Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

17/07/2006 – CLIPPING


O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.



JORNAL DA TARDE – 17/07/2006
NOTAS

Dissertação sobre jornalismo em moda 

O crítico, pesquisador e professor de moda Tarcisio D'Almeida defenderá , no dia 28, uma dissertação de mestrado sobre jornalismo de moda. A pesquisa - 'Das Passarelas às Páginas: um Olhar sobre o Jornalismo de Moda' - será apresentada na Escola de Comunicações e Artes da USP às 14h30. D'Almeida, que já atuou como crítico de moda para o Jornal da Tarde, mostrará um panorama histórico e teórico sobre o jornalismo em moda ricamente ilustrado, falando sobre o trabalho do jornalista de moda. A dissertação tem também o objetivo de preencher a lacuna de uma literatura crítica existente sobre a pesquisa jornalística de moda no Brasil. Em tempos de São Paulo Fashion Week, o tema ainda permanece ausente nas universidades brasileiras.

Curso gratuito sobre a História da Cidade 

O Centro de Integração de Empresa-Escola (Ciee) realiza, a partir do dia 10 de agosto, a quarta edição do Curso de História de São Paulo. O programa é gratuito e destinado a estudantes, professores, historiadores e demais interessados. As aulas, que serão ministradas sempre às quintas, das 9h30 às 12h30 no Espaço Sociocultural - Teatro CIEE, terão coordenação da professora Ana Maria de Almeida Camargo, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. As is inscrições poderão ser feitas pelos telefones 3040-6541 ou 3040-6542 ou pelo site www.ciee.org.br, no ícone institucional/agenda de eventos. As vagas são limitadas. Os participantes receberão ao final certificado de conclusão.

Alternativas pedagógicas 

O Hospital e Maternidade Neomater oferece, no dia 27, das 15h às 16h, uma palestra gratuita sobre a participação dos pais na vida dos filhos. O evento, que faz parte do projeto Criança Feliz (www.criancafelizbrasil.com.br)pretende discutir a influência dos brinquedos e programações de TV na vida das crianças, além de enfatizar o comprometimento dos pais no ambiente de trabalho como extensão de seu lar. A palestrante, a professora Gislaine Garcez, apresentará opções de brinquedos pedagógicos e didáticos. As inscrições devem ser feitas através dos telefones 4366-4122 ou 4366-4563. A palestra será realizada no Centro de Estudos Neomater (Av. Aurélia Salazar Jorge, 303, Rudge Ramos, São Bernardo do Campo).

JORNAL DA TARDE – 16/07/2006
Volpi no museu e na escola 

MARIA REHDER 

O JT, em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação (NCE-USP), coordenado pelo professor Ismar de Oliveira Soares, propõe uma atividade interdisciplinar no campo das artes a ser realizada no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC), voltada a alunos de 1ª e 2ª séries do ensino fundamental.
Essa sugestão de aula foi elaborada por Maria Angela Serri Francoio, professora do programa “Museu, Educação e o Lúdico” do MAC, cujo objetivo é integrar a arte às outras disciplinas escolares para que esta não seja reduzida a um mero instrumento de ilustração ou seja utilizada apenas como suporte para outros conteúdos escolares.

INTRODUÇÃO

A atividade de hoje, ao propor conhecer Volpi, convida os participantes a mergulhar no tempo, no lugar e na história deste artista imigrante italiano, morador do Cambuci, auxiliando-os na compreensão de sua poética e de seu fazer artístico.
Para facilitar o desenvolvimento desta atividade, o museu dispõe das obras que marcam a principal fase do trabalho desse artista: as “paisagens naturalistas” dos anos 30 e 40.
As obras foram produzidas em finais de semanas, quando o autor retratava a periferia de São Paulo, tendo a seu lado os amigos que formariam, mais tarde, o Grupo Santa Helena. Esse grupo foi composto, em sua maioria, por artistas imigrantes que, durante a semana, se reuniam no Edifício Santa Helena, no Centro da Capital, e faziam exercícios de pintura contratando modelos vivos.

OBJETIVO

A proposta aqui sugerida é conhecer Volpi e sua produção artística, vinculando estes conteúdos à realidade social da comunidade escolar.
Visitar o museu pode ser uma etapa inicial, intermediária ou final desta experiência de ensino-aprendizagem em arte integrada às outras disciplinas.

MATERIAL

Pranchetas, papel sulfite ou canson, lápis grafite 4B e 6B

DESENVOLVIMENTO

A produção de Volpi é bastante ampla, por isso a seleção de um aspecto dessa produção para o estudo em sala de aula é importante para o desenvolvimento do trabalho.
A temática “fachadas” pode ser o fio condutor do planejamento do professor, fundamentado em sua pesquisa preparatória e enriquecida pela visita ao MAC-USP.

1º Etapa - Antes da visita ao MAC, proponha aos alunos uma seqüência de passeios pelas ruas ao redor da escola.
Com pranchetas, papéis e lápis, os estudantes devem caminhar pelas calçadas observando as casas e suas “fachadas”, janelas e portas. Para isso é necessário encontrar um lugar seguro para que o grupo se acomode e olhe com calma os aspectos dessa paisagem urbana, atentos para as seguintes perguntas:
a) O que chama mais a atenção?
b) Quais detalhes percebem?
c) Quais relações fazem com as próprias casas?
d) As portas e janelas têm linhas retas ou curvas? Como são as suas formas e cores?
e) Há prédios na região? Qual a distância entre eles?
f) Há vegetação na vizinhança?Quais cores predominam nessa paisagem?

2ª Etapa - De volta à sala de aula, exponha as produções dos alunos em varais e proponha uma conversa sobre os desenhos e as impressões do passeio. Cada um poderá falar sobre o seu trabalho ou o do amigo.
Esta etapa é um exercício do olhar e reflexão sobre o processo e seus resultados.

3ª Etapa - Visita ao museu. No espaço do MAC, os alunos poderão observar as casas e fachadas produzidas por Volpi (caso não seja possível ir ao museu, as reproduções em livros também permitem uma aproximação com a obra do artista).
O enfoque maior deverá ficar por conta das fachadas, suas formas e cores. No MAC, os alunos poderão também ver fotos da cidade de São Paulo das décadas de 40 e 50 realizadas pela artista Hildegard Rosenthal, expostas no Gabinete de Papel

4º Etapa - Na escola, proponha um debate por meio do seguinte questionamento:
Como era o bairro do Cambuci, ou as cidades de Mogi das Cruzes e Itanhaém quando o artista pintava nesses locais?
Fotos das décadas de 40 e 50, pertencentes às famílias dos alunos ou pesquisadas em jornais, também serão úteis. Envolva os familiares na pesquisa.

5ºEtapa - Pesquise as questões específicas do bairro da escola que podem ser discutidas como parte do estudo.

AVALIAÇÃO

Todas as etapas e seus desdobramentos, considerando que um projeto deve ser flexível, têm de nortear as conversas coletivas.

O PAPEL DO EDUCADOR

O educador assume o papel de facilitador e desenvolve a “expressão comunicativa por meio das artes”, levando o desenvolvimento de sua capacidade de observação dos alunos, os fazendo entender melhor a arte a partir da realidade sociocultural da comunidade escolar.

BIBLIOGRAFIA

FRANCOIO, Maria Angela Serri - Museu de Arte e Ação Educativa: Proposta de uma Metodologia Lúdica, Dissertação de Mestrado, ECA-USP, 2000;

KLINTOWITZ, Jacob. Volpi: 90 anos, Sesc, 1989; ARANHA, C. S. G - Percursos Visuais no Acervo do MAC- USP. São Paulo, MAC USP,1999

MARTINS, Miriam Celeste Ferreira Dias. Didática do Ensino de Arte: poetizar, fruir e conhecer arte/ Miriam Celeste Martins, Gisa Picosque, M. Terezinha Telles Guerra. São Paulo: FTD, 1998. São Paulo, MAC USP, 1999

Consultoria NCE: Ana Paula Ignácio, Izabel Leão e Luci Ferraz

JORNAL DA TARDE – 16/07/2006
Pó de giz 

Site da 'Nova Escola' traz as aulas do 'JT'

Os professores têm acesso a todas as atividades publicadas pelo JT em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da USP por meio do site da Revista Nova Escola : www.no - vaescola.org.br, que conta com planos de aulas elaborados por educadores. Outra boa dica é o portal do NCE-USP que traz textos complementares para a realização das atividades sugeridas aos domingos no JT : www.usp.br/nce.

MAC apóia professores de escolas públicas

O MAC-USP está desenvolvendo um projeto para professores da rede pública, com o objetivo de tornar o material didático do Programa Acervo: Roteiros de Visita acessível a todos.
Trata-se do empréstimo de pôsteres e fichas técnicas dos artistas para os educadores que apresentarem um projeto no qual contenha um roteiro de estudo, incluindo a visita ao MAC. 11 - 3091- 3328

Filme sensibiliza os alunos para as artes

O filme Poetas da Cor do cineasta e crítico de arte, Olívio Tavares de Araújo, é uma boa dica de filme . O cineasta, que realizou mais de 30 curta-metragens sobre arte, artistas e processo de criação, nos anos 60, também foi curador de diversas exposições, entre as quais duas de Alfredo Volpi. Os interessados podem assistir ao vídeo no Espaço Expositivo MAC-USP. Informações:www.macvirtual.com.br

Conheça o caminhão de aulas itinerantes

O Museu de Ciências da Unicamp, em parceria com o Instituto Sangari, acaba de lançar a Oficina Desafio, que por meio de um caminhão ambulante visitará escolas a partir de agosto com propostas de desafios de Ciências para os estudantes de Ensino Fundamental e Médio. As escolas que quiserem receber a visita do projeto devem fazer agendamento prévio pelo site: www.mc.unicamp.br/desafio/

JORNAL DA TARDE – 15/07/2006 (EDITORIAL)
Um desafio para Schneider 

Ao dar o título "Um desafio ao secretário" à entrevista do responsável pelo setor da educação no maior município do Brasil, publicada na edição de segunda-feira, este jornal deu uma idéia precisa do que ali se tratou. O jovem, simpático e aparentemente bem-intecionado membro do primeiro escalão do prefeito Gilberto Kassab informou que pretende acabar com os três turnos diurnos nas escolas municipais e melhorar os salários dos professores como meios para acabar com uma deficiência flagrada na divulgação dos resultados finais do Prova Brasil, realizado na rede pública do País: a de que o desempenho escolar na Capital não acompanha a mesma qualidade do ensino ministrado no Interior.
De fato, o secretário fará bem se conseguir aumentar o número de horas/aula dos alunos da rede básica municipal, muito reduzido pela necessidade de inserir um turno a mais, além dos dois de rotina, para maximizar o uso dos prédios já construídos para abrigar o volume crescente da demanda de alunos. E também lavrará um tento se conseguir elevar os salários do professorado, reconhecidamente vis e, por isso, parcialmente responsáveis pelas notórias deficiências de aprendizado nos estabelecimentos escolares, sejam eles públicos ou privados, municipais, estaduais ou federais.
O secretário caminha no rumo certo na defesa da idéia de que a escola não é só um centro de distribuição de uniformes e calçados , organização do transporte escolar e cadastramento de programas sociais públicos. Ela precisa, de fato, voltar a sua função precípua de instruir e formar.
Mas isso esbarra num obstáculo enorme: a escassez dos recursos para que as escolas sejam construídas, reduzindo os turnos diurnos a apenas dois, os salários indecentes pagos aos professores sejam aumentados até um nível condizente com o exercício de sua nobre função e se torne possível uma estrutura administrativa ágil e eficiente para tocar as tarefas desempenhadas hoje pelos diretores, que assim passariam a cuidar do que realmente lhes compete e não têm podido fazer bem: educar. O secretário está bem-intencionado, mas de onde o Estado depauperado tirará recursos para bancar as soluções com as quais ele pensa equiparar o nível de instrução básica da Capital ao ministrado no Interior?

JORNAL DA TARDE – 15/07/2006
NOTAS

Inscrições para cursos 

Estão abertas até o dia 21 as inscrições para os cursos de educação continuada para trabalhadores do setor de limpeza. Informações: Sindicato das Empresas de Asseio e Conservação no Estado de São Paulo - (11) 3887-2926.

SIMPÓSIO 

Nos dias 7, 8 e 9 de agosto, a USP promove o 2º Simpósio Internacional sobre Práticas Escritas na Escola: Letramento e Representação. As inscrições podem ser via internet:www.fflch.usp.br/sce até 28/07.

AQUÁRIO 

Uma dica de passeio escolar é o recém-inaugurado Aquário São Paulo, que conta com mais de 150 espécies, incluindo peixes que já existiram no Tietê. Rua Huet Bacelar nº 407, Ipiranga, em São Paulo.

PROVA BRASIL 

Qualquer cidadão pode conhecer o desempenho das escolas públicas de seu bairro, cidade ou Estado. Os dados da Prova Brasil, exame de avaliação do MEC, estão disponíveis no site: www.inep.gov.br

CURSO DE EXTENSÃO 

Estão abertas as inscrições para o curso de extensão Educando Para a Cidadania: Escola e Inclusão da PUC, que terá início dia 23 de Agosto. Informações:11-3670-3300

JORNAL DA TARDE – 15/07/2006
Escola supera evasão em menos de 3 anos 

MARIA REHDER

Se a Escola Estadual Vereador Durval Evaristo dos Santos, de Itaquaquecetuba, pudesse atender a demanda de todos os que aguardam ansiosamente na fila de espera por uma de suas vaga teria de abrir mais 4 turmas. Entretanto, essa nem parece ser a mesma escola que há 3 anos estava prestes a fechar 2 turmas do período noturno por causa da falta de alunos.
Essa foi a realidade que a educadora Nadir Godoi, atual diretora, encontrou ao assumir o cargo. "A Durval era totalmente fechada à comunidade. Como muitos alunos tinham parado de estudar, a escola estava a ponto de perder o seu coordenador noturno por causa do número reduzido de turmas neste período", conta.
Para reverter o cenário crítico,Nadir e sua equipe decidiram atrair os familiares dos alunos para o espaço escolar. "Vimos que para ter um melhor diagnóstico de nossos estudantes era preciso fazer com que as famílias passassem a ver a escola não só como um local de aprendizagem, mas de também de lazer", diz.
De acordo com a diretora, a única maneira de abrir as portas da escola era torná-la mais atrativa. "Busquei apoio do terceiro setor, pois vi que a sociedade poderia nos ajudar a deixar a escola bonita e, por meio de cursos, oferecer mais serviços."
A escola logo teve resposta positiva de ONGs e voluntários da comunidade. "No entanto, a surpresa foi enfrentar a resistência dentro da própria escola. Alguns se revoltaram por medo de expor a prática pedagógica à comunidade."
Segundo a vice-diretora, Valquíria Gonçalves da Silva, a comunidade do entorno rapidamente passou a participar das oficinas. "Aqueles funcionários acomodados tiveram de se envolver, pois não só os vizinhos, mas toda a comunidade se apropriou do espaço que foi lhe dado."
Atualmente, a EE Vereador Durval Evaristo conta com mais de 1,7 mil alunos de Ensino Fundamental e Médio. " Por causa da divulgação, pessoas de bairros distantes passaram a buscar vagas na nossa escola, pois sabiam que ali teriam algo mais do que aulas."
Um exemplo é a aluna Rosiane Lima de Souza, 22 anos, portadora de deficiência mental, que hoje cursa o 2º colegial. "Fiquei sabendo de um projeto de capacitação de portadores de deficiência para o mercado de trabalho e decidi me matricular. Ao visitar a Durval, gostei e decidi estudar aqui também", lembra.
O projeto citado pela aluna é fruto de uma parceria firmada entre a escola, ONGs e empresas com o objetivo de capacitar os portadores de deficiência para o mercado de trabalho. "Capacitamos mais de 480 pessoas , 120 já estão empregadas", comemora Nadir .
Na escola há também uma sala que foi transformada para atender crianças com distúrbios de aprendizagem. "Temos uma psicopedagoga voluntária e por meio da doação criamos este espaço para tratar das crianças, pois sabemos que estas serão nossas alunas na 5ª série", diz.
Nadir faz questão de destacar que o objetivo inicial desta abertura também foi atingido. "Ao freqüentar a escola, os familiares dos alunos passaram a participar do processo pedagógico. Hoje o nosso índice de evasão é quase nulo e quando os alunos apresentam algum tipo de problema rapidamente conseguimos solucioná-lo."

Conheça os projetos da Durval 

A equipe da EE Durval Evaristo dos Santos abre as portas da escola para os educadores que queiram conhecer seus projetos - Praça Aimorés, s/nº, Vila São Carlos, Itaquaquecetuba, 11-4645-5372.
“As pessoas precisam conhecer a equipe, pois não são só as parcerias que fazem a diferença”, diz a inspetora de alunos, Edna Alves, 42 anos.
Há 3 anos, com a entrada da nova equipe pedagógica na Durval, é que Edna voltou a estudar. “Trabalho em escolas há 15 anos, mas como larguei os estudos há mais de 30 anos ninguém nunca tinha me incentivado a voltar, tinha medo de estudar. Hoje curso a 6ª série, tenho aprendido muito e me sinto uma outra pessoa”, afirma.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 17/07/2006 (NOTAS E INFORMAÇÕES)
Irrealismo na educação 

O irrealismo continua sendo uma das duas principais características da política educacional do governo. A outra marca é o caráter errático de suas propostas. Depois de ter eleito - e mais tarde abandonado - a alfabetização de adultos como uma de suas metas, anunciado um projeto de reforma do ensino superior que teve de ser reescrito três vezes e perdido tempo na aprovação de um novo modelo de financiamento do ensino básico, as autoridades educacionais resolveram agora interferir na organização do ensino médio.
A iniciativa mais recente foi a resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE), que obriga as mais de 23 mil escolas públicas e privadas do País a oferecer as disciplinas de filosofia e sociologia. Encaminhada ao órgão pelo Ministério da Educação (MEC) e aprovada por unanimidade, a proposta dá aos Estados o prazo de um ano para definir as regras de inclusão das duas matérias nos currículos. Há cinco anos a mesma medida, aprovada pelo Congresso, acabou vetada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo por formação, sob a alegação de que não havia professores dessas disciplinas em número suficiente.
Ao justificar sua decisão, as autoridades educacionais lembram que 17 redes estaduais de ensino médio já têm aulas de filosofia e sociologia. Mas, na maioria dessas redes, elas são oferecidas em somente um dos três anos do ensino médio e, assim mesmo, com apenas uma ou duas aulas semanais. Na verdade, nem o MEC, nem o CNE e nem o Conselho Nacional de Secretarias Estaduais de Educação sabem quantos docentes terão de ser contratados para atender à demanda. Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Sociólogos de São Paulo, Lejeune Xavier de Carvalho, os governos estaduais serão obrigados a incorporar pelo menos 15 mil novos professores ao seu corpo docente.
O impacto dessas contratações na folha de pagamento e o aumento da carga administrativa imposto às autoridades estaduais, além da falta de professores devidamente habilitados a lecionar sociologia e filosofia, é um dos lados do problema. O outro diz respeito à real necessidade da medida tomada pelo CNE, num momento em que a maioria esmagadora das escolas públicas de ensino fundamental e médio não vêm conseguindo nem mesmo oferecer ensino de disciplinas básicas, como português e matemática, com um mínimo de qualidade.
Isso foi comprovado pela Prova Brasil, um dos mais importantes mecanismos de avaliação do ensino básico, cujos resultados acabam de ser divulgados pelo governo. Aplicado em novembro de 2005 a 3,3 milhões de alunos em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios, o teste revelou que a grande maioria dos estudantes exibe um aproveitamento pior do que pífio. E o último Exame Nacional do Ensino Médio, que foi aplicado em 2004 com o objetivo de avaliar cinco competências, como domínio de linguagens, capacidade de compreensão de problemas e construção de argumentos, não ficou atrás. Embora tenha havido uma pequena elevação na média geral de redação, que passou de 50,37 para 60,87, o número de alunos que atingiram a nota máxima nessa prova caiu pela metade, com relação ao teste anterior.
Se a maioria desses estudantes não consegue nem mesmo identificar o tema de narrativas simples e entender textos com um mínimo de complexidade, de que modo poderão acompanhar aulas a respeito das contribuições doutrinárias de Comte, Durkheim e Weber, no campo da sociologia, e de Platão, Aristóteles e Kant, em matéria de filosofia? Em que medida não seria mais produtivo para a rede de ensino médio concentrar sua atenção na melhoria da qualidade das disciplinas básicas, em vez de obrigar os alunos a estudar autores cujo pensamento não têm a menor condição de compreender?
Este é o ponto central do problema. Ao agir de modo errático em matéria educacional, lançando programas que não têm maior conexão entre si e impondo encargos adicionais aos governos estaduais, sem preocupação com qualidade do ensino, o governo desperdiça recursos, nega aos estudantes a formação de que precisam para vencer na vida e não produz o capital humano necessário para a aceleração do desenvolvimento nacional.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 17/07/2006
Língua de sinais na universidade 

Além de curso superior bilíngüe, inédito no País, graduação para surdos é oferecida em 8 estados 

Karine Rodrigues 

Quatro anos após ter sido reconhecida oficialmente e considerada disciplina obrigatória em cursos de formação para professores, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) começa a conquistar, na prática, o espaço determinado por lei. Além de um curso superior bilíngüe, inédito no País, oferecido pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), 500 vagas para graduação em Letras e Libras estão sendo ofertadas por instituições públicas de oito estados. As inscrições ao vestibular, marcado para 27 de agosto, foram abertas na segunda-feira.
Segundo o decreto que regulamenta a lei 10.436, de abril de 2002, a Libras deve ser incluída também no currículo das licenciaturas e dos cursos de Fonoaudiologia, Pedagogia e Educação Especial, sejam de instituições públicas ou privadas. O surdo pode estudar na escola regular ou em instituições especiais, mas, em ambas, é obrigatória a instrução em Libras. "Para que a lei seja cumprida, precisamos imediatamente formar profissionais para atingir os mais diferentes graus de ensino e também formar intérpretes", ressalta Ronice Milhomem, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), coordenadora dos cursos em Letras e Libras.
No Rio, o Magistério Bilíngüe em Português e Libras, iniciado há dois meses, vai formar 60 professores com habilitação para ensinar na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental.
Diretora-geral do Ines, centro de referência do Ministério da Educação (MEC) na área de surdez, Stny Basílio Fernandes dos Santos observa que as duas iniciativas são essenciais para ampliar o restrito grupo de pessoas com deficiência auditiva que hoje estão na universidade. "São menos de mil", diz, dos quais 974 estão em faculdades privadas. "Embora as faculdades estejam abertas para receber as pessoas com deficiência auditiva, elas ainda não estão preparadas. Os professores falam enquanto escrevem na lousa. Isso impede a leitura labial."
No ensino básico e médio, a presença dos surdos também é pequena. Segundo o último Censo, 5,7 milhões de brasileiros são portadores de deficiência auditiva. Desse total, mais de 500 mil estão na faixa entre zero e 17 anos. Mas nem 70 mil (14%) estavam matriculados no ensino básico ou médio em 2005.

TURMA MISTA

Com aulas nos turnos da tarde e da noite, a graduação do Ines reúne tanto pessoas com deficiência auditiva quanto ouvintes, todos fluentes em Libras. Professora do curso, Edileuza Lobo conta que a turma é heterogênea, marcada por diferenças que vão além do grau de audição. Há, por exemplo, pessoas que deixaram de estudar há muito tempo, enquanto outras concluíram o ensino médio recentemente.
Por ser uma experiência inédita, a equipe ainda está descobrindo as vantagens e inadequações do material de apoio. "Já percebi que usar transparências e falar ao mesmo tempo atrapalha, pois os alunos não sabem se olham para a imagem ou para o intérprete, que traduz o que eu estou falando."
Surda em decorrência de uma meningite, Renata Cilino da Nóbrega, de 27 anos, quer mais conteúdo escrito na lousa, com tempo para anotar. "Estou gostando muito, mas preciso ter mais contato com o português. A estrutura das duas línguas é muito diferente, por isso é importante saber fazer a relação entre as duas", revela, por meio de gestos traduzidos pelo intérprete que acompanha toda a aula. Dizendo-se realizada por, finalmente, ter conseguido entrar para o ensino superior, conta que só conhece três deficientes auditivos que chegaram à universidade. "Fiquei feliz, pois é uma instituição federal", conta, referindo-se à qualidade e à gratuidade do ensino.

NOVE CURSOS PELO PAÍS

Assim como Renata, outras pessoas com deficiência auditiva poderão fazer um vestibular em breve. A UFSC vai receber, até o dia 7 de agosto, as inscrições para o curso de graduação em Letras e Libras, com aulas presenciais e à distância. O concurso é para pessoas com ensino médio concluído e fluência em Libras, com prioridade para quem já possui uma capacitação do MEC. "Queremos dar formação para os professores leigos, que já passaram por um curso de curta duração oferecido pelo ministério", explica Ronice, acrescentando que neste caso os formados poderão lecionar para alunos da 5ª série ao ensino superior.
As 500 vagas serão divididas em nove instituições, sendo 60 na UFSC, e o restante, em grupos de 50, ofertados pelas federais do Ceará, Amazonas, Bahia, Rio Grande do Sul e Santa Maria (RS), além das Universidades de Brasília (UnB) e de São Paulo (USP) e do Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiânia.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 17/07/2006 (ARTIGO)
Sem o hexa e na lanterninha 

Viviane Senna* 

Henry, o jogador da seleção francesa que fez o gol da eliminação do Brasil na Copa, declarou à imprensa mundial que nossos jogadores são bons porque não vão à escola e batem bola desde pequenos. Uma frase que dá margem a várias interpretações. A que gostaria de destacar é que se ele conhecesse melhor a realidade educacional brasileira saberia que, a princípio, todos vão à escola. E que convivemos com um "inchaço" na rede de ensino. Só no ensino fundamental, temos 33,5 milhões de alunos matriculados, o que significa um quinto acima do que a rede deve comportar.
O que Henry também não sabe é que neste excesso estão os alunos que repetiram o ano uma, duas, três vezes. Nos últimos anos, a taxa de alunos repetentes no ensino brasileiro é praticamente a mesma.
No ensino fundamental, de acordo com o relatório da Unesco Educação Para Todos, 20,6% dos alunos em 2003 eram repetentes, o equivalente a 6,6 milhões de crianças e jovens cursando, outra vez, a mesma série.
Se formos além, e compararmos a performance brasileira na educação básica com a dos principais países da Copa, também estaríamos desclassificados já no início do campeonato, porque, nessa área, o Brasil amarga o pior desempenho.
O índice de repetência no Brasil, comparado aos dos outros paises, se sobressai - e muito - dos quase nulos percentuais da Itália (0,3%), da Alemanha (1,6%), da França (4,2%) e de nossa vizinha Argentina (5,9%). Aliás, somos detentores do maior índice de repetência da América Latina nas primeiras séries do ensino fundamental.
A dimensão do abismo que separa o Brasil de outros países pode ser mensurada destacando-se apenas um único dado do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês): o desempenho dos alunos de 15 anos em Matemática. Em 2003, 75,2% dos jovens brasileiros foram classificadoas no nível 1 ou abaixo dele. São adolescentes que não conseguem entender e aplicar os mais simples conceitos matemáticos na resolução de problemas do dia-a-dia. Apenas 3,9% dos alunos brasileiros nessa faixa etária encontram-se nos maiores níveis dessa avaliação (níveis 4, 5 e 6). Enquanto isso, Alemanha, Itália e Portugal têm de 5 a 9 vezes mais crianças nessa situação.
Sabemos que a educação é um dos itens que ajudam a medir o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de uma nação. E estatísticas apontam que, quando a educação vai bem, ela contribui para elevar outros indicadores, como renda e saúde. Nos países onde há educação de qualidade - capaz de alfabetizar, dotar os alunos dos conhecimentos necessários e promovê-los à série correspondente à sua idade -, o IDH também é alto.
Voltemos, então, às comparações: o Brasil tem o pior IDH entre seus adversários no futebol. Ocupa o 63º lugar no ranking. À sua frente está a Argentina, na 34ª posição, Portugal (27ª), Alemanha (20ª), Itália (18ª), França (16ª) e Inglaterra(15ª).
Também é interessante notar nos países da Copa, incluindo o Brasil, a fatia do PIB investida em educação. Varia de 4,3% a 5,2%. A diferença é que a Alemanha, por exemplo, com cerca de 85 milhões de habitantes, destina, 4,6% do orçamento para a educação. Já o Brasil destina praticamente o mesmo percentual de seus recursos (4,4%) para uma população de cerca de 180 milhões.
Talvez, diante desse dado, possamos nos perguntar se os recursos que destinamos à educação de nosso povo são insuficientes. A experiência do Instituto Ayrton Senna com a educação pública nesses doze anos nos dá parâmetros para afirmar que recursos são necessários. Mas existe um problema anterior a ser resolvido: a ineficiência no gerenciamento desses recursos.
Por isso, o Brasil precisa priorizar a estruturação de uma gestão eficaz em educação, focada em resultado - a aprendizagem do aluno. Uma gestão comprometida com metas mensuráveis a serem atingidas e monitoradas por meio de indicadores, mostrando se estamos ou não ganhando essa partida. Caso contrário, continuaremos desviando a maior riqueza do nosso país: o destino das novas gerações. E manteremos por muitas outras décadas a amarga posição de lanterninha na educação.
* Viviane Senna é presidente do Instituto Ayrton Senna

O ESTADO DE SÃO PAULO – 17/07/2006
NOTAS

Pedido de isenção de taxa começa dia 17 

UNESPCandidatos interessados em prestar vestibular para um dos cursos oferecidos pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) deverão obter o requerimento de isenção da taxa de inscrição pela internet (http://vestibular.unifesp.br) entre os dias 17 e 28 de julho e apresentá-lo, junto com os documentos solicitados, de 1.º a 11 de agosto. Tem direito ao benefício o estudante que comprovar ter cursado integralmente - ou estar apto a concluir - o ensino médio em instituição pública ou como bolsista integral em colégio particular até o final de 2006, com renda familiar per capita de, no máximo, R$ 377,49. O resultado será divulgado no site da Unifesp em 4 de setembro.

USP discute ensino da escrita em agosto 

SIMPÓSIOEntre os dias 7 e 9 de agosto, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) promoverá o 2.º Simpósio Internacional sobre Práticas Escritas na Escola: Letramento e Representação. Estão previstas conferências de professores de universidades brasileiras, americanas, francesas e argentinas. As palestras serão realizadas no Anfiteatro do Curso de Geografia da FFLCH, na Avenida Luciano Gualberto, 403, na Cidade Universitária. As inscrições custam R$ 15 e podem ser feitas através da internet (www.fflch.usp.br/sce) até 28 de julho. Há 160 vagas. Mais informações no (0xx11) 3091-4645. 

FOLHA DE SÃO PAULO – 17/07/2006 (OPINIÃO)
A revolução do talento 

ANA CLARA SCHENBERG e CONSUELO DE CASTRO

Mais que transmissão de conhecimento acumulado, educação é sentimento do mundo, ciência é intuição, arte é criatividade

A EDUCAÇÃO pública já é obsessão nacional, conforme previu Anísio Teixeira, precursor entre nós de quase tudo o que de importante se pensou sobre o assunto. A se realizar o que anunciam candidatos e iniciativa privada, em alguns anos, o analfabetismo será erradicado, as crianças terão ensino de qualidade e os professores, formação e salário dignos. Para um país em que 50,9 mil escolas dispõem de uma só sala de aula, 34,6 mil não têm rede elétrica e 16,8 mil não têm nem mesmo banheiro, mais que promessa de revolução ou milagre, o anúncio parece uma forma de loucura.
Porém, como diz o professor Antonio Candido, "a loucura de hoje é a razão do futuro", de modo que aderimos à utopia agregando outra: incluir o ensino obrigatório de artes, ciências e tecnologia à grade curricular a partir de seleção vocacional instalada em toda a rede, para que as crianças possam expressar e desenvolver vocações do primeiro ano do ensino fundamental ao último ano do ensino médio.
Não temos programa de inclusão cultural. Os que se apresentam são impermanentes, fragmentários e, nas artes, tratados como lazer, logo, questionáveis quanto a prioridades. A Lei Rouanet não abrange a área nem contempla ciência e tecnologia, o que não impediu a Cia. Vale do Rio Doce de doar significante aporte à pesquisa de biotecnologia da USP.
Por garra ou solidariedade sucedem-se ações públicas, privadas, comunitárias: museu do inconsciente, bandas, balés, corais, concursos.
O demente Bispo do Rosário brilha nos museus do mundo. A Orquestra Filarmônica do Acre transforma crianças de risco em músicos. Sem-tetos montam uma biblioteca nos porões de um edifício ocupado. O "Artesanato Brasil com Design", da Caixa, ilumina grotões, as Olimpíadas da Matemática e o Pré-Iniciação Científica, da USP, se dispõem a revelar talentos adolescentes.
Mas, por quanto tempo? Se até os Cieps e Ceus, implementados com recursos públicos e consagrados pelo uso da população, oscilam sob contingências políticas?
Cabe sustentar gestões que lidam tão intimamente com sonhos e projetos de vida e sustar as que se diluíram.
Com freqüência, programas são massivamente ministrados sem avaliar qualidades de iniciantes e iniciadores, despossuindo-se o despossuído também do direito de aprimorar o pendor que tem, como ser original e único que é.
A postura acrítica sugere perversas indagações: teriam os miseráveis uma alma, se não a tinham seus antepassados negros e índios? E se a têm, seria essa alma individual ou manada anímica que não requer prática nem habilidade fora de palanques e planos de marketing institucional? Ao "estorvo histórico", o "resgate da cidadania". Eis o ato falho que denuncia o estigma. Não se resgata o que não foi dado.
Há que resgatar o sentido da educação, da ciência e da arte. Mais que transmissão de conhecimento acumulado, educação é sentimento do mundo, ciência é intuição, arte é criatividade, e todas são um só processo para o qual é preciso educar o educador, ele também tratado como coisa ou peça de senzala, ganhando em média 300 reais mensais.
É esse o quadro que esperamos que seja revertido pelos empresários ora mobilizados e os candidatos em campanha, quando eleitos. Que a democracia saia do discurso para entrar na história pessoal de todos os brasileiros. Só o talento subverte a distribuição de renda que distribui os destinos de cada um.

ANA CLARA G. SCHENBERG , bióloga, é professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Foi coordenadora da Divisão de Assuntos Científicos e Tecnológicos da Convenção da Biodiversidade das Nações Unidas.
CONSUELO DE CASTRO, dramaturga, é autora de "Only You", "Caminho de Volta" e da coletânea "Urgência e Ruptura" (Perspectiva).

FOLHA DE SÃO PAULO – 17/07/2006
A felicidade no currículo

MOACYR SCLIAR

Ai dos alunos que forem reprovados. O estigma da infelicidade será colocado no seu histórico escolar

Alunos terão aulas de felicidade. Dois mil alunos de uma escola pública britânica terão aulas sobre felicidade a partir do início do próximo ano letivo graças a um programa piloto que poderá ser implementado ao currículo escolar do país, informou o jornal "The Independent". Estas técnicas buscam proteger as crianças de males atuais, como a depressão e a falta de auto-estima. O projeto foi lançado devido ao aumento de depressões e enfermidades mentais registradas entre as crianças britânicas. Pelo menos 10% das crianças em idade escolar sofrem de depressão severa, segundo as estatísticas oficiais. Folha Online, 10 de julho
O NOVO curso sobre felicidade parte do princípio que este é um estado de espírito obrigatório, sobretudo em países que de há muito superaram problemas como a pobreza e a desigualdade social. Mais: é um direito.
O pursuit of happiness, a busca da felicidade de que, muito apropriadamente fala a Constituição norte-americana, deve estar ao alcance de todos, assim como o alimento, a água e o ar. Como disciplina, portanto, a felicidade será de freqüência obrigatória; alunos que faltarem a 20% ou mais das aulas serão automaticamente excluídos e considerados infelizes.
Isso posto, deve-se dizer que o curso será do mais alto nível. Os professores serão cuidadosamente selecionados, dando-se preferência àqueles que tenham doutorado em felicidade concedido por instituição universitária reconhecida. Mais que isso, a vida pessoal desses mestres será investigada; qualquer sugestão, por parte de familiares ou de amigos, acerca de conduta sugestiva de algum grau de infelicidade ou de pouca felicidade, poderá ocasionar o afastamento deste professor e seu desligamento do corpo docente.
O curso em si terá a duração de 180 horas. Esta cifra não surgiu do acaso; trata-se de múltiplo de 18, um número que, segundo a Cabala, proporciona bom augúrio. Nas 180 horas os alunos terão aprendizado teórico e prático.
O aprendizado teórico incluirá disciplinas como Introdução à Felicidade e Evitando Pessoas Infelizes. No aprendizado prático os alunos deverão exercitar a capacidade de se sentir bem, de manifestar alegria, e de rir -sim, porque o riso, para fins práticos, é considerado o indicativo maior de felicidade.
Ao final do semestre os alunos serão submetidos a provas. No exame teórico, escreverão dissertações sobre questões tais como "É verdade que o homem feliz não usava camisa?"
Na prova prática deverão mostrar sinais de felicidade exuberante. Isso será medido com auxílio de moderna tecnologia. Um aparelho especial dirá se o riso do aluno é verdadeiro ou falso, e se sua intensidade é suficiente para comprovar felicidade. Também será avaliada a expressão facial.
Os alunos realmente felizes receberão um certificado de Felicidade Comprovada, válido para admissão em cursos mais avançados tratando do tema. Mas os que forem reprovados... Ai dos que forem reprovados. O estigma da infelicidade será colocado no seu histórico escolar e eles nunca mais poderão sequer sorrir, mesmo assistindo a uma impagável comédia de tevê. Deverão assumir sua infelicidade, e cursar de novo a disciplina, até que a sorte, feliz, lhes sorria.
MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha


FOLHA DE SÃO PAULO – 16/07/2006
A ação afirmativa nas universidades

JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN

No Brasil, o negro ganha em média a metade do que um branco, e 2/3 da diferença é atribuível à educação

UMA DECISÃO da Suprema Corte dos Estados Unidos em 2003 proibiu a utilização de cotas, mas aprovou o uso de outras políticas de ação afirmativa na admissão nas universidades públicas americanas. O voto foi apertado (5 a 4), e um dos dissidentes, o juiz Clarence Thomas, negro, mas reconhecido como o mais reacionário membro da corte, escreveu que a ação afirmativa prejudica as minorias, retardando o seu progresso. A tese de Thomas era que, uma vez admitidos, os alunos de cor não conseguiriam sucesso na competição com os colegas.
Em resposta, o ex-presidente da Universidade Princeton William Bowen, co-autor de um estudo sobre a questão, declarou: "De alguma forma, os cientistas sociais devem dizer claramente aos juízes, mesmo ao Clarence Thomas, que a evidência (empírica) é relevante". Bowen e Derek Bok, ex-presidente da Universidade Harvard, estudaram uma base de dados com 45 mil ex-alunos de algumas das instituições americanas mais seletivas e concluíram exatamente o oposto do que Thomas escreveu no seu parecer. Mesmo aqueles que tiraram notas baixas nos testes do final do curso secundário -e, portanto, mais provavelmente admitidos por causa da ação afirmativa- ganharam muito por freqüentar uma universidade de elite.
O pesquisador do Ipea Sergei Soares documentou que, no Brasil, o trabalhador negro ganha em média a metade do que ganha um branco, e quase dois terços dessa diferença é atribuível à educação. Aumentar o acesso dos negros à escolaridade é um passo essencial para diminuir esse hiato de renda, e a evidência empírica internacional e brasileira pode ajudar a indicar o melhor caminho para fazê-lo. Os adversários das cotas no ensino superior federal têm bons argumentos. Há o perigo de o sistema de cotas possibilitar o acirramento da intolerância racial. Para beneficiar a sociedade como um todo, o sistema universitário precisa ser meritocrático, e os estudantes devem ser selecionados de acordo com a sua capacidade para aproveitar o ensino.
A maioria das instituições americanas de ensino adotou um sistema menos rígido de ação afirmativa, que favorece a admissão de alunos negros e hispânicos sem instituir cotas e que responde a esses receios. Apesar de a direita americana atacar, por vezes com sucesso, as preferências para as minorias, o conflito racial é bem menor hoje do que era na década de 60. E as universidades americanas de elite, onde a ação afirmativa é mais efetiva, têm um ensino de qualidade invejável e contribuem cada vez mais para o desenvolvimento daquele país.
Talvez o mais forte argumento contra as cotas é que os jovens mais pobres que não fizerem parte dos grupos beneficiados teriam ainda maior dificuldade de acesso à boa educação universitária. No Brasil, os alunos dos cursos de maior prestígio nas universidades públicas provêm majoritariamente das famílias mais ricas, e um sistema de cotas necessariamente vai tornar ainda mais difícil para um jovem branco de origem modesta aceder a esses cursos.
Para aumentar o número de jovens pobres, inclusive de cor, nas boas faculdades, é preciso abandonar o dogma de que a universidade pública precisa ser gratuita mesmo para os alunos abastados. Os recursos gerados pelas taxas pagas pelos alunos que puderem pagar devem ser utilizados para subvencionar cursos de preparação e dar bolsas de manutenção para os alunos mais carentes. Mais vantajoso seria criar bolsas para alunos carentes que pudessem ser usadas em qualquer faculdade pública ou privada de qualidade.
Mas, mesmo se o ingresso dos mais pobres nas instituições de ensino federais aumentasse, a evidência empírica aponta que, provavelmente por causa da discriminação e do preconceito que os jovens de cor e suas famílias enfrentam, os negros ainda estariam sub-representados entre os alunos das melhores escolas, a menos que políticas de ação afirmativa sejam adotadas.
Há muitos problemas com um sistema de cotas, e seria muito melhor se cada universidade federal tivesse autonomia para instituir políticas próprias para aumentar a diversidade do seu corpo discente. Mas pior ainda é não fazer nada.
JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN, 58, professor de economia na Universidade Princeton (EUA), escreve quinzenalmente aos domingos nesta coluna – jose.scheinkman@gmail.com

FOLHA DE SÃO PAULO – 16/07/2006
Quatro lições da professora Inês

GILBERTO DIMENSTEIN

Como manter uma escola pública de qualidade e evitar que crianças caiam nas mãos de facções como o PCC

INÊS CABRIL é uma das principais responsáveis por uma notável proeza: a escola que dirige, em Sertãozinho, uma cidade do interior de São Paulo com 110 mil habitantes, conseguiu ficar entre os dez melhores colégios públicos de ensino fundamental do país, de acordo com o ranking da Prova Brasil. Se estivesse nos Estados Unidos, ela seria uma personalidade nacional, reverenciada como heroína.
A razão da proeza é a seguinte: 1 -ao contrário da quase totalidade das dez melhores da lista, a escola não está numa grande cidade, onde existem abundantes ofertas culturais e educacionais; 2 - é uma instituição municipal, enquanto suas concorrentes são federais; 3 - tem apenas 15 anos de existência, quase nada diante de seus concorrentes, no ranking, como o Colégio D. Pedro 2º, no Rio.
Quem prestar atenção nas quatro lições da professora Inês aprenderá a receita de uma escola pública de qualidade -e, mais ainda, vai saber como evitar que crianças e adolescentes corram menos risco de cair nas mãos de facções como o PCC.

Em 1991, não havia nenhuma instituição de ensino fundamental em Sertãozinho, distante 350 km da cidade de São Paulo. Naquele ano, a prefeitura criou a Escola Municipal Professor José Negri, e Inês Cabril foi chamada para ser sua diretora.
Desde então, ela não deixou o cargo, e a rotatividade de professores é baixa, o que os faz vinculados ao lugar em que ensinam.
A primeira lição é a que vemos em qualquer parte do mundo: uma boa escola começa com um bom diretor, para quem ensinar não seja um fardo, mas uma mistura de prazer com sacerdócio.
Os alunos com dificuldades são acompanhados e apoiados. Depois do período regular, eles passam pelo balcão de dúvidas, com professores à disposição. Além desse serviço, há reforço aos sábados.
Segunda lição: para a progressão continuada funcionar (e, assim, evitar o trauma da repetição do ano), deve-se ajudar o aluno constantemente. A responsabilidade maior do mau desempenho não é, em essência, do estudante, mas da escola. Não se pode culpar a vítima.

À parte do tempo regular, são ofertados em outro período, além do "balcão de dúvidas", atividades em laboratórios, informática, dança, música, teatro e esportes. Os estudantes usam um clube na frente da escola, onde a prefeitura desenvolve programas esportivos. Os laboratórios ajudaram a produzir ali premiados em olimpíadas nacionais de física e matemática. Isso fez com que a José Negri tivesse o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Terceira lição: as atividades complementares desenvolvem a autonomia do aluno, aumentam sua bagagem cultural e, muitas vezes, dão sentido ao que foi ensinado em sala de aula.

Uma das chaves do sucesso é a participação dos pais na escola -essa é uma das principais exigências da professora Inês. Pais e filhos, portanto, são obrigados a seguir uma disciplina. A secretária de Educação de Sertãozinho, Maria Dirma Bonomi, conta que os pais são os primeiros a reclamar contra professores considerados ruins. Não são apenas os burocratas, professores e sindicatos que dizem como deve ser a educação. Escola pública sem cobrança dos pais é como um produto livre das leis de defesa do consumidor.
Quarta lição: quanto maior o envolvimento da família e da comunidade em geral, melhor para a obtenção de bons indicadores.

Se quisermos mais gente nas escolas e menos no crime, não precisamos reinventar a roda. Basta seguir as lições da professora Inês.

P.S. - Para mostrar a diferença que faz uma boa diretora, pus em meu site (www.dimenstein.com.br) uma pesquisa sobre dois casos na cidade de São Paulo. São duas diretoras (Ana Elisa Siqueira e Maria de Fátima Borges) do estilo da professora Inês. Com os mesmos recursos dos demais colégios municipais, souberam envolver as famílias, motivar professores e tirar proveito da comunidade. Embora falte muito, muito mesmo, para comemorar, atingiram níveis ótimos para os padrões paulistanos e bons em termos nacionais, comparáveis às médias das capitais que ficaram em primeiro lugar, como Campo Grande e Curitiba. Mais uma lição: precisamos encontrar meios de formar bons diretores e, além disso, premiar os que demonstrem melhor desempenho. Vamos melhorar a educação menos aumentando generalizadamente salários do que dando mais dinheiro a quem trabalha melhor, a partir de critérios objetivos. Para quem não tem vocação ou compromisso, não há salário que estimule.

FOLHA ONLINE – 16/07/2006
DIPLOMAS À VENDA
Rede faz cópia falsa de certificado de conclusão de curso

Profissionais fraudam os documentos para firmar contratação, como fizeram 110 funcionários da Febem

MARIANA BERGEL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
 


Muitas portas para o mercado de trabalho se fecham para os "sem-diploma". A necessidade do certificado é tão evidente que há quem recorra a documentos falsos para ter um posto. Assim, alimentam outro mercado: o das fraudes.
Na semana passada, a reportagem da Folha comprovou a existência de uma rede de venda de diplomas de ensinos médio e superior
em São Paulo.
Situado
s no centro da cidade, em frente a um posto da Guarda Civil Metropolitana, os falsificadores aguardam clientes -desempregados ou pessoas que passaram em concursos e precisam do certificado.
"O histórico de ensino médio custa R$ 200 e fica pronto em uma hora. Ninguém teve problema", conta o vendedor, que se apresentou como Luís.
Depois de entregar uma cópia da carteira de identidade, foi preciso esperar 50 minutos para ter o diploma em mãos.
O documento leva os carimbos da E.E.P.S.G. Dr. Alarico Silveira e da secretaria estadual de educação e foi impresso em papel envelhecido -por sugestão do vendedor, a data de emissão é 1996. "Assim, não parece que você ficou tanto tempo fora da escola", opina.
Para entregar o histórico escolar em uma universidade, ele orienta: "Faz uma cópia autenticada. Não entrega o original".
E finaliza: "Depois, vem aqui que a gente providencia o diploma de curso superior. Pode escolher a faculdade. Custa R$ 1.500 e fica pronto em um dia".
Procurado pela Folha, o diretor da da E.E.P.S.G. Dr. Alarico Silveira, José Oliveira Santos, afirmou tratar-se de um documento falso, que deve ter sido feito por uma "quadrilha". Ele diz que esse é o terceiro caso do qual tem ciência e que já reportou os outros dois à secretaria de educação.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo confirma que a escola já foi alvo de falsificadores. "Esses documentos vão sendo anulados de acordo a legislação. Toda vez que se desconfia de sua autenticidade, ele deve ser mandado para verificação na secretaria de educação", explica Maria Travain, assistente técnica da Cogsp (Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo).

Profissionais a menos

A proliferação de diplomas e históricos escolares falsos atingiu a Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor).
Depois de uma denúncia anônima, a instituição começou a verificar a autenticidade dos certificados. Até agora, foram investigados 824 colaboradores. Desses, 110 apresentaram documentos falsificados.
"Já foram demitidos 26 funcionários por justa causa e outros 71 pediram demissão antes do fim do processo", informa Alexandre Perroni, corregedor-geral da Febem.
Perroni calcula que o índice de 18% de fraudes verificadas nos funcionários investigados se mantenha quando analisados os documentos dos mais de 10 mil colaboradores.
Depois de detectadas as falsificações, foram instituídos novos procedimentos ao RH. "É preciso trazer o histórico escolar original, e não mais a cópia."
O agente de segurança F.X., 30, questionou a possibilidade de existência de diplomas falsos até que a primeira denúncia foi comprovada. Ele diz que, hoje, o setor em que atua não está com o quadro de funcionários completo. "Mas ainda não fomos prejudicados pela falta dos demitidos", considera.
A Febem deve abrir um concurso neste mês para suprir as vagas abertas pelas demissões dos funcionários sem diploma.
Colaborou RAQUEL BOCATO, da Reportagem Local

Falsificação pode bloquear trajetória de profissional

Recrutadores têm métodos para descobrir veracidade de informações 

DA REPORTAGEM LOCAL

Se comprar um diploma falsificado não é tarefa tão complicada, ser pego com ele é ainda mais difícil. "As firmas não têm o costume de solicitar o certificado de conclusão [de curso] no momento da contratação", diz Claudia Generoso, consultora de RH da BPI.
Foi dessa maneira, lembra ela, que um profissional conseguiu se inserir em uma multinacional norte-americana.
"Eu não recomendei a contratação da pessoa, pois havia candidatos mais adequados ao perfil, mas o diretor quis."
Três meses depois, o superior descobriu a mentira. "Ela não tinha superior completo nem tinha conhecimento de informática, e ambos eram importantes para a vaga", afirma. O resultado foi a demissão.
Engana-se quem pensa que a imagem do profissional fica manchada apenas na empresa em que ele é descoberto. Uma das principais estratégias dos selecionadores para escolher o candidato ideal para o posto é contatar ex-empregadores.
"Quem é descoberto com um diploma falso tem a carreira marcada por um bom período", destaca a consultora do Hay Group do Brasil Raquel Arena.
De acordo com ela, se o trabalho exigir conhecimentos específicos que foram camuflados pelo certificado, "será questão de tempo até que a empresa perceba a falsificação".

Hora da verdade

Arena diz haver ao menos uma maneira de minimizar o impacto negativo de o profissional ser descoberto com documentos falsos quando já trabalha em uma organização. "Contar a verdade é uma alternativa. Mostra que houve iniciativa." Ressalta, contudo, que a atitude, por mais honesta que possa parecer, não impede que o funcionário seja demitido.
Conquistar um emprego, ingressar na universidade e deixar para trás matérias para as quais dizia não ter aptidão. Foram esses os três motivos que levaram A.L.B., 28, a comprar um diploma de ensino médio.
"Paguei R$ 750 pelo certificado falso, feito por ex-funcionários de uma escola", conta.
Teve parte do que queria: passou na faculdade de letras, onde ficou por dois anos, e se livrou de matemática e física.
No quinto semestre do curso, no entanto, teve uma briga com o irmão, que a delatou.
"Fui chamada para a sala da direção e me disseram que eu estava desmatriculada, que a partir daquele momento não poderia mais entrar lá."
Hoje, trabalhando como recepcionista em um salão de beleza, ela diz se arrepender de ter comprado o certificado.
Reconhece, no entanto, que seus currículos são formatados de acordo com a vaga. "Para os que não exigem muita escolaridade, escrevo que tenho ensino médio completo. Nos que requerem mais, digo que estudei até o segundo ano de letras."
Pretende voltar à escola ainda neste ano. "Quero entrar na faculdade novamente e dar aulas de literatura brasileira."
E filosofa: "Não adianta tentar pular etapas. A vida cobra tudo isso na frente".

FOLHA ONLINE – 16/07/2006
sua carreira - biblioteconomia:

Novas funções revitalizam profissão
 

Com mercado eclético, pós amplia oportunidades de trabalho; salário chega a R$ 10 mil 

RENATA DE GÁSPARI VALDEJÃO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O excesso de informação que caracteriza este século vem sendo acusado de fazer mal à saúde, sobretudo à memória. Se é ruim para alguns, para os bibliotecários é uma bênção. Quem escolheu a carreira tem hoje vasta área de trabalho.
Antes visto como alguém fadado a trabalhar em bibliotecas empoeiradas e pouco valorizado nas empresas, esse profissional ganhou status de gestor de dados nas instituições.
Isso porque ser capaz de absorver tudo o que é divulgado não necessariamente implica estar bem informado -é preciso selecionar dados úteis em meio ao turbilhão diário de informações disponíveis.
A Classificação Brasileira de Ocupações, do Ministério do Trabalho e Emprego, identifica hoje o bibliotecário como profissional da informação. Em suas atribuições estão atividades como disponibilizar informações em qualquer suporte e gerenciar centros de documentação, entre outras.


Especialização

A formação superior é ofertada em cursos como biblioteconomia e documentação, ciência ou gestão da informação. Mas a faculdade, sozinha, não basta. "É aconselhável fazer pós-graduação em economia ou administração", sugere Vera Lucia Stefanov, presidente do SinBiesp (sindicato da categoria).
Motivo do conselho: o mercado de trabalho é eclético. Há oportunidades em bancos de dados ou núcleos de pesquisa de empresas e institutos, universidades (onde o salário pode ultrapassar R$ 10 mil), colégios, internet e até em consultorias.
Para interessados na área técnica, o Senac-SP oferece um curso de 800 horas/aula (15 meses) que forma o auxiliar de biblioteca. Ele trabalha sob supervisão, e seu salário varia de R$ 550 a R$ 700. "Temos grande procura de empresas por estagiários", afirma Sueli Nemem, coordenadora do curso.


Negócio próprio


Há espaço, inclusive, para empreender. Foi o que fez Laura Del Mar Lourenço, 51. Após trabalhar numa empresa e no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), atendendo a pesquisadores, ela se uniu ao marido, fotógrafo, para fundar, em 1991, o banco de imagens Pulsar, que hoje conta com cerca de 700 mil cromos sobre os mais diversos temas.
O arquivo foi disponibilizado na internet, ambiente em que conta com mais de 16 mil imagens. "Tive de aprender formas de catalogação que não me ensinaram na faculdade", conta.
Segundo Lourenço, o sistema de ensino não se preparou para a mudança pela qual passou a carreira. "Mas as escolas já estão prestando mais atenção à tecnologia", diz ela, que fez vários cursos de especialização: processamento de imagens, tratamento de arquivos digitais e informática, entre outros.
Para Vera Lucia Stefanov, do SinBiesp, o maior problema enfrentado pela categoria é a remuneração paga pelos municípios, geralmente inferior ao piso salarial (veja quadro). "Há um projeto na Câmara para estender aos municípios a convenção coletiva", afirma.
SinBiesp - Tel.: 0/xx/11/3242-0911 www.sinbiesp.org.br

FOLHA ONLINE – 16/07/2006
Responsabilidade Social e Ética
O descaso com o combate à pornografia infantil

Engel Paschoal

Em outubro de 2000, o jornal inglês Financial Times noticiou que desde 1997 escoceses vinham montando o chamado "The Map", concluído por volta de 1999, com tudo o que a Internet tinha de ruim. Em meio a 40 categorias de atividades no mínimo indesejáveis, a pornografia era identificada como uma das que mais proliferavam na Web: segundo os escoceses, mais de 20 mil sites pornográficos eram criados por dia. Eles também identificaram a Wonderland, uma grande rede de pedofilia e, assim, contribuíram para que centenas de pessoas fossem presas.
Em 2003, o Brasil foi o quarto país do mundo em endereços com pedofilia na internet, ficando atrás só dos EUA, Coréia do Sul e Rússia, segundo a Rainbow Phone, associação italiana de proteção aos direitos infantis. Segundo relatório dessa entidade, só em 2003 foram descobertas 1.210 páginas na internet com pedofilia, cerca de 7% do total de 17.016 páginas da rede em todo o mundo com tal conteúdo. Na época, os EUA tinham 10.503 páginas (cerca de 60 % do total). Em comparação com 2002, em 2003 as páginas com pedofilia cresceram mais de 70% em todo o planeta.
Em janeiro de 2004, a NCH, ONG britânica de defesa dos direitos da criança e do adolescente, divulgou que a internet aumentou, entre 1988 e 2001, em 1.500% os casos de pornografia infantil na Inglaterra. A NCH destacou um detalhe crucial: antes da Internet, as pessoas se expunham para pegar fotos de crianças, enquanto que, agora, elas podem ter o que querem sem sair de casa ou do escritório. A NCH falou também do perigo das salas de bate-papo, por causa dos recursos de imagem e som, sendo que uma em cada cinco crianças ou adolescentes já foi abordada online por pedófilo.
Por tudo isso, achei muito oportuno o lançamento, em setembro de 2005, do Hotline Br (www.denuncie.org.br), o primeiro canal brasileiro de denúncias de pornografia infantil na Internet, construído segundo as normas internacionais. O site foi criado pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan (Cedeca-BA), com o apoio do Canadá.
Lançado no auditório do Ministério Público da Bahia, durante a abertura do "Seminário Internacional sobre o Enfrentamento da Pornografia Infanto-juvenil na Internet", o Hotline Br passou a receber denúncias de todo o país e a encaminhá-las para a Polícia Federal, no caso de sites localizados em território brasileiros, ou à Interpol, se no exterior. Além de todos os benefícios implícitos, o site era o único do mundo no qual o autor da denúncia podia acompanhar todo o processo, desde saber se o endereço denunciado foi retirado do ar até para onde foi enviada a denúncia.
Como se sabe, o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente considera crime, no Brasil, a distribuição, exibição, produção, venda ou publicação de imagens pornográficas envolvendo crianças e adolescentes. A pena é de reclusão de dois a seis anos, além de multa.
Acontece que o Hotline Br paralisou suas atividades no início deste ano, conforme texto da jornalista Katherine Funke datado de fevereiro e que se encontra na home page do site. Isso porque "Os recursos para a manutenção do projeto, oriundos da Embaixada do Canadá, acabaram em dezembro". Com isso, mais de 1.400 denúncias estão à espera de rastreamento, mas continuam a ser recebidas porque o site está no ar.
No lançamento do site, segundo Katherine Funke, "um representante da Secretaria Especial de Justiça e Direitos Humanos (SEJDH), fez um discurso em que destacava o financiamento do Hotline Br como 'questão de honra para o Brasil'. A advogada paraibana Ana Luiza Rotta, presidente do Inhope, rede internacional que congrega 21 países, lembra do discurso: 'Fico impressionada com a situação, porque o governo brasileiro promoveu compromisso público. (...) Foi uma luta para que aceitassem o país na rede, pois é preciso que a nação tenha estabilidade para manter o canal. Este é um exemplo de que o Brasil ainda não é maduro na articulação entre entidades não-governamentais e governamentais'".
Funke diz que "(...) os governos da maior parte dos países desenvolvidos investem no combate à pornografia infantil na Internet. Na Europa, chegam a bancar 50% dos gastos das ONGs especializadas. Outros financiadores são ligados à indústria da internet, como provedores de acesso".
É uma pena. Nenhum deputado, senador, governador, ministro, nenhum político, enfim, está preocupado. Todos estão muito ocupados em cuidar da campanha para um novo mandato.
 

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