Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

12/07/2006 – CLIPPING


O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.


FOLHA DE SÃO PAULO – 12/07/2006 (EDITORIAL)
Aposentadoria obrigatória

A POPULAÇÃO brasileira vai envelhecendo, e a qualidade de vida na chamada terceira idade está melhorando. Nesse contexto, é não apenas possível como também necessário -para efeitos de sustentabilidade do sistema previdenciário- que as pessoas trabalhem até idades mais avançadas.
Tal constatação, porém, não basta para recomendar apoio à proposta de emenda constitucional (PEC) nº 457/2005, que pretende elevar de 70 para 75 anos a idade da aposentadoria compulsória no serviço público. É que esse mecanismo -apelidado de expulsatória em alguns meios- não visa apenas a manter o equilíbrio do sistema de pensões, mas também a induzir a renovação de quadros em instituições como tribunais e universidades.
Nas instâncias mais burocráticas do serviço público, o funcionário tende a aposentar-se tão logo reúna condições legais necessárias para fazê-lo, o que costuma ocorrer antes do aniversário de 70 anos. As exceções mais notórias são justamente os tribunais e as universidades, onde antigüidade no cargo e poder tendem a ser sinônimos.
Para a sociedade, interessa que haja rotatividade nessas funções, principalmente no caso da Justiça. A renovação da cúpula do Judiciário é uma das formas de atualizar a jurisprudência e tornar o Direito mais consoante com as mudanças nos valores da população. Não é um acaso que vários países estejam trocando a "vitaliciedade" nas cortes superiores por mandatos fixos.
De resto, a manutenção da compulsória aos 70 anos não precisa significar uma interrupção na carreira do funcionário. Um professor universitário, mesmo aposentado, pode continuar orientando e dando aulas. Também um magistrado pode advogar, fazer pareceres, escrever obras jurídicas ou mesmo dar aulas em instituições privadas.

FOLHA DE SÃO PAULO – 12/07/2006 – (TENDÊNCIAS/DEBATES)
Políticas raciais: pelo debate franco e plural

EDWARD TELLES

Não podemos ignorar a raça na construção de uma democracia inclusiva no Brasil, posto que ela é critério da exclusão

NA SEMANA RETRASADA , a imprensa brasileira divulgou a iniciativa de um conjunto de intelectuais, ativistas e artistas que levou a Brasília um documento contra os projetos de Lei das Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial. Na mesma data -29 de junho- em que os representantes dessa iniciativa reuniam-se em Brasília com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado para a entrega formal do documento, Demétrio Magnoli, colunista desta Folha, acusou-me publicamente em artigo de "pescar um documento público da internet e falsificar (seu) título".
Meu ato ilícito teria consistido, segundo o colunista, em denominar tal documento como o "Manifesto da elite branca" e divulgá-lo, em seguida, no boletim eletrônico da Brasa (Brazilian Studies Association).
Vamos aos fatos para evitar que o debate sobre racismo no Brasil não fique comprometido por práticas intimidadoras que buscam deslegitimar aqueles que, como eu, fundamentados em vários anos de pesquisa e análises empíricas rigorosas, defendem políticas de cunho racial.
Com sua circulação na sociedade brasileira, foi-me enviado, bem como a outras pessoas, por e-mail, cópia de tal manifesto. A linha dedicada ao assunto da mensagem tinha o título "Manifesto da elite branca".
Sugeri aos coordenadores da Brasa, professores Marshall Eakin e James Green, que o fizessem circular no seu site, dando, assim, acesso aos brasilianistas para o debate. Ciente do título repugnante -"Manifesto da elite branca"- que constava como "assunto" no e-mail, mas fiel às fontes, mencionei no site da Brasa que o documento circulava na internet com tal denominação.
Fiz aquilo que fazemos todos que usamos a internet para veicular idéias, debates e propostas. Coloquei à disposição o documento, informando como estava sendo veiculado. Sou acadêmico e, na qualidade de estudioso das questões raciais comparativas, fui selecionado em 1996 pela Fundação Ford para ser assessor de programas em seu escritório do Rio, onde permaneci até 2000.
Porque trabalhei nessa fundação na área de direitos humanos, Magnoli me descreve como intelectual ativista que defende os direitos das "minorias". Na minha visão, compartilhada não apenas por colegas brasileiros igualmente funcionários da Ford, mas por inúmeros outros acadêmicos, atuantes e representantes de diversos setores da sociedade brasileira, sempre foi importante investir nas demandas de grupos minoritários, sejam negros, mulheres, gays ou indígenas, para fazer valer suas vozes e suas lutas no processo democrático.
No meu livro "Race in Another America: The Significance of Skin Color in Brazil" (2004), que ganhou da American Sociological Association o prêmio de melhor livro em 2006, explico com rigor por que sou a favor de políticas que consideram a cor das pessoas, para além daquelas que devem ser garantidas sem discriminação de qualquer tipo a todos os cidadãos de um país.
Os princípios da universalidade deveriam ser suficientes para regir nossas sociedades, porém não bastam nas sociedades contemporâneas, pois não conseguem desarmar a discriminação com base na cor da pele. Em meus estudos, mostro que as taxas de mobilidade social brasileiras revelam que crianças pobres, porém brancas, têm maior chance de chegar a posições de classe média do que crianças igualmente pobres, mas negras.
A grande desigualdade racial no Brasil se apóia em uma estrutura hiper-desigual e no fato de haver barreiras à entrada de negros na classe média, o que tem produzido uma elite quase inteiramente branca.
A primeira causa deve ser tratada com medidas universalistas capazes de reduzir a desigualdade entre todos os brasileiros, mas a segunda só pode ser enfrentada com políticas compensatórias de cunho racial, especialmente aquelas que facilitam a entrada de negros nas universidades. Não podemos ignorar a raça na construção de uma democracia inclusiva, posto que ela é critério da exclusão. Dadas as especificidades brasileiras, políticas sociais que procuram reduzir ou mesmo superar o enorme fosso racial no Brasil têm de ser engenhosas e criativas. Julgar, porém, que se possa ignorar a questão racial nos seus desenhos seria ilusório.
Martin Luther King, defensor das políticas universalistas, dizia que contar apenas com elas "não é realista". Quando um homem se lança na corrida com três séculos de atraso, é praticamente impossível superar a defasagem que o separa dos que largaram na frente. Milagres não existem. Vontade política, sim.
Tardava que o debate sobre a questão racial fosse enfrentado com coragem pela sociedade brasileira. Para que se avance nele é essencial que ganhe as páginas desta Folha e de toda a imprensa. Contudo, se avançar no debate significa destruir quem pensa diferente, falsear intenções e escamotear a verdade, então o risco de sermos ineficazes e inócuos na nossa ação é grande. Com isso, não estaremos ajudando a combater com efetividade o racismo.

EDWARD TELLES, 50, é professor do Departamento de Sociologia e diretor do Programa sobre o Brasil da UCLA (University of California Los Angeles).

FOLHA DE SÃO PAULO – 12/07/2006
O impossível dançou 

GILBERTO DIMENSTEIN

Suzie achava que seus alunos deficientes não evoluíam. Até que, de repente, enxergou uma nova magia nos corpos

CATÓLICA DE nascimento, Suzie Bianchi cultua duas religiões ao mesmo tempo: o budismo e o espiritismo. Bailarina, gosta de coreografias contemporâneas, clássicas e de jazz. Apresenta-se tanto num teatro como num improvisado picadeiro de circo; um de seus prazeres são as artes circenses. Essa vocação em lidar com a diversidade religiosa nos templos em que reza e nos palcos em que se exibe levou-a a experimentar uma mistura nos tablados -bailarinos profissionais contracenando com cadeirantes e portadores de deficiência mental. "Não é para ser uma espetáculo em que as pessoas tenham pena, mas que apreciem, como em qualquer outra exibição, a técnica e a beleza."
A experiência se iniciou involuntariamente quando, há quatro anos, Suzie foi procurada por uma mãe, frustrada, que não conseguia matricular a filha, portadora de deficiência mental, em nenhuma escola de balé. "Nunca tinha me chegado nenhum pedido semelhante, e, tenho de admitir, nem me sentia naquele momento apta para o desafio." Vieram depois mais amigas daquela menina, todas com problemas semelhantes e interessadas em dançar e, quem sabe, subir num palco.
Sem saber como trataria aquelas alunas especiais -logo depois apareceram os cadeirantes-, ela acabou acertando o passo. "Preferi não fazer uma classe separada, distante dos demais alunos." Colocou-os todos juntos, embora o processo de aprendizagem de cada um na sala fosse diferente, o que exigiria de Suzie um jeito novo de dar as aulas, para o qual não fora treinada. "Muitas vezes senti que, por mais que tentasse, eles nunca evoluiriam. Parecia inútil."
Estava enganada -e, nesse engano, iniciou um aprendizado que foi bem além das coreografias. "Comecei a rever a noção de impossível." De repente, depois de muitos anos de insistência, ela, quando já não apostava mais num aluno especial, via, surpresa, como conseguiam fazer o movimento correto. "Isso me ajudou a enxergar uma nova magia nos
Ao mesmo tempo, Suzie tomava conhecimento de como cada conquista, por menor que fosse, auxiliava no tratamento médico de seus alunos, não só por causa dos exercícios fisioterápicos mas também por mexer na auto-estima deles. Suzie conseguiu ter até mesmo um novo olhar sobre a alegria. "Não imaginava como alunos portadores de deficiência, pelo menos em contato com a arte e cercados de tanta gente, exibiam uma alegria em estado puro, livre, profunda." Tudo isso reconectou-a à sua infância, quando tinha decidido que seria, sem saber o porquê, professora de escola. Na rua dava aulas, por exemplo, de amarelinha.

Seu próximo espetáculo, previsto para este semestre no teatro Santa Cruz, está em fase de preparação. A coreografia vai expressar, em parte, o aprendizado de Suzie com seus alunos sobre o impossível e a alegria diante dos altos e baixos de qualquer existência. O nome provisório da apresentação é "Roda da Vida".
gdimen@uol.com.br

FOLHA DE SÃO PAULO – 12/07/2006
Governo reabre debates sobre o estatuto racial

Objetivo é agilizar votação do projeto no Congresso

EDUARDO SCOLESE
ENVIADO ESPECIAL A SALVADOR

LUCIANA CONSTANTINO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O governo federal decidiu ontem reabrir a negociação em torno da proposta de Estatuto da Igualdade Racial, em tramitação na Câmara, e tentar reduzir as resistências ao texto, que foi alvo nas últimas semanas de pressão de grupos pró e contra.
O objetivo é agilizar a votação no Congresso para que ela aconteça ainda neste ano, o que já vinha sendo descartado por líderes partidários devido às polêmicas e ao ano eleitoral.
A medida foi definida em reunião no Palácio do Planalto entre os ministros Tarso Genro (Relações Institucionais), Fernando Haddad (Educação) e Matilde Ribeiro (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).
Entre os pontos polêmicos do estatuto está, por exemplo, um artigo que obriga a população a autodeclarar sua cor/raça ao obter documentos. O texto está no Congresso desde 1998 e foi aprovado no Senado, para onde volta se for mudado.
"O governo está disposto a negociar. Não temos limites para a negociação final", disse Matilde, antes do jantar oferecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a chefes de Estado que participam da Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, em Salvador.
Os ministros também trataram do projeto de lei que prevê cotas nas universidades federais -50% das vagas para egressos de escola pública, das quais parte para afrodescendentes e indígenas. Neste caso, o governo sinalizou que não abre mão da complementação entre as cotas sociais e raciais.

Stevie Wonder defende, em Salvador, aplicação das cotas 

LUIZ FRANCISCO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM SALVADOR

Apesar
de considerar "ser impossível afirmar que as cotas são a melhor alternativa para melhorar ou reparar a vida dos negros", o cantor e compositor Stevie Wonder, 56, disse ontem em Salvador que o método defendido por algumas entidades brasileiras combate a discriminação racial.
"É importante lembrar da história da desigualdade e pensar nela como algo que não deve existir mais. Assim, devemos pensar em soluções para a equiparação imediata, e as cotas são mesmo uma alternativa", disse ele, ao desembarcar pela primeira vez na Bahia para participar da 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, que começa hoje.
Com mais de 40 anos de carreira e 70 milhões de discos vendidos, segundo seus assessores, Stevie Wonder disse que sempre se preocupou em levar para as pessoas a bandeira do amor e da união, por considerar que "essa é uma ótima maneira de pensar o mundo".

FOLHA DE SÃO PAULO – 12/07/2006
Alunos da rede pública não têm melhores notas na USP 

Universitários com origem no ensino público e privado têm desempenho similar

Já pesquisa da Unicamp, que mostra melhor performance de oriundos da rede pública, é usada por quem defende adoção de ações afirmativas


LAURA CAPRIGLIONE
FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL

Defensores da adoção de programas de ação afirmativa nas universidades, visando beneficiar estudantes oriundos de escolas públicas, costumam brandir um estudo feito pela Unicamp em 2004. Parecia que o que era verdade para a Unicamp podia ser extrapolado para outras universidades. Um novo estudo, feito na USP e que começou a ser divulgado ontem, mostrou que não pode.
Segundo a Unicamp, estudantes que fizeram o ensino médio na rede pública tiveram notas médias na universidade 4% maiores do que os que cursaram escolas privadas, considerando desempenhos semelhantes no vestibular.
O novo estudo foi feito, a partir de dados da USP, pelos professores Adilson Simonis e Eunice Durhan, do Nupps, Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas, da própria universidade.
Os dois docentes confrontaram as notas obtidas no vestibular da USP com a performance acadêmica durante o curso superior, entre 2003 e 2005, em cinco cursos (direito, letras, matemática, medicina e pedagogia). E provaram que 97% dos estudantes com notas semelhantes no vestibular tiveram performance acadêmica também semelhantes -independentemente de o ensino médio ter ocorrido em escola pública ou privada.
Um exemplo: em medicina, a nota média na graduação dos alunos provenientes de escolas pagas foi 7,3. Os alunos que cursaram escolas públicas tiveram nota média igual a 7,2.
"Não existem diferenças estatisticamente significativas entre o desempenho dos alunos egressos do sistema público e privado", escreveram os professores Simonis e Durhan (o texto será publicado hoje no blog http://mesaredon da2.blogspot.com). Ou seja: o salto de 4%, dado pelo aluno da escola pública ao entrar na Unicamp, não se verifica para os que ingressaram na USP.

Exemplo da Unicamp
O estudo de 2004 da Unicamp tem servido para comprovar que "dar uma forcinha" para aumentar o número de alunos provenientes de escolas públicas não compromete o nível do ensino e a excelência acadêmica. Ao contrário.
O professor Leandro R. Tessler, coordenador do vestibular da Unicamp, por exemplo, diz que a ação afirmativa "mostrou que é possível ter programas de inclusão social sem perder a qualidade dos alunos".
O mecanismo de ação afirmativa da Unicamp funciona há dois anos e consiste em conceder 30 pontos na nota do vestibular para os alunos da rede pública, o que representa entre 4,5% e 9% da nota. Com o benefício, houve um acréscimo de 16% no ingresso desses alunos.
Inspirada na experiência da Unicamp, a USP aprovou em maio um programa de ação afirmativa pelo qual as notas da primeira e segunda fases da Fuvest receberão um bônus de 3%, se o aluno tiver cursado todo o ensino médio em escola pública. Com isso, a USP espera que o número de alunos de escola pública convocados suba dos atuais 23,6% para 30%.
"Todos mencionam o estudo da Unicamp para comprovar a justeza dos programas de ação afirmativa. Eu quis checar se isso era verdadeiro para o caso da USP. E não é", diz Simonis.

FOLHA DE SÃO PAULO – 11/07/2006 (EDITORIAL)
Nota baixa 

FOI MUITO ruim o desempenho das redes municipais de ensino do país na Prova Brasil, que avalia os alunos de 4ª e 8ª séries em português e matemática. A maior surpresa, porém, foi a cidade de São Paulo ter-se saído especialmente mal, ficando atrás de capitais bem mais pobres.
O nível global do aluno brasileiro deixa muito a desejar. Na média, estudantes de 4ª série ainda se atrapalham ao interpretar textos mais longos ou que contenham informação científica. Tampouco conseguem fazer operações de multiplicação com números de dois algarismos.
Já o aluno médio da 8ª série não consegue interpretar corretamente histórias em quadrinhos nem identifica a tese de textos argumentativos com linguagem informal. Não resolve problemas matemáticos que incluam conversão de medidas. Na comparação com os parâmetros internacionais, nossos alunos de 8ª série apresentam desempenho que, em nações mais desenvolvidas, se alcança na 4ª série.
O quadro se torna mais dramático quando se analisam os resultados da cidade de São Paulo. Em português, os paulistanos da 4ª série ficaram em 21º lugar entre as 26 capitais avaliadas. Em matemática, alcançaram a 20ª colocação. Cidades muito mais pobres e afastadas de centros universitários de excelência, como Rio Branco e Teresina, obtiveram resultado bastante superior.
Falta à capital paulista uma política educacional de continuidade. Cada novo prefeito que chega a São Paulo promete fazer uma revolução no ensino. Tantas mudanças em tão curto tempo acabam sendo contraproducentes.
De positivo, fica o registro de que foi oportuna a iniciativa federal de universalizar a avaliação na Prova Brasil. Agora ao menos será conhecido o desempenho de cada cidade e, nela, de cada escola. É um passo para descobrir o que está errado e tentar mudar.

FOLHA DE SÃO PAULO – 11/07/2006 (TENDÊNCIAS/DEBATES)
Hora de pensar na educação 

MILÚ VILLELA

A educação, apesar de vista como importante fator de mobilidade social, ocupa espaço pouco expressivo na alma nacional


NO EXATO momento em que a seleção vencia o Japão, na Copa do Mundo, um grupo de empresários discutia, na Bahia, os rumos da educação brasileira. Enquanto os nossos jogadores -e 180 milhões de pessoas- ainda sonhavam em confirmar a condição do Brasil de principal potência do futebol mundial, aqui, líderes dos diversos segmentos da sociedade civil e representantes do governo engajavam-se em um movimento pela melhoria da qualidade do ensino – sem dúvida, a melhor forma de nos tornarmos uma potência mundial também fora do mundo da bola.
O paralelo entre futebol e educação faz especial sentido em época de Copa do Mundo. A cada quatro anos, o país vive um clima de euforia. E de tensão. A perspectiva de acrescentar uma nova estrela à camisa amarela desperta o fervor cívico dos brasileiros.
É como se a seleção nacional fosse a melhor parte de todos nós, a consagração de um particular jeito de ser, a face vistosa e invejável de uma nação em desenvolvimento que luta para eliminar indicadores de um país subdesenvolvido. Isso explica porque a derrota para a França -nas circunstâncias em que ocorreu, sem luta, garra e determinação dos jogadores- provocou uma dor profunda e um enorme sentimento de perda.
O futebol, como se sabe, é parte essencial de nossa identidade, motivo de orgulho e auto-afirmação. A educação também deveria ser. Mas não é. O primeiro entusiasma e mobiliza. A segunda, apesar de vista como importante fator de mobilidade social, ocupa espaço pouco expressivo na alma nacional. Não provoca emoções nem torcidas. E a sua lamentável situação não gera a mesma indignação que se sente após uma derrota na Copa.
Se, no futebol, o brasileiro se mostra exigente em relação à escalação do time e ao seu desempenho em campo, na educação, a grande maioria se conforma em eventualmente obter uma vaga na escola pública.
Esse comportamento, participativo por um lado e desinteressado por outro, talvez explique bem o contraste de sermos pentacampeões no futebol e ocuparmos as últimas posições em desempenho escolar no ranking mundial. O futebol, no entanto, é apenas um jogo. E, nesse sentido, tem uma importância relativa para a melhoria de nossas vidas. Só a educação de qualidade pode formar a base de um novo projeto de país, mais justo e mais desenvolvido.
Foi exatamente esse o espírito do encontro na Bahia: ao analisar o triste cenário no Brasil e na América Latina, os 250 participantes do evento chegaram à conclusão de que a educação é, neste momento, a mais importante política pública e que assegurar a sua qualidade, especialmente para os menos favorecidos, constitui o melhor instrumento para reduzir nossas históricas desigualdades sociais.
A conclusão e o interesse pela causa não chegam a ser uma novidade. O fato novo é o sentido de urgência atribuído ao tema. É a crença de que a educação deixará de ser pauta de importância secundária apenas quando todos os setores fizerem a sua parte de forma integrada e sinérgica.
Pela primeira vez, um grupo de lideranças, apoiado por organizações da sociedade civil e em sintonia com os governos, decidiu juntar esforços em torno de um grande projeto educacional para o país.
Como demonstração de vontade, a maioria dos presentes subscreveu sua participação no movimento "Compromisso Todos Pela Educação", que deverá ser lançado oficialmente no dia 6 de setembro, ao meio-dia, no Museu do Ipiranga. Na prática, a adesão significa colocar energia e recursos no cumprimento da missão de "efetivar o direito à educação de qualidade para que, em 2022, bicentenário da Independência do Brasil, todas as crianças e jovens tenham acesso a um ensino básico que os prepare para os desafios do século 21".
Significa também o compromisso de participar da consecução das grandes metas adotadas pelo movimento: até 2022, todos os brasileiros de 4 a 17 anos devem estar na escola, concluindo os seus ciclos, sabendo ler e escrever na idade adequada, aprendendo o que deve ser aprendido, sem que faltem recursos para a educação básica.
Foi dado o pontapé inicial para um projeto que pode mudar o país. Se as metas estabelecidas no "Compromisso Todos Pela Educação" forem permanentemente atingidas, como resultado dos esforços dos três setores da sociedade, a expectativa é que, já em 2010, na próxima Copa do Mundo, o Brasil seja reconhecido no mundo não apenas pela excelência do seu futebol mas pela melhoria da qualidade de sua educação.

MILÚ VILLELA é presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo, do Faça Parte - Instituto Brasil Voluntário, do Instituto Itaú Cultural e embaixadora da Boa Vontade da Unesco.

JORNAL DA TARDE – 11/07/2006
Falta de professores reduz a qualidade de ensino

MARIA REHDER 

Após a divulgação do desempenho das escolas públicas no exame de avaliação do MEC, o Prova Brasil, coordenadores pedagógicos, especialistas em educação e diretores de escolas públicas ouvidos pelo JT são unânimes ao apontar a peça-chave para o declínio da qualidade do ensino público do País: a falta de professores em sala de aula.
É o que ressalta Gioleine Manoel, diretora da Escola Estadual Olinda Leite Sinisgalli, da Zona Norte. "Faço marcação acirrada. O caderno de ponto dos professores fica na sala da vice-direção para evitar que alguém burle este controle. Essa atitude tem melhorado a assiduidade."
Segundo a diretora, foi por causa da constante falta de professores que a escola teve de priorizar a capacitação de seus profissionais eventuais. "O problema é que, em uma empresa, os profissionais levam advertência se não comparecem ao trabalho. Já no Estado, mesmo que o diretor pegue no pé, não consegue ter controle e acaba não punindo aqueles que usam as faltas abonáveis como um direito e não por necessidade."
Gioleine afirma que o não reconhecimento do trabalho do professor é que gera essa falta de assiduidade. "A política de bônus ajudou, mas precisamos de aumento no salário para que o professor não tenha de se dividir entre outras escolas, possa ter um plano de carreira."
Para Maria Izabel Noronha, presidente em exercício do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), a fórmula para trazer o professor de volta às salas de aula é simples. "Redução da jornada de trabalho, aumento do salário-base e a diminuição do número de alunos por turma já fariam a diferença."
A Secretaria Estadual de Educação(SEE), por meio de sua Assessoria de Imprensa, informa que a falta de professores de maneira alguma está vinculada ao plano de carreira, e sim ao comprometimento do professor com a escola. Entretanto, nos próximos dias, a SEE divulgará os nomes que irão compor a comissão para elaborar o novo plano de carreira do magistério.

Escolas municipais

A ausência dos professores não é apenas realidade nas escolas estaduais. A Emef Mauro Faccio Gonçalves Zacaria, do Jardim Ângela, tem dificuldades em garantir a presença de seus professores. "Já fui chamada de 'pelega do sistema', pois sempre aviso os professores que não admitimos ausências sem aviso prévio", diz Olgair Garcia, coordenadora pedagógica.
Na última semana, a coordenadora teve de ter uma conversa séria com uma professora que estava faltando constantemente. "Ela disse que não sabia que era preciso avisar a escola quando iria faltar."
A falta de professores no quadro fixo de funcionários também ocorre na Zacaria. "Uma professora estava de licença e simplesmente não voltou. Para não deixar os alunos sem aula, conseguimos que uma outra assumisse essa turma. Enquanto a situação não se resolvia, fizemos um acerto e a substituta passou a receber o salário com o holerite da outra, pois se fôssemos esperar resposta do poder público, os alunos estariam sem aula."
Se, mesmo com cobrança rígida, alguns diretores enfrentam o desafio de driblar a constante ausência de professores, imagine como é a situação nas escolas que não têm uma direção atuante. Essa realidade está sendo vivida por uma escola municipal da Capital, cuja a coordenadora não quis ter o seu nome revelado. "Acabamos de ter reunião com a diretora, pois falta rigidez no controle de faltas ."
A Secretaria Municipal de Educação, por meio de sua Assessoria de Imprensa, afirma que o gabinete tem acompanhado de perto a assiduidade dos professores, por meio das coordenadorias de ensino.

Controle eletrônico: uma opção 

Para Ilona Becskeházy, diretora da Fundação Lemann, o controle eletrônico de assiduidade de alunos e professores seria uma boa solução para a pouca freqüência na escola. "Não consigo entender por que as escolas públicas não fazem como as grandes empresas e não adotam crachás eletrônicos."
Esta tentativa foi bem-sucedida quando realizada de forma isolada pela Escola Estadual Raul Bloem em São Paulo. "Há cerca de 8 anos firmamos parceria privada e todos os alunos passaram a ter um cartão magnético de acesso. Nosso trabalho foi muito facilitado, pois tínhamos controle da evasão. No entanto, estamos com as catracas desativadas, pois o nosso parceiro não teve mais verba", diz Maria Cleusa Martins, diretora da Paul Bloem.
A Escola Municipal Iracema Vizotto, de Capão da Canoa (RS), foi escolhida para participar do Projeto Presença, programa piloto do MEC, implementado em abril, que oferece controle eletrônico de acesso. "A idéia é ótima, mas os equipamentos estão quebrados há meses. Acredito que se este estivesse funcionando, poderíamos usá-lo para os professores também", diz Vera Lúcia Martins, diretora da escola.
Segundo Astrid Schuster, coordenadora do MEC em Capão da Canoa, se o piloto der certo, as escolas públicas terão meios de controlar eletronicamente a assiduidade de funcionários e alunos . " Não há risco de fraude, pois o controle é feito por meio das digitais." Sobre o não funcionamento na escola Iracema Vizotto, ela explica que, "por se tratar de um piloto, ajustes ainda estão sendo realizados no sistema."

JORNAL DA TARDE – 11/07/2006
NOTAS

O sistema solar para as crianças 

A On Line Editora lançou uma edição especial da revista Projetos Escolares, sobre o sistema solar. Nela, os alunos do ensino fundamental poderão aprender um pouco mais sobre os planetas de forma lúdica, brincando com moldes e ilustrações dos corpos celestes. A revista também traz dicas de atividades, como a construção da Luneta de Galileu – para que as crianças possam observar o céu, as estrelas e a lua – e a confecção de uma roupa espacial, para fazer com que elas aprendam sobre o conceito de gravidade.

Feira do Estudante começa na sexta 

Começa na sexta-feira, no ITM Expo, a 9ª edição da Feira do Estudante – Expo CIEE. A atração, considerada a maior do setor, é focada na união de três forças – estudante, escola e empresa –, apresentando inovações e tendências para o mercado de educação. Até o dia 16, mais de 3.500 vagas de estágio para alunos dos ensinos médio, técnico e universitário estarão disponíveis. O ITM Expo fica na Avenida Engenheiro Roberto Zuccolo, 555. O horário de funcionamento é das 10h às 20h e a entrada é gratuita.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 11/07/2006
SP oferece recreação a 125 mil alunos da rede 

A Prefeitura de São Paulo iniciou ontem o programa Recreio nas Férias, que oferece atividades recreativas a 125 mil alunos da rede municipal de ensino. Eles poderão assistir a peças de teatro, filmes e números de mágica, num total de 1.050 atrações em 493 pontos da capital - Centros Educacionais Unificados (CEUs), escolas e Clubes da Cidade, entre outros. O programa ocorre nos dias 10 a 14 e 17 a 21, das 9 às 17 horas. Crianças que não são da rede municipal também podem participar. A lista dos locais com atividades está no site http://educacao.prefeitura.sp.gov.br.

 

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