, diz que está estudando "o mapa geológico". "Não sei se é esse o nome mesmo." Mapa-múndi? "Isso." Está aprendendo sobre Portugal. Não sabe o nome de sua capital, mas sabe que é um país pequeno. "Em história, estou estudando sobre o país de Berlim. Não sei se é país." Em que época? "Ah, meu, não tá decorado."

14 ANOS, 8.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL PROFESSOR LUIZ GONZAGA RIBEIRO
Vila Nova Cachoeirinha
Sua melhor média no semestre foi "A" em geografia. O que está estudando? "Peraí, deixa eu pegar o caderno." Volta: "É sobre o continente europeu." O que sobre o continente? "Não sei. Deixe eu ver aqui. Ah, tudo. População, os rios, tudo." Que rios? A garota consulta o caderno: "Danúbio, Reno, Vogal." Não é Voga? "Ah, é." Ela não lembra o nome de nenhum país por onde passa algum desses rios.

13 ANOS, 7.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL
HUMBERTO DANTAS
Vila Espanhola
Sua melhor média do semestre foi um "P" em inglês. Sabe fazer frases em inglês? "Com a professora, sim, porque quando erro alguma coisa ela ajuda", esquiva-se o menino. Consegue se lembrar de palavras: dog, cat, pencil, mas confunde lápis com caneta. Frases-clichê, como Where are you going to? e How old are you?, ele não sabe o que significam. "To eu sabia, mas esqueci. "You ainda não sei."

10 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL
TENENTE-AVIADOR FREDERICO GUSTAVO DOS SANTOS
Vila Nova Cachoeirinha
Sua matéria preferida é matemática, em que tirou média "P+", assim como em português. Ele escolhe uma conta difícil para mostrar seus conhecimentos: 32 dividido por 3. Toma o bloco de anotações do repórter e acerta. E uma de multiplicação? Ele acerta de novo: 23 x 2 = 46. O menino não está tendo educação física. A professora bateu o carro e não comparece há três semanas.

9 ANOS, 3.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL UBALDO
COSTA LEITE
Taipas
O menino não se lembra de sua nota em matemática, mas diz que foi "mais ou menos boa", e que estão estudando contas. O repórter lhe pergunta quanto são 5 vezes 5. Ele faz uma pausa. "Não sei." E 3 vezes 4? "16?"

11 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL UBALDO
COSTA LEITE
Taipas
Melhores notas: "A" em português e "B" em matemática. "Em português, leio histórias de pintores de quadros explicando as cores e histórias de índios. Eles faziam fortalezas para os portugueses não invadir." O menino diz que sabe a tabuada de somar, multiplicar e dividir até 10. Acerta as respostas de quanto são 6 vezes 6 e 6 vezes 8. Em todo o semestre, a professora, que dá todas as matérias, só faltou um dia.

9 ANOS, 3.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL PROFESSOR ANDRÉ DE ALCKMIN
Taipas
A menina teve média 10 em português e 9 em matemática. Ciências, história e geografia a professora só vai dar no segundo semestre. Em português, está estudando as sílabas tônicas. Acerta todos os "testes" que o repórter lhe faz. Leu a história de Pinocchio e responde corretamente a perguntas sobre o enredo. Diz que sabe a tabuada de 1, de 2, e de 9. Acerta quanto são 2 vezes 9. É raro sua professora faltar. Na sala de informática, cada aluno usa o computador por 12 minutos. Seus pais, um porteiro e uma dona de casa, ajudam na lição.

8 ANOS, 2.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL
PROFESSOR ANDRÉ DE ALCKMIN
Taipas
Também gosta de matemática, e sabe fazer contas de "vezes" e de divisão. À pergunta quanto são 4 vezes 3, ela calcula com os dedinhos e responde certo. Na sala de leitura, leu a história da Pequena Sereia. Sabe contá-la em detalhes.

12 ANOS
, 6.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL
ZARINA ROLIM
Penha
Sua melhor nota este semestre foi em português. "Estou estudando negócio de pretérito, lá, presente." Lembra-se de algum verbo? "Não, mudei esses dias para o Zarina, não estou pegando bem o ritmo direito." O menino se transferiu há três semanas. Antes, estudava na Escola Estadual Barão de Ramalho. Um dia, na calçada da escola, antes que o portão se abrisse, vieram três "moleques" que ele não conhecia, o derrubaram no chão e lhe arrancaram dos pés os tênis novos, de R$ 150. De matemática, diz que não entende nada. De inglês, ele ainda não teve nenhuma aula nessa escola. "Acho que a professora está faltando. A gente fica no pátio."

16 ANOS, 1.º ANO
ESCOLA ESTADUAL NOSSA
SENHORA DA PENHA
Penha
Em história, o rapaz está vendo as Cruzadas. Quando foram? "Não peguei só o ano. Mas fiz o trabalho sobre isso. Tinha alguma coisa a ver com religião. A Igreja não queria que os que não acreditavam em Deus ficassem donos das terras." Ele não se lembra de palavras como "muçulmanos" ou "mouros".
O rapaz diz que nunca teve informática na escola. "Tem computador, mas eles não dão."

JORNAL DA TARDE – 09/07/2006
Cultura e culinária francesa 

MAÍRA TEIXEIRA

O JT, em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação (NCE-USP), coordenado pelo professor Ismar de Oliveira Soares, propõe uma aula de culinária para ser trabalhada interdisciplinarmente por professores do ensino médio.
Ela foi elaborada pela professora Cristina Casadei Pietraróia, da área de Língua e Literatura Francesa da FFLCH-USP e presidente da Associação dos Professores de Francês do Estado de São Paulo ( APFESP ), com a colaboração de Heloisa Moreira, professora de Francês da 5ª série do Colégio Santa Cruz.

INTRODUÇÃO

Partiremos do provérbio francês: "Dize-me o que comes e te direi quem és." Esse é um dos muitos provérbios que indicam a relação dos franceses com sua alimentação, uma relação privilegiada que faz com que a gastronomia seja parte da identidade nacional. Na França, comer não é "engolir" qualquer coisa às pressas, mas sim comer bem, saborear pratos feitos com bons ingredientes, elaborados com cuidado, bem apresentados e degustados em volta de uma mesa, com amigos e familiares. Cada região francesa tem seus pratos típicos, feitos com ingredientes locais, e são acompanhados também por um bom vinho da região. Além disso, muitas festividades francesas são marcadas por comidas típicas, como é o caso dos "crepes", apresentados na aula de hoje.

OBJETIVO

O objetivo dessa aula é fazer com que os alunos descubram o prazer não apenas de degustar um prato típico francês - e conhecer os aspectos culturais que o envolvem -, mas também de fazer os próprios crepes, de "colocar a mão na massa" e aprender uma receita que poderão depois repetir em casa, com a família.

ATIVIDADE

Esta aula compreende três etapas:

1) a apresentação do crepe, sua origem etimológica, sua história, seu contexto cultural atual e suas curiosidades;
2)a preparação e fritura do crepe, que traz um desafio para os alunos: conseguir "virar" o crepe sem deixá-la cair fora da frigideira;
3)a degustação do crepe, cada aluno escolhendo o recheio que deseja para saboreá-lo.
Trata-se de uma atividade que demanda uma infra-estrutura externa à sala de aula: espaço para a manipulação dos ingredientes (mesa de trabalho com utensílios culinários - liquidificador, tigela e fogão).

DESENVOLVIMENTO

Primeiro momento: apresenta-se a história do crepe para os alunos, bem como o dia da Chandeleur - em que ele é o prato principal -, as curiosidades e os provérbios que envolvem essa receita.
Segundo momento: fazer os crepes com os alunos. É interessante apresentar-lhes todos os ingredientes em francês, solicitar que repitam as palavras e juntamente com os alunos contar a quantidade também em francês.
Terceiro momento é o de degustar os crepes e fazer comentários sobre essa especiaria francesa, que muitos no Brasil vão associar à panqueca. No entanto, o crepe é mais fino e mais leve do que a panqueca, devendo ser comido logo após sua preparação.

MULTIPLICANDO

Depois de os alunos terem aprendido como fazer os crepes, o professor poderá propor alguns exercícios para uma avaliação da aula. Uma das atividades pode ser a de reconhecer em sentenças em português que palavras são francesas. Fazer exercícios com duas colunas (uma com desenho de objetos em francês e a outra com os nomes correspondentes).

PORTUGUÊS E FRANCÊS

No livro Palavras sem Fronteiras (Editora Record), Sérgio Correa da Costa, ex-embaixador brasileiro em Washington e há 12 anos residente na França, recuperou 3 mil palavras que circulam livremente entre 46 idiomas. Das 3 mil palavras identificadas pelo autor, principalmente na imprensa mundial, 1.420 são francesas e 1.150 inglesas, ou seja, a língua francesa é a que teve maior influência mundial.
No Brasil, a influência dessa língua também foi importante. Conhecidos como "galicismos" ou "francesismos", os termos de origem francesa presentes no idioma português se devem não apenas às relações históricas entre Portugal e França, como também à disseminação da literatura francesa entre nós.
São milhares os galicismos incorporados ou transformados em empréstimos na língua portuguesa (o estrangeirismo é o termo que mantém sua forma original na nova língua; o empréstimo é o termo que se adapta à nova língua e a ela se incorpora com transformações ortográficas).

POR QUE FRANCÊS?

Aprender uma língua estrangeira é aprender uma nova maneira de pensar e de ver o mundo.
Aprender uma língua desenvolve nosso raciocínio, nos faz ver e aceitar as diferenças entre os povos, assim como compreender melhor nossa própria língua e cultura.
No mundo de hoje é possível ver e falar com o outro lado do planeta apenas com o toque de um botão. Quanto mais línguas você aprender maior será sua compreensão do mundo e mais oportunidades você terá!
Sabe qual é o segredo para aprender uma língua nova? Compreender uma palavrinha aqui, outra ali, e aos poucos, depois de uns meses, perceber que você já entende e até fala francês.

BIBLIOGRAFIA

Sartre, Jean-Paul, Sartre no Brasil, A Conferência de Araraquara, tradução Luiz Roberto Salinas Fortes, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, São Paulo, Unesp, 1986; Académie Culinaire de France - Cuisine Française, Editora Le Bélier, 1971; Mozzani, E. , Le Livre des Superstitions, mythes, croyances et légendes, collection Bouquins, Editions Robert Laffont, 1995; Cretin, N., Thibault, D., Le Livre des Fêtes, Gallimard Jeunesse, 1995

Equipe de Consultoria Educomunicativa: Carmen Gattás, Izabel Leão, Luci Ferraz .

JORNAL DA TARDE – NOTAS – 09/07/2006
Masp exibe mostra do artista francês Degas 

Para os professores que quiserem aliar arte ao plano de aula sugerido hoje pelo JT, uma boa dica é a mostra "Degas, o universo de um artista", que acontece até 20 de agosto no Masp.
A mostra traça o panorama histórico da vida do artista, exibindo obras de pintores e escultores que influenciaram seu trabalho, como Ingres e Corot, ou que por ele foram influenciados. (11) 3251.5644

Site da Nova Escola traz as aulas do 'JT' 

Os professores já podem ter acesso a todas as atividades publicadas pelo JT em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da USP por meio do site da Revista Nova Escola: www.novaescola.org.br, que também conta com planos de aulas elaborados por educadores. Outra boa dica é o portal do NCE-USP, que traz textos complementares para a realização das atividades sugeridas aos domingos no JT: www.usp.br/nce.

USP: francês para professores 

Amanhã é o último dia das inscrições para o Curso de Férias de Francês (Nível I) do Departamento de Letras
Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da (FFLCH) da USP. O curso é destinado a graduandos e pós-graduandos da USP e de outras universidades, professores da rede pública e particular e funcionários da USP. Informações: 11-3091-4645

Comédia mostra a cultura francesa 

A comédia francesa Pais, Filhos & Etc , que está em cartaz no Cine Segall em São Paulo, é uma opção para quem quer saber um pouco mais sobre a cultura francesa. O filme traz a história do velho Leo, que tem três filhos que não se falam. Para resolver o problema, ele inventa que tem uma doença gravíssima e vai morrer. Como seu último desejo pede aos filhos que o acompanhem em viagem ao Canadá. (11-5574-7322)

PORTAL DO MEC – 07/07/2006
Filosofia e sociologia são disciplinas obrigatórias no ensino médio

O Conselho Nacional de Educação (CNE) decidiu nesta sexta-feira, 7, por unanimidade, que as escolas de ensino médio devem oferecer as disciplinas de filosofia e sociologia. A medida torna obrigatória a inclusão das duas matérias no currículo do ensino médio em todo o país, ampliando o que já era praticado em 17 estados.
Segundo o relator da proposta, conselheiro César Callegari, a decisão vai estimular os estudantes a desenvolverem seu espírito crítico. “Isso significa uma aposta para que os alunos possam ter discernimento quando tomam decisões e que sejam tolerantes porque compreendem a origem das diversidades”, declarou.
Na avaliação do titular da Secretaria de Educação Básica (SEB/MEC), Francisco das Chagas, a medida vai ampliar o número de vagas para profissionais de filosofia e sociologia. “A falta de professores em algumas situações também vai se adequar porque, com o ensino obrigatório das duas disciplinas, os cursos de graduação formarão mais profissionais para atuarem no setor”, disse.
A proposta de mudança foi feita pelo Ministério da Educação em 2005, mas como é do CNE a prerrogativa de definir as diretrizes curriculares nacionais, a deliberação foi feita pelos conselheiros. Agora, o parecer será homologado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. Segundo o documento aprovado, os estados terão um ano para incluir a filosofia e a sociologia na grade curricular do ensino médio.

Mudança – Para o professor de filosofia Aldo Santos, de São Paulo, a decisão vai promover uma mudança na estratégia educacional que desenvolve o pensamento, a reflexão e a ação dos estudantes. “Agora, o jovem vai entender o seu papel na história e saber que ele pode ser um agente transformador na sociedade”, analisou.
A inclusão das disciplinas de sociologia e filosofia no currículo do ensino médio foi comemorada por cerca de 150 professores e estudantes, que compareceram ao auditório do CNE. Houve até champanhe após a aprovação do parecer pelos conselheiros.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 10/07/2006
Escolas explicam problemas apontados por alunos

Secretaria estadual pediu às direções explicações para falhas divulgadas ontem no ‘Estado’

A edição de ontem do Estado trouxe relatos de crianças e adolescentes sobre ausências de professores e falta de acesso às salas de informática de suas escolas. A Secretaria Estadual de Educação acionou as direções das respectivas escolas e enviou as seguintes explicações.

FALTAS DE PROFESSORES

Escola Estadual Manoel da Nóbrega, na Casa Verde
Professor de inglês é gago, diz que está fazendo tratamento e por isso dá aula só uma vez por mês.

“De acordo com laudo da Secretaria de Estado da Saúde, esse professor conta com boa saúde e capacidade física para o exercício do cargo”, assinala a escola. “Ele está fazendo tratamento com fonoaudiólogo, que vem dando resultados”. Segundo a secretaria, “afastá-lo do cargo, além de contrariar o laudo médico, nada tem a ver com os conceitos de respeito e aceitação das limitações ou diferenças, sejam elas de professores ou alunos”. A escola nega que o professor só dê aula uma vez por mês.

Escola Estadual Padre Antão, na Penha
Professor de educação física falta constantemente porque sua mulher está doente.
Segundo a secretaria, “trata-se de profissional competente cujas faltas estão devidamente autorizadas por atestados médicos em razão de grave doença familiar (com contratação de professor substituto)”.

Escola Estadual Barão de Ramalho, na Penha
Professora de português falta constantemente.
“A presença da professora é freqüente”, garante a escola. “Em caso de falta, os alunos não ficam sem aula: no período da manhã, por exemplo, contamos com três professores de português preparados para eventuais substituições.” No total, a escola tem 14 professores substitutos.

Escola Estadual Zarina Rolim, na Penha

Professora de inglês não vai, e os alunos ficam no pátio.
Segundo a diretoria de ensino, a professora esteve de licença médica entre 1º e 14 de maio, e as aulas foram dadas por professores eventuais.

FALTA DE ACESSO À SALA DE INFORMÁTICA

Escola Estadual Manoel da Nóbrega, na Casa Verde
De acordo com a direção da escola, entre 10 horas e 12h20 os computadores são usados em aulas de reforço para alunos com dificuldades em português e matemática. Sempre que pedem à direção para usar os computadores, os alunos são atendidos. Podem usá-los também nos fins de semana.

Escola Estadual Nossa Senhora da Penha
A escola deve receber dez computadores até o fim do mês. Enquanto isso, professores de disciplinas como matemática, história e física já desenvolvem projetos com os equipamentos que a escola tem atualmente. A sala de informática entrará em funcionamento no próximo semestre.

Escola Estadual Maria Aparecida Machado Julianelli, em Engenheiro Goulart

Os
computadores foram furtados. Também deve receber dez computadores ainda este mês.

Escola Estadual Prof. Luiz Gonzaga Riguini, na Vila Nova Cachoeirinha

A direção da escola garante que a sala de informática está disponível e conta com professor voluntário e aluno monitor. L.S.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 10/07/2006
Notas: Educação

VESTIBULAR
Fuvest amplia prazo para solicitar isenção

Candidatos que pretendem solicitar a isenção da taxa de inscrição da Fuvest 2007 terão mais dois fins de semana no mês de agosto - nos dias 5, 6, 12 e 13 - para concorrer ao benefício. Neste ano, serão oferecidas 65 mil isenções. O estudante deverá comprovar renda familiar igual ou inferior a R$ 385 mensais, por pessoa. A inscrição deve ser feita das 8h às 17h, em 39 pontos espalhados pela capital, Grande São Paulo, interior e litoral. A lista dos documentos pedidos e os endereços dos postos de entrega está disponível no site www.fuvest.br.

PÓS-GRADUAÇÃO
Programa dará bolsa de estudo nos EUA

Recém-formados nas áreas de Ciência e Engenharia podem concorrer ao programa Fulbright Science and Technology Award for Outstanding Foreign Students, que escolherá dois candidatos brasileiros para concorrer a uma das 25 bolsas de doutorado pleno oferecidas em instituições americanas. As inscrições serão analisadas nos Estados Unidos por professores e pesquisadores de várias universidades. Para concorrer, é necessário ter terminado a graduação até 1.º de agosto de 2007. Informações podem ser obtidas no site www.fulbright.org.br.

POLÍTICA PÚBLICA
Incluir faz inscrições para deficientes

Instituições federais de ensino superior podem se inscrever no Programa Incluir, do Ministério da Educação, que fornecerá incentivos para promover a inclusão de alunos com necessidades especiais. Serão destinados ao programa R$ 1,1 milhão neste ano e cada universidade receberá R$ 100 mil. As reitorias terão de incluir no projeto apresentado ações de acessibilidade na arquitetura, no projeto pedagógico e na área de comunicação. As inscrições terminam no dia 24 e as regras já foram publicadas no Diário Oficial. Informações: www.mec.gov.br.

CIÊNCIA
Museu levará desafio tecnológico a escolas

Na quinta-feira, o Museu de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) levará desafios tecnológicos aos estudantes das escolas do Estado. Batizado de Oficina Desafio, trata-se de um caminhão adaptado com equipamentos e ferramentas, como serras, chaves, alicates, lixadeira. Monitores treinados estimularão os alunos, divididos em equipes, a encontrar soluções para problemas do cotidiano. Escolas que quiserem mais informações para agendar uma visita podem entrar em contato com o projeto pelo e-mail mc@reitoria.unicamp.br.

AFROBRAS
Cursinho abre vagas para turma de agosto

O cursinho comunitário da ONG Afrobras abriu inscrições para as turmas que começarão em agosto, no período da manhã e da noite. As mensalidades custam R$ 75 e incluem, além das aulas, material didático e plantão de dúvidas. Serão dadas aulas de língua portuguesa, história, inglês, geografia, biologia, matemática, química e física. Interessados devem se inscrever na Rua Washington Luis, 236, com cópia do documento de identidade, CPF, comprovante de
residência e foto. Informações: (0xx11) 3228-1824. 

O ESTADO DE SÃO PAULO – 09/07/2006
As crianças já estão na escola; agora só falta elas aprenderem

Ausências de professores, salários baixos, falta de preparo e de recursos estão entre os entraves na rede pública
Lourival Sant'Anna

Nas últimas décadas, o Brasil enfrentou heroicamente o desafio da universalização do ensino fundamental. Enquanto menos da metade das crianças entre 7 e 14 anos freqüentava a escola nos anos 50, hoje esse índice é de 96%. Agora que quase todas elas estão lá, a pergunta a fazer é: o que estão aprendendo?
Muito pouco. A realidade é sombria, sobretudo nas escolas públicas, que atendem 90% dos alunos no ensino fundamental e 88% no médio. A Prova Brasil, avaliação feita pelo Ministério da Educação na rede pública, e divulgada há uma semana, mostrou que o aluno médio conclui a 4ª série compreendendo apenas textos curtos e fazendo contas simples. Na 8ª série, ele chega ao nível que deveria ter atingido na 4ª.
Sempre que se fala na crise do ensino público, os mais velhos vêm com doces recordações da escola pública em que estudaram. Algumas dessas escolas ainda são boas, numa prova de que "público" não é necessariamente sinônimo de "ruim". Mas são exceção, ecos daquele passado em que as escolas atendiam menos da metade das crianças do País.
Num certo sentido, a qualidade do ensino público foi atropelada pelo imperativo da universalização. "Claro que é muito importante que a criança vá para a escola, mas os gestores acharam que era só colocá-la lá. Descuidaram da qualidade", observa a pesquisadora Tania Zagury, do Rio. "Só se quis cumprir a lei." Desde 1971, o ensino é obrigatório dos 7 aos 14 anos.
Não há um motivo único para a escola pública no Brasil ser ruim. Comecemos pelos professores. "Nos anos 50, eram meninas educadas, inteligentes, de classe média, que iam ser professoras, porque no mundo machista da época mulher não podia ser outra coisa", lembra o especialista Cláudio de Moura Castro, de Belo Horizonte. Com os salários que se pagam - o da rede municipal de São Paulo, que não é dos piores, começa em R$ 509 e vai até R$ 2.461 -, a escola pública não atrai profissionais muito brilhantes. "Hoje, professor é quem cursou escolas muito ruins."
"Não vejo como qualquer cidadão pode viver com um salário como esse", diz Adelson Cavalcanti de Queiroz, presidente interino do Sindicato dos Profissionais em Educação do Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem). "Não temos condições de desenvolver aquilo que precisamos para sermos bons profissionais."
Como as carreiras das professoras só duram 25 anos (e dos professores, 30), já ingressamos na geração que estudou na escola pública massificada e decadente. "Os professores não sabem ler e escrever", constata a consultora Guiomar Namo de Mello, de São Paulo. "A escola básica está ruim e vai se multiplicando."
A primeira - e óbvia - tarefa seria formar melhor o professor. Como sua base é em geral ruim, não é uma empreitada fácil. Mas, em grande medida, não se está sequer tentando. "Nunca se pensa na aprendizagem do professor", critica Guiomar. "O professor vai para a capacitação para o aluno dele aprender melhor, não para ele aprender melhor. Ninguém pergunta: mas será que ele sabe?"
Recentemente, numa aula do curso de Geografia da USP, um aluno que ensina essa matéria numa escola estadual interveio: "Professora, tem uma pergunta que um aluno me fez e eu não soube responder: qual a diferença entre Palestina e Oriente Médio?"

SEM CONTEÚDO

As chances de melhorar a formação desses professores esbarram num problema: conteúdo está fora de moda. Saber coisas não é algo valorizado no mainstream da educação. Para o construtivismo, a corrente em voga na pedagogia, o importante é "desenvolver habilidades", "aprender como se aprende", e não adquirir conteúdos.
São idéias interessantíssimas, mas parecem deslocadas da realidade. "Se você tem uma escola com professores geniais, tudo experimental, todo mundo é Piaget, os alunos são milionários, você faz o que quer, que não faz diferença", diz Moura Castro. "Mas, com o professor no mundo real, cheio de limitações e de problemas, vá ver no que vai dar." Muitos professores de matérias específicas se queixam de que os alunos não conseguem entender suas aulas porque não têm noções básicas de português e de matemática: não conseguem compreender textos, raciocinar com porcentagens, etc.
A progressão continuada, que aboliu a reprovação dos alunos - uma outra boa idéia, em princípio -, retirou um fator de pressão para que os alunos assimilassem conteúdos. "Não é progressão continuada, é aprovação automática", lamenta Maria Izabel Noronha, presidente interina do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). "Isso posterga a exclusão. Os alunos são empurrados, sem conhecimento."
Em resumo, os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem.

SEM SENTIDO

Curiosamente, ao mesmo tempo em que se esconde a pobreza de conteúdo sob o discurso construtivista, não se avança na sala de aula para as vinculações entre o que se está ensinando e a vida dos alunos - um dos pontos altos do construtivismo. "O ensino é baseado em definições", analisa Guiomar. "O contexto é praticamente ignorado. Ninguém trabalha isso, porque o professor não tem tempo, dá muito mais trabalho. Pega o livro didático, manda o aluno ler e resolver os exercícios."
Mesmo as crianças e adolescentes pobres são bombardeados de estímulos no seu mundo, ainda que só tenham acesso à televisão - sem falar em internet, videogame, etc. Desconectada da realidade, a escola se reduz a uma obrigação tediosa e sem sentido. Na pesquisa que fez com 1.172 professores (67% deles de escolas públicas e 16% de públicas e particulares), e que resultou no livro O professor refém, Tania Zagury perguntou qual a maior dificuldade deles. "Manter a disciplina em sala" veio em primeiro lugar, com 22%, seguida de "Motivar os alunos", com 21%. Para a pesquisadora, os dois problemas estão associados: "Aluno desmotivado é bagunceiro."
Os professores não têm recursos, nem intelectuais nem materiais, para motivar os alunos. Muitas escolas públicas já têm salas de computadores, por exemplo. Mas freqüentemente ficam fechadas, porque não há professores que saibam ensinar como usá-los, ou técnicos para fazer a manutenção.
Além de se desempenharem mal, muitas vezes os professores simplesmente não comparecem. Segundo Tania, o alto índice de faltas se deve, em grande parte, à desmotivação dos professores, que "sabem que não estão realizando um bom trabalho", e ao esgotamento causado pela sobrecarga de trabalho que o professor premido pelo salário baixo tem de assumir. "Os da rede pública se valem da estabilidade no emprego."
Conversando com 26 crianças e adolescentes que estudam em 15 escolas públicas de 7 bairros das zonas norte e leste da cidade de São Paulo (ver abaixo), o Estado constatou como podem ser fúteis os motivos alegados para a ausência dos professores. Há a professora de educação física que faltou três semanas porque bateu o carro e o de inglês que só vai uma vez por mês, porque está fazendo tratamento para gagueira.
"É um problema não só do professor, mas de gestão", analisa Guiomar. "Uma escola em que o professor falta porque quebrou o carro, a diretora provavelmente não está conseguindo gerenciar. Caso contrário, mandaria essa professora embora, por processo administrativo. Faria alguma coisa." Por outro lado, diz a especialista: "Que diretor admite um professor de inglês gago? Alguém entrevistou esse professor, inscreveu-o na delegacia (de ensino)."
Se quiser combinar universalização e qualidade, o Brasil terá de fazer muito mais. "É necessário muito dinheiro", diz Guiomar. "Não de salário de professor, mas de recurso, de tempo de permanência da criança na escola, de apoio pedagógico, de material de ensino e de aprendizagem para o professor, porque se ele não souber, não se vai conseguir fazê-lo ensinar."

Histórias

15 ANOS, 1.º ANO
ESCOLA ESTADUAL MANOEL DA NÓBREGA
Casa Verde
Ela avalia que suas notas estão boas: teve média geral de 5,5 no semestre. Quer estudar Medicina. Teve média 7 em biologia. No seu caderno, há uma lição sobre o sistema circulatório. "Ele é formado por...?", pergunta o repórter. "Faringe", erra a menina; "coração, fígado", continua tentando. "Ah, não sei. Quando tá no dia da matéria, a gente entende, mas depois esquece." Ela tem lição de casa a cada três dias.

13 ANOS, 7.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL MANOEL DA NÓBREGA
Casa Verde
"Inglês aprendi pouco porque o professor está sempre faltando. Ele é gago e diz que tem de faltar para ir ao médico. Só tem comparecido uma vez por mês. Aprendi o possessive. Acho que é isso." Ela não sabe como se diz "meu" em inglês. O professor disse que os alunos precisam comprar um livro para estudarem em casa. Mas ainda não passou o nome do livro.

14 ANOS, 8.ª SÉRIE

ESCOLA MUNICIPAL HUMBERTO DANTAS
Vila Nova Cachoeirinha
Ele gosta só de geografia e de história, nas quais tirou média "P", de "plenamente satisfatório", a mais alta. Em geografia, diz que está estudando "o mapa geológico". "Não sei se é esse o nome mesmo." Mapa-múndi? "Isso." Está aprendendo sobre Portugal. Não sabe o nome de sua capital, mas sabe que é um país pequeno. "Em história, estou estudando sobre o país de Berlim. Não sei se é país." Em que época? "Ah, meu, não tá decorado."

14 ANOS, 8.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL PROFESSOR LUIZ GONZAGA RIBEIRO
Vila Nova Cachoeirinha
Sua melhor média no semestre foi "A" em geografia. O que está estudando? "Peraí, deixa eu pegar o caderno." Volta: "É sobre o continente europeu." O que sobre o continente? "Não sei. Deixe eu ver aqui. Ah, tudo. População, os rios, tudo." Que rios? A garota consulta o caderno: "Danúbio, Reno, Vogal." Não é Voga? "Ah, é." Ela não lembra o nome de nenhum país por que passa algum desses rios.

13 ANOS, 7.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL HUMBERTO DANTAS
Vila Espanhola
Sua melhor média do semestre foi um "P" em inglês. Sabe fazer frases em inglês? "Com a professora, sim, porque quando erro alguma coisa ela ajuda", esquiva-se o menino. Consegue se lembrar de palavras: dog, cat, pencil, mas confunde lápis com caneta. Frases-clichê, como Where are you going to? e How old are you?, ele não sabe o que significam. "To eu sabia, mas esqueci. "You ainda não sei."

10 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL TENENTE-AVIADOR FREDERICO GUSTAVO DOS SANTOS
Vila Nova Cachoeirinha
Sua matéria preferida é matemática, em que tirou média "P+", assim como em português. Ele escolhe uma conta difícil para mostrar seus conhecimentos: 32 dividido por 3. Toma o bloco de anotações do repórter e acerta na conta. E uma de multiplicação? Ele acerta de novo: 23 x 2 = 46. O menino não está tendo educação física. A professora bateu o carro e não comparece há três semanas para as duas aulas semanais.

9 ANOS, 3.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL UBALDO COSTA LEITE
Taipas
O menino não se lembra de sua nota em matemática, mas diz que foi "mais ou menos boa", e que estão estudando contas. O repórter lhe pergunta quanto são 5 vezes 5. Ele faz uma pausa. "Não sei." E 3 vezes 4? "16?"

11 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL UBALDO COSTA LEITE
Taipas
Melhores notas: "A" em português e "B" em matemática. "Em português, leio histórias de pintores de quadros explicando as cores e histórias de índios. Eles faziam fortalezas para os portugueses não invadir." O menino diz que sabe a tabuada de somar, multiplicar e dividir até 10. Acerta as respostas de quanto são 6 vezes 6 e 6 vezes 8. Em todo o semestre, a professora, que dá todas as matérias, só faltou um dia.

9 ANOS, 3.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL PROFESSOR ANDRÉ DE ALCKMIN
Taipas
A menina teve média 10 em português e 9 em matemática. Ciências, história e geografia a professora só vai dar no segundo semestre. Em português, está estudando as sílabas tônicas. Acerta todos os "testes" que o repórter lhe faz. Leu a história de Pinocchio e responde corretamente a perguntas sobre o enredo. Diz que sabe a tabuada de 1, de 2, e de 9. Acerta quanto são 2 vezes 9. É raro sua professora faltar. Na sala de informática, cada aluno usa o computador por 12 minutos. Seus pais, um porteiro e uma dona de casa, ajudam na lição.

8 ANOS, 2.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL PROFESSOR ANDRÉ DE ALCKMIN
Taipas
Também gosta de matemática, e sabe fazer contas de "vezes" e de divisão. À pergunta quanto são 4 vezes 3, ela calcula com os dedinhos e responde certo. Na sala de leitura, leu a história da Pequena Sereia. Sabe contá-la em detalhes.

12 ANOS
, 6.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL ZARINA ROLIM
Penha
Sua melhor nota este semestre foi em português. "Estou estudando negócio de pretérito, lá, presente." Lembra-se de algum verbo? "Não, mudei esses dias para o Zarina, não estou pegando bem o ritmo direito." O menino se transferiu há três semanas. Antes, estudava na Escola Estadual Barão de Ramalho. Um dia, na calçada da escola, antes que o portão se abrisse, vieram três "moleques" que ele não conhecia, o derrubaram no chão e lhe arrancaram dos pés os tênis novos, de R$ 150. De matemática, diz que não entende nada. De inglês, ele ainda não teve nenhuma aula nessa escola. "Acho que a professora está faltando. A gente fica no pátio."

16 ANOS, 1.º ANO
ESCOLA ESTADUAL NOSSA SENHORA DA PENHA
Penha
Em história, o rapaz está vendo as Cruzadas. Quando foram? "Não peguei só o ano. Mas fiz o trabalho sobre isso. Tinha alguma coisa a ver com religião. A Igreja não queria que os que não acreditavam em Deus ficassem donos das terras." Ele não se lembra de palavras como "muçulmanos" ou "mouros".
O rapaz diz que nunca teve informática na escola. "Tem computador, mas eles não dão."

15 ANOS, 1.º ANO
ESCOLA ESTADUAL BARÃO DE RAMALHO
Penha
Sua maior nota foi um 8 em inglês. "Todos os anos estudamos o verbo to be." Seu repertório inclui frases como What's your name? e Good morning. Português foi sua pior nota até agora: 2. "A professora mais falta do que vem", conta a moça. Ela teve nota 6 em história. "Estava aprendendo sobre Esparta e Atenas." Mas não sabe que elas ficavam na atual Grécia. Em geografia, teve 5. Está vendo "rochas sedimentares". Mas não sabe dizer o que são elas. Ela fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e diz que se saiu bem.

15 ANOS, 8.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL PADRE ANTÃO
Penha
"O semestre foi bom", conta o garoto. "Só tirei uma nota vermelha: 4,5 em ciências." Em história, tirou 7. "Estamos estudando o imperialismo, o desenvolvimento industrial." Ele não lembra o que é imperialismo. E desenvolvimento industrial? "Estava falando dos povos brasileiros que se desenvolveram." O garoto prossegue: "O professor de educação física falta direto. Toda quarta-feira, que é dia da aula dele, vai embora. Fala que a mulher dele está doente."

13 ANOS, 7.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL EDGAR CAVALEIRO
Cangaíba
"Sou um aluno bagunceiro", avisa o menino. "Adoro geografia. É assim: a gente estuda quanto ainda tem de água no planeta. Aí, a professora leva a gente na sala de internet, a gente entra no Google e pesquisa."

12 ANOS, 6.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL EDGAR CAVALEIRO
Cangaíba
Neste semestre, sua melhor nota foi em ciências: S. "Nós tá estudando um monte de coisa. Nós só copia as coisas lá", conta a menina, cujo último trabalho foi sobre vermes. "Verme era as lombrigas. Aprendi que tem que lavar as mãos quando vai no banheiro." Ela diz que foi bem em todas as matérias. Como é "eu" em inglês? "Fiz a prova na segunda-feira (estamos numa sexta-feira) e já esqueci." Mas ela pode simular um diálogo: What's your name? My name is...

11 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL ANNE FRANK
Cangaíba
Tirou 8,5 em português e "5 e pouco" em matemática. Não se lembra das outras notas. "Li um livro de estória este ano", conta a menina. "Não estou lembrando de nada agora." Em matemática, está aprendendo contas de somar de até quatro algarismos. Sabe somar, por exemplo, 105 mais 105. Ainda não tem inglês na escola, mas aprendeu os nomes das cores com a irmã mais velha.

14 ANOS, 8.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL EDGAR CAVALEIRO
Cangaíba
Sua melhor nota foi um "S" (satisfatório) em português. Nas outras, tirou "NS" (não satisfatório). "Falto muito, aí perco a lição", explica a menina. "Minha mãe (faxineira) vai trabalhar, e tenho que cuidar dos meus dois irmãos menores." Ela lembra de ter lido o livro O Terceiro Homem, que conta uma história que tem a ver com a sua: "Fala sobre uma menina muito pobre que deixou a mãe lá nessa cidade e veio para São Paulo com 12 anos. Aí, o pai dela morre e ela cuida dos irmãos."
Há cerca de um mês não tem aula de história. "A professora não entra na minha sala porque roubaram o estojo dela lá." E inglês? "Inglês não sei, porque a aula é de sexta, e quase toda sexta minha mãe tem que passar no médico, e não vou à escola."

7 ANOS, 2.ª SÉRIE
ESCOLA MUNICIPAL EDGAR CAVALEIRO
Cangaíba
"Não tiro nota na escola", diz a menina. "Não faço português nem ciências nem geografia. Só faço matemática." Por quê? "Porque sim. Sei todas as contas." Sabe somar 3 e 7, por exemplo. A menina diz que seu irmão foi à sala de leitura, mas ela não, porque pensou que não havia. Ela já foi à sala de informática, e também faz desenhos e escreve, além das continhas. "Adoro."

12 ANOS, 7.ª SÉRIE
SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA (SESI)
Engenheiro Goulart
O menino não lembra qual sua melhor nota, mas diz que sua matéria preferida é inglês. Sabe perguntar "qual o seu nome?", mas não sabe dizer "eu sou" em inglês. Lembra-se que you é "você". Em português, vai bem, mas não lembra o que está estudando. "Só tive aula segunda, terça e quarta", justifica, no fim da manhã de sexta-feira. "Em história, estamos estudando coisas da burguesia", diz o menino, que lembra que o período são os séculos 16 e 17, mas não quem eram os burgueses.

10 ANOS, 5.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL DOM MIGUEL KRUSE
Eng.º Goulart
A matéria em que ele está melhor é português. Está estudando tempo dos verbos. Mas não se lembra de um verbo. Em inglês, o menino diz as palavras que sabe: you, of, yellow, black e green. Ele não lembra o que está estudando em geografia, mas, em história, seu raciocínio é concatenado: "É sobre o que aconteceu antigamente aqui no Brasil. Os portugueses mandaram as pessoas virem aqui procurar riquezas." Mas não sabe dizer quando aconteceu isso. Seus professores não faltam.

11 ANOS, 2.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL MARIA APARECIDA MACHADO JULIANELLI
Eng.º Goulart
Diz que está atrasada na escola porque onde morava antes, em Guarulhos, "não tinha onde estudar". Mudou-se para Engenheiro Goulart, e entrou direto na 1ª série, sem fazer o pré. Sabe ler? "Mais ou menos. De vez em quando, leio um livro. Não lembro de nenhum que li." Acerta na subtração de 10 menos 3, mas erra na multiplicação de 3 vezes 2: "5? Não sou boa de conta."

14 ANOS, 3.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL MARIA APARECIDA MACHADO JULIANELLI
Eng.º Goulart
"Repeti de ano porque não ia para a escola", diz o menino. "Comecei a estudar neste ano." Antes, ficava na rua brincando. Não trabalha. Sua matéria preferida é matemática. Diz que aprende continhas. Quanto são 6 vezes 6? "Não lembro." E 7 vezes 5? "Esqueci." Já leu algum livro? "Não. Precisa, mas não gosto."

10 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL MARIA APARECIDA MACHADO JULIANELLI
Eng.º Goulart
"Estou aprendendo uma coisa muito legal: a ler, escrever, fazer contas, tabuada", entusiasma-se a menina. Quanto são 3 vezes 6? "Não me faz fazer conta difícil, não." Ela leu uma estória do Sítio do Pica-pau Amarelo. "Lembro que a Emília foi numa terra que o pessoal de lá era todo careca. Só tinha o rei com um fio de cabelo." Ela estuda à tarde e, de manhã, freqüenta um projeto de uma empresa privada, no qual tem informática, educação física e artes. No dia seguinte, um sábado, o projeto a levaria a um passeio no centro da cidade.

10 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL MARIA APARECIDA MACHADO JULIANELLI
Eng.º Goulart
Na mesma escola, da mesma série e idade, ele tem mais familiaridade com matemática. Responde pela menina: 3 x 6 = 18. "Gosto de matemática", diz o menino. "Divisão é mais difícil." Escolhe dividir 10 por 3, no bloco do repórter, e se atrapalha. Outros colegas o ajudam e por fim conseguem resolver.

11 ANOS, 4.ª SÉRIE
ESCOLA ESTADUAL MARIA APARECIDA MACHADO JULIANELLI
Eng.º Goulart
Em português, a menina diz que está estudando ditongos. E se confunde um pouco ao defini-los: "São duas palavras com encontros vocálicos." Matemática? "Vou mais ou menos. Conta de dividir é mais difícil." Ela não tem aula de informática.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 09/07/2006
A igualdade que gera desigualdade

Gaudêncio Torquato

Antes de chegar ao final deste parágrafo, dê uma espiada em sua pele. Olhou bem? É branca, morena, escura? Se a pigmentação for da cor pardo-clara a negra, é bem possível que você seja um afrodescendente. Sinta-se, então, integrante dos 146 milhões de brasileiros - 86% da população, segundo o censo de 2000 do IBGE - que apresentam mais de 10% de contribuição africana no genoma. Quem põe os pontos nos is, ou melhor, o preto no branco, é um estudo feito pelos professores Sérgio D. J. Pena (UFMG) e Maria Cátira Bortolini (UFRS) nas regiões brasileiras. Usando o instrumental da genética molecular e da genética das populações, os pesquisadores derrubam a débil argumentação em defesa de projetos voltados para a questão da igualdade racial. Os dois compartimentos genômicos estudados por eles, chamados "DNA mitocondrial, de herança matrilínea, e DNA nuclear, de herança bi-parental", apontam que é muito pequena a parcela da população sem sangue negro. E mostram que 48% dos descendentes de negros se consideram brancos.
Conclusão: cotas para negros em universidades ou reservas de cargos para eles na administração pública não combinam com o mapa do genoma nacional. A quase totalidade da população a elas teria direito. Aliás, sob o prisma biológico, o conceito de raça é descartado. Para descrever grupos humanos a noção de etnia é a correta. Portanto, todos os grupos étnicos brasileiros têm o direito de reivindicar cotas. Todos são iguais perante a lei. A discriminação étnica, sim, deve ser combatida. É compreensível a defesa da inserção do negro no ensino superior pelo sistema de cotas, atendendo às demandas de 45% de brasileiros que se declaram pretos ou pardos e se sentem discriminados. O mesmo vale para a inserção dos indígenas em escolas públicas. Mas a tese é discriminatória.
Como fica o branco excluído socialmente? Mais de 72 milhões de pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar, o que significa que dois em cada cinco brasileiros são privados de acesso à alimentação em quantidade, qualidade e regularidade. E cerca de 22 milhões vivem abaixo da linha de pobreza, entre eles muitos brancos. É errado, portanto, entender o negro como sinônimo de pobre. Sob esta abordagem estatística, a aprovação do sistema de cotas e do Estatuto da Igualdade Racial cria um Estado diferenciado para os negros, mais uma reserva indígena e o gueto dos brancos marginalizados. A injustiça vai além. Quem obtiver boa pontuação pode perder a vaga na universidade para outros com desempenho fraco. A igualdade que se prega gera desigualdade em outra ponta. Assim, a República regride ao passado e se transforma em confederação de raças. Se os amarelos gritarem por um pedaço, o País não poderá negar.
Dito isto, emerge a constatação: expande-se, no território, o acirramento entre grupos e classes. O debate sobre cotas não é uma questão pontual. Insere-se numa postura governamental que procura cristalizar diferenças de classes, expandir conflitos entre áreas, substituir políticas universais por projetos individuais, enfim, acender a fogueira social. O acervo conflituoso tem lógica: aquecer o ambiente para combustão. Não é à toa que, a todo instante, fontes governamentais se referem de maneira pejorativa às elites, às quais atribuem a mácula de responsabilidade pelo atraso do País, escondendo o fato de que os governantes estão no topo da pirâmide social. Há certa provocação na fala do presidente da República quando garante que é mais fácil governar para os pobres, que não têm recursos para pagar transporte e bagunçar em Brasília. Nos 27 Estados é forte a presença do MST, cuja estratégia é a de promover ações pontuais em espaços críticos com deliberada intenção de lembrar que existe, é atuante e faz pressão. Até os recuos táticos são combinados. Na quadra eleitoral, por exemplo, deve permanecer quieto para não atrapalhar a campanha de Lula.
Não se discute o fato de que a dinâmica social carece de movimentos fortes. Nos últimos 30 anos, depois do ciclo de chumbo, a sociedade trilhou o rumo da organicidade. Os primeiros passos foram conduzidos por partidos, como o MDB, alargando-se com a criação de novos entes, entre os quais o próprio PT, expressão maior do oposicionismo nos anos 80 e 90. Milhares de entidades ingressaram no curso da descompressão social, passando a atender às demandas de grupamentos e de pressões expandidas por ocasião da Constituição de 1988. A partir daí se criou uma linha divisória entre ativistas sociais e sindicalistas, passando aqueles a criticar as forças produtivas, considerando-as fator de destruição. Nessa moldura, o PT chegou ao poder com o compromisso de ampliar a base social, abrindo condições para acesso aos direitos individuais e sociais.
Com a crise o meio-de-campo ficou embolado e o PT, enroscado. Implantando a ortodoxia macroeconômica, o governo satisfez gregos e desagradou a troianos. Hoje, no meio da encruzilhada, encontram-se tanto demandas satisfeitas como as por satisfazer, oriundas das margens sociais e dos movimentos. A estes o governo acena com políticas compensatórias, às vezes plenas de recursos, e ações afirmativas, algumas com clara intenção de purgar pecados. Tem alívio quando aconchega bolsões sociais insatisfeitos. Isso explica a abertura dos cofres para o assistencialismo puro e o incentivo a programas para redução de disparidades. Em contraponto, formam-se castas dentro dos conjuntos privilegiados. Retrato em preto-e-branco: cotas, reservas de mercado, substituição de etnia por raça, que passaria a usufruir direitos jurídicos, elogio à pobreza e crítica à riqueza deixam o Brasil longe da comunhão de esperanças e do conceito de nação. No mais, a lição do sábio da advocacia brasileira Goffredo da Silva Telles Junior, de 91 anos: "O reino da eqüidade perene não é mesmo deste mundo, o que não impede que o imperativo categórico do espírito mantenha o homem na sua interminável procura."
Gaudêncio Torquato é jornalista e professor titular da
USP e consultor político.
e-mail: gautor@gtmarketing.com.br

O ESTADO DE SÃO PAULO – 08/07/2006
Filosofia e sociologia voltam a ser obrigatórias 
O Conselho Nacional de Educação aprovou ontem a obrigatoriedade das disciplinas de filosofia e sociologia no ensino médio de escolas públicas e particulares. O parecer segue para homologação do ministro da Educação. As redes terão até um ano depois da publicação da resolução para ainda fixar medidas da inclusão de filosofia e sociologia no currículo.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 08/07/2006 (EDITORIAL)
A indigência do ensino básico

Aplicada a 3, 3 milhões de alunos em todo o País, a Prova Brasil, um dos mais importantes mecanismos de avaliação do ensino básico, mostrou que o sistema educacional continua sendo incapaz de formar as novas gerações com um mínimo de eficiência. As provas foram realizadas em novembro de 2005 em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios, e os resultados, que acabam de ser divulgados pelo Ministério da Educação, revelam que a grande maioria dos estudantes de 4ª e 8ª série exibe aproveitamento pior do que pífio.
A pontuação alcançada pelas escolas não foi considerada "adequada" em nenhum dos itens avaliados, conforme escalas definidas pelo MEC ("muito crítico", "crítico", "intermediário" e "adequado"). Em português, os alunos tiveram um rendimento classificado como "crítico" e "muito crítico" no exame que analisa a capacidade de ler e compreender um texto. Na 4ª série, a maioria dos estudantes não consegue entender histórias em quadrinhos mais complexas nem identificar o tema da narrativa. Na 8ª série, eles têm dificuldade para distinguir o sentido metafórico do sentido literal de uma expressão, não sabem localizar informações que expressem sentimentos e opiniões e não conseguem identificar as intenções do autor.
Em matemática, embora a média nacional tenha ficado um pouco acima da de português, situando-se no nível "intermediário", em 16 Estados a maioria esmagadora dos alunos foi reprovada. Quase todos esses Estados se localizam nas Regiões Norte e Nordeste. Os estudantes da 4ª série mostraram-se incapazes de ler as horas em relógios de ponteiros e de realizar divisões simples ou multiplicações com números de dois algarismos. Os alunos da 8ª série não conseguiram trabalhar com porcentagens, não souberam fazer cálculo de conversão de medidas, como de tempo, comprimento ou capacidade, e se revelaram incapazes de trabalhar com frações sem o apoio de figuras.
Concebido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), com apoio dos Estados e municípios, a Prova Brasil expandiu os exames que vinham sendo realizados desde 1995 pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Mas, enquanto o Saeb é feito por amostragem e envolve a rede privada e as escolas rurais, a Prova Brasil é um exame obrigatório circunscrito às escolas públicas urbanas com mais de 30 alunos.
Por isso, o MEC reconhece que a comparação entre os dois sistemas de avaliação tem de ser feita com ressalvas. A novidade da Prova Brasil é que ela fornece ao MEC dados sobre o desempenho de cada estabelecimento avaliado, com a distribuição porcentual de alunos e a média obtida nas duas matérias, permitindo dessa maneira a comparação de escola por escola, município por município e Estado por Estado. Enquanto o Saeb consiste numa macroavaliação do ensino básico, a Prova Brasil oferece às secretarias estaduais e municipais de Educação dados estatísticos que lhes permitam fixar metas de desempenho, estabelecer prioridades de recursos técnicos e financeiros, identificar as necessidades de treinamento de professores, dar tratamento diferenciado às escolas sob sua responsabilidade direta e atender às expectativas das suas comunidades.
Graças a esse aperfeiçoamento dos mecanismos de avaliação do ensino básico, é possível identificar os erros cometidos pelo atual governo, em matéria de política educacional. Em vez de perder tempo com um demagógico projeto de reforma do ensino superior, que impõe o sistema de cotas para alunos oriundos de escolas públicas, concede representação a sindicatos e movimentos sociais nos órgãos colegiados das instituições de ensino superior e aumenta em R$ 2 bilhões ao ano o orçamento das universidades federais, sem condicionar a concessão desses recursos a processos de avaliação, o governo deveria ter enfrentado o desafio da revolução qualitativa do ensino básico.
Por seus efeitos distributivos, esse nível de ensino é decisivo para a emancipação social, econômica e cultural das novas gerações e para que o País produza o capital humano de que necessita para crescer. Infelizmente, como os resultados da Prova Brasil deixam claro, o governo não se conscientizou de que esse é o único caminho para a redução da pobreza e das desigualdades sociais.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 08/07/2006
A indigência do ensino básico 

Aplicada a 3, 3 milhões de alunos em todo o País, a Prova Brasil, um dos mais importantes mecanismos de avaliação do ensino básico, mostrou que o sistema educacional continua sendo incapaz de formar as novas gerações com um mínimo de eficiência. As provas foram realizadas em novembro de 2005 em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios, e os resultados, que acabam de ser divulgados pelo Ministério da Educação, revelam que a grande maioria dos estudantes de 4ª e 8ª série exibe aproveitamento pior do que pífio.
A pontuação alcançada pelas escolas não foi considerada "adequada" em nenhum dos itens avaliados, conforme escalas definidas pelo MEC ("muito crítico", "crítico", "intermediário" e "adequado"). Em português, os alunos tiveram um rendimento classificado como "crítico" e "muito crítico" no exame que analisa a capacidade de ler e compreender um texto. Na 4ª série, a maioria dos estudantes não consegue entender histórias em quadrinhos mais complexas nem identificar o tema da narrativa. Na 8ª série, eles têm dificuldade para distinguir o sentido metafórico do sentido literal de uma expressão, não sabem localizar informações que expressem sentimentos e opiniões e não conseguem identificar as intenções do autor.
Em matemática, embora a média nacional tenha ficado um pouco acima da de português, situando-se no nível "intermediário", em 16 Estados a maioria esmagadora dos alunos foi reprovada. Quase todos esses Estados se localizam nas Regiões Norte e Nordeste. Os estudantes da 4ª série mostraram-se incapazes de ler as horas em relógios de ponteiros e de realizar divisões simples ou multiplicações com números de dois algarismos. Os alunos da 8ª série não conseguiram trabalhar com porcentagens, não souberam fazer cálculo de conversão de medidas, como de tempo, comprimento ou capacidade, e se revelaram incapazes de trabalhar com frações sem o apoio de figuras.
Concebido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), com apoio dos Estados e municípios, a Prova Brasil expandiu os exames que vinham sendo realizados desde 1995 pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Mas, enquanto o Saeb é feito por amostragem e envolve a rede privada e as escolas rurais, a Prova Brasil é um exame obrigatório circunscrito às escolas públicas urbanas com mais de 30 alunos.
Por isso, o MEC reconhece que a comparação entre os dois sistemas de avaliação tem de ser feita com ressalvas. A novidade da Prova Brasil é que ela fornece ao MEC dados sobre o desempenho de cada estabelecimento avaliado, com a distribuição porcentual de alunos e a média obtida nas duas matérias, permitindo dessa maneira a comparação de escola por escola, município por município e Estado por Estado. Enquanto o Saeb consiste numa macroavaliação do ensino básico, a Prova Brasil oferece às secretarias estaduais e municipais de Educação dados estatísticos que lhes permitam fixar metas de desempenho, estabelecer prioridades de recursos técnicos e financeiros, identificar as necessidades de treinamento de professores, dar tratamento diferenciado às escolas sob sua responsabilidade direta e atender às expectativas das suas comunidades.
Graças a esse aperfeiçoamento dos mecanismos de avaliação do ensino básico, é possível identificar os erros cometidos pelo atual governo, em matéria de política educacional. Em vez de perder tempo com um demagógico projeto de reforma do ensino superior, que impõe o sistema de cotas para alunos oriundos de escolas públicas, concede representação a sindicatos e movimentos sociais nos órgãos colegiados das instituições de ensino superior e aumenta em R$ 2 bilhões ao ano o orçamento das universidades federais, sem condicionar a concessão desses recursos a processos de avaliação, o governo deveria ter enfrentado o desafio da revolução qualitativa do ensino básico.
Por seus efeitos distributivos, esse nível de ensino é decisivo para a emancipação social, econômica e cultural das novas gerações e para que o País produza o capital humano de que necessita para crescer. Infelizmente, como os resultados da Prova Brasil deixam claro, o governo não se conscientizou de que esse é o único caminho para a redução da pobreza e das desigualdades sociais.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 08/07/2006
Política de cotas terá critério social e não racial, como previa estatuto

Governo teme agravamento do preconceito e defenderá regras que levem em conta renda e origem das pessoas
Lisandra Paraguassú, BRASÍLIA

O que era uma decisão de bastidores agora é oficial: o Palácio do Planalto quer rever o Estatuto da Igualdade Racial, que, entre outros pontos, obriga a criação de cotas para negros no serviço público e em empresas que negociam com o governo. A posição oficial - mesmo que não assumida com todas as letras - é que cotas sociais, levando em conta a renda e a origem da pessoa, são possíveis. Quanto às cotas raciais, o entendimento é de que simplesmente criarão mais problemas do que soluções.
"Esse é o problema dessas normas que estão sendo propostas no estatuto. Como não têm um componente social explícito e colocam diretamente a questão racial, criam um tipo de resistência e uma discussão que opõe brancos e negros",afirmou o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro. Oficialmente, como representante do Planalto,Tarso diz que o governo não tem uma posição fechada contra a proposta. Também não pretende apresentar uma nova proposta, mas acha que a atual pode ser mudada.
"Por enquanto o governo, como instituição, vai acompanhar com sua bancada a discussão. Mas não se negará a fazer propostas de composição para que a votação seja a mais legítima possível", frisou Tarso. Fora do gabinete do ministro, a informação é de que o apoio dado à proposta no Senado vai ser retirado para a votação na Câmara.
O assunto é delicado. Especialmente em ano eleitoral, parlamentares resistem a assumir posições impopulares. Mas o movimento contra a proposta cresce, porque aumenta a resistência na sociedade. Cresce também o medo de que o preconceito acabe agravado.

SUS

Nem todos os pontos do estatuto, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), são malvistos pelo governo. Alguns não são considerados prejudiciais, como incluir identificação de raça nos documentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e a criação de disciplinas nas escolas sobre a história do negro.
O ponto mais complicado é a determinação de que 20% dos cargos em comissão e assessoramento superior da administração pública sejam reservados para negros. Esse porcentual tem de chegar ao equivalente das raças na composição demográfica brasileira - ou seja, quase 50%. O mesmo deve ocorrer nos Estados. Empresas que recebem benefícios federais e participam de concorrências também deverão adotar cotas.
"É um degrau além daquilo que o governo propôs", destacou Tarso. "A política de cotas é um dos elementos que podem compor as políticas afirmativas, desde que sejam aceitas pelo Congresso, negociadas em termos aceitáveis e não promovam normas inconstitucionais."
O próprio governo é autor de duas propostas que incluem a questão racial, vinculadas à parte social, e pretende mantê-las. Um deles é o programa Universidade para Todos (ProUni), que dá bolsas em universidades privadas a alunos de escolas públicas que comprovem baixa renda. Parte das vagas é reservada a estudantes negros.
O outro projeto, no centro da mais recente disputa sobre cotas, é a reserva de 50% de vagas nas universidades públicas para alunos de escolas públicas. Nesse caso, como no ProUni, reserva-se um percentual para negros, de acordo com a composição étnica dos Estados.

'É um retrocesso', reage petista

Deputado ligado à questão racial vai pressionar Lula

Paulo Moreira Leite, BRASÍLIA

Ao retirar apoio ao Estatuto da Igualdade Racial, o Palácio do Planalto bateu de frente com lideranças de uma fatia do eleitorado que o PT cultivou cuidadosamente de 2003 para cá - o voto dos negros. "É um retrocesso em relação às propostas que Lula defendeu na campanha de 2002", afirma o deputado Luiz Alberto (PT-BA), um dos principais articuladores de questões raciais no Congresso. "Na campanha, Lula tinha até um caderno contra o racismo."
Na mesma manhã em que o ministro Tarso Genro anunciava a nova visão do governo sobre o tema, Luiz Alberto deu uma entrevista na qual falava dos preparativos para uma audiência no Planalto, na semana que vem. "Queremos pedir ao governo que se mobilize para garantir a aprovação do estatuto até o final do ano."
A idéia dele e de quase três dezenas de deputados que integram o Núcleo de Parlamentares Negros do PT era fazer campanha enrolados na bandeira do estatuto, apresentando o governo Lula como aquele que produziu as maiores realizações a favor dos negros brasileiros. A nova posição do governo compromete essa vantagem.
Ao trocar cotas "raciais" por cotas de conteúdo "social" o governo retira dos parlamentares negros a bandeira própria. "Eu quero saber como é possível combater o racismo sem falar em raça. Essa postura ignora a origem específica das dificuldades do negro, que tem origem em 350 anos de escravidão", reagiu Luiz Alberto. "O País tem uma dívida com os descendentes de escravos, pois o cativeiro atrasou o progresso dessa parcela da população."
O governo Lula jamais esteve unido em torno de uma política de ação afirmativa. O presidente anunciou apoio às cotas na campanha eleitoral, mas, no início do seu governo, boa parte dos ministros condenava a proposta.
Quando se verificou que o voto da comunidade negra ajudava a engordar o cesto eleitoral junto aos pobres, o debate interno se encerrou - até ser reaberto depois do retorno de Tarso ao ministério. "Todo governo está sujeito a pressões e contrapressões," afirma Luiz Alberto. "Agora será a vez de o movimento negro pressionar."

'Centro deve ser combate à exclusão'

Ministro afirma que sociedade brasileira tem traços de discriminação, mas não é racista, e defende ações do governo

Quando assumiu o Ministério da Educação, em 2004, o atual ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, deixou clara sua posição contrária às cotas raciais nas universidades e no mercado de trabalho. Na época, o governo era favorável às cotas e ele silenciou. Agora, quando o governo recua, ele é o encarregado de esclarecer a nova posição, como mostra em entrevista ao Estado.

Como o governo vê a proposta do Estatuto da Igualdade Racial?

É uma boa iniciativa. Mas as discussões têm de ser aprofundadas. A negociação deve ser feita de maneira menos ideológica, quem sabe menos vinculada às questões de origem étnica e mais vinculada às questões que derivam da exclusão social. O grande problema do estatuto é menos sua aprovação e mais a sua legitimização posterior, para que não cause uma dissidência política sobre a questão racial. A sociedade brasileira, embora tenha traços de discriminação racial, não é uma sociedade racista e tem características diferentes daquilo que aconteceu nos Estados Unidos e na África do sul, onde existiam leis que legalizavam a segregação racial.

Como o governo vê as propostas de políticas afirmativas?

Um governo republicano tem de ver com simpatia essas políticas, de cotas ou com outras características. O perigo é de se perder o centro da discussão. No Brasil existe uma formidável coincidência entre afrodescendência e exclusão. O centro dessas políticas deve ser o combate à exclusão social, usando para isso também as cotas sociais, mas não só.

Qual é a posição oficial do governo em relação a cotas?

Oficialmente, a posição está retratada nos dois projetos que já remeteu (ProUni e cotas nas universidades federais). A política afirmativa que trata da coesão social e não tem como ponto de partida a questão racial, e sim a política de cotas sociais, para que as camadas populares tenham maior possibilidade de ascensão social, permitindo uma renovação das elites. Uma política democrática que não suscita nenhuma questão racial.

Para intelectuais, faltava debate

Grupo contra cotas aplaude abandono de 'solução mágica'

Roldão Arruda

A notícia de que o governo pretende rever seu apoio à Lei de Cotas e ao Estatuto da Igualdade Racial foi bem recebida entre os intelectuais que assinaram o documento entregue ao Congresso, na semana passada, pedindo aos parlamentares que votem contra os projetos. "Essa e outras reações que estamos vendo desde que divulgamos nosso manifesto confirmam que os projetos estavam sendo implementados sem o necessário debate público", disse a pesquisadora Yvonne Maggie, professora titular de antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Yvonne foi uma das articuladoras do manifesto dos intelectuais e uma das escolhidas para entregá-lo ao Congresso em Brasília. Na opinião dela, existia até agora uma espécie de açodamento para aprovar logo as leis. "Todo mundo quer acabar com o racismo e as desigualdades. Por isso quando apareceu essa solução aparentemente mágica, todo mundo quis adotar logo, sem perceber o efeito bumerangue que ela tem: quando começarmos a falar em raça e definirmos alguém juridicamente pela cor de sua pele, estaremos instituindo oficialmente as raças e abrindo um caminho mais largo para o racismo."
Em relação à proposta do governo de batalhar por cotas sociais, em vez de raciais, a pesquisadora observou: "Acho que as universidades públicas devem mesmo rever seus critérios de acesso e favorecer a eqüidade, mas não utilizar marcadores raciais. Todas as vezes na história em que se tentou fazer isso os resultados foram ruins. Mas essa não é a questão fundamental. Na minha opinião o fundamental é investir mais na qualidade do sistema de ensino e ampliar as vagas nas universidades públicas. Hoje, no conjunto de 4 milhões de pessoas no ensino superior, o governo é responsável por apenas 20% das matrículas, o que é muito pouco."
Na opinião da professora de antropologia da UFRJ, em vez de defender cotas raciais, o governo e os movimentos sociais deveriam se empenhar no combate a qualquer forma de racismo. "Até hoje nunca fizemos uma grande campanha nacional contra o racismo. Porque não começamos a afirmar, antes de cada jogo de futebol, como ocorreu na Copa do Mundo, que as raças não existem?"
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