24/07/2006 – CLIPPING

O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.
FOLHA DE SÃO PAULO – 23/07/2006
65% apóiam cotas raciais na faculdade
Menos de metade dos entrevistados pelo Datafolha conhece a proposta, e apenas 9% declararam estar bem informados
Pesquisa indica que rejeição à reserva de vagas para os negros em universidades é maior entre os mais ricos e os mais escolarizados
CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL
A maioria dos brasileiros é a favor da adoção das cotas para afrodescendentes nas universidades, mas a aprovação diminui à medida que aumenta a renda familiar e a escolaridade do entrevistado, aponta pesquisa Datafolha feita com 6.264 pessoas acima de 16 anos.
Desse total, 65% são favoráveis à reserva de um quinto das vagas nas universidades públicas e privadas para negros e descendentes, como prevê um dos pontos do Estatuto da Igualdade Racial, que tramita no Congresso. A votação deve acontecer no próximo ano.
Ao mesmo tempo em que aprovam as cotas para negros, 87% dos entrevistados também concordam que deveriam ser criadas reservas de vagas nas universidades para pessoas pobres e de baixa renda, independentemente da raça.
Negros e pardos representam hoje 48% da população brasileira, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) 2004.
O levantamento mostra também que o assunto precisa ser mais bem discutido. O estatuto é conhecido por 46% dos entrevistados, porém apenas 9% se dizem bem informados sobre ele. Também nesse ponto o conhecimento aumenta conforme cresce a renda familiar e a escolaridade do entrevistado.
A maior taxa de aprovação das cotas raciais ocorre entre as pessoas com escolaridade fundamental (71%). Já entre os entrevistados com nível superior acontece uma inversão: 55% são contra as cotas raciais.
O mesmo acontece entre as pessoas com renda familiar acima de dez salários mínimos -que representam 2% da população brasileira, segundo a Pnad. Apenas 39% são favoráveis às cotas, contra 57% dos que não concordam com elas.
Nessa faixa salarial, a rejeição é alta tanto entre aqueles que se autodeclaram brancos (64%) quanto para os negros (54%). O índice cai para 47% entre os pardos.
Já entre os que ganham até dois salários mínimos, o índice de aprovação é de 70%.
Para Roberto Romano, filósofo e professor titular de ética e filosofia política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), os resultados podem ser interpretados sob dois pontos de vista.
"O moralista diria que quanto mais privilegiada uma pessoa, mais ela quer ser. Eu prefiro acreditar que os mais escolarizados sabem que não existem soluções mágicas, conhecem as dificuldades do ensino e da pesquisa dentro da universidade e têm consciência da atitude administrativa que se deve ter."
Já o professor de antropologia da UnB (Universidade de Brasília), José Jorge Carvalho, entende que os resultados da pesquisa indicam que "a elite não quer perder o poder". "Vagas nas universidades públicas boas são cotas de poder. E a elite não quer concorrentes negros", diz Carvalho, que foi um dos idealizadores do programa de cotas para negros da UnB.
A cor declarada pelo entrevistado não representa diferença estatística significativa sobre a aprovação das cotas. Entre os negros, 69% são a favor e, entre os brancos, 62%. "Isso mostra que no Brasil o problema da desigualdade não está colocado em termos de raciais e sim de gente pobre", avalia o cientista político Bolívar Lamounier.
O sociólogo Edward Telles, professor do departamento de sociologia da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), pensa que esse dado merece mais pesquisa. "Já o encontrei em minhas pesquisas também, mas não sei bem dizer por que", diz ele.
A pesquisa Datafolha foi realizada nos dias 17 e 18 de julho em 272 municípios. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Lei prevê cota para atores na televisão
DA REPORTAGEM LOCAL
Discutido desde 1998, o estatuto tem pontos polêmicos, como o que obriga a população a autodeclarar sua cor/raça na hora de tirar documentos e o que determina a presença de ao menos 20% de atores e figurantes afrobrasileiros em programas e propagandas de TV.
Um dos pontos de maior discussão, no entanto, que previa a reserva de 20% de vagas para afrodescendentes em cargos do serviço público, foi retirado da proposta original, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). A previsão é que o estatuto só seja votado no próximo ano.
Na Câmara, vários deputados têm se mostrado favoráveis a um sistema de cotas social, ou seja, seguindo um critério de pobreza e não racial, como prevê o estatuto. Essa seria também a opinião do presidente Lula. Em razão disso, o próprio Paim já declarou que pode alterar o projeto. (CC)
Acadêmicos divergem sobre resultados
DA REPORTAGEM LOCAL
Da mesma forma que polarizaram opiniões pró e contra as cotas raciais, os acadêmicos também têm diferentes interpretações para os resultados encontrados na pesquisa Datafolha.
Para os que defendem as cotas raciais, como o cientista político Sérgio Abranches, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a rejeição maior a elas entre os mais escolarizados e de maior renda ocorre porque a classe média se sente ameaçada.
"Os filhos da classe média estudam nas universidades públicas de boa qualidade de graça. À medida que um programa de ação afirmativa equaliza as chances de ingresso daqueles que não podem pagar os cursos de preparação mais caros, as posições de monopólio da classe média ficam ameaçadas. É previsível a resistência."
Já o cientista político Bolívar Lamounier, que assinou o manifesto contra as cotas raciais, entende que as pessoas mais escolarizadas conseguem avaliar melhor questões que exigem "uma reflexão conceitual" e sabem que a adoção de cotas pode trazer implicações graves para o futuro do país.
"Para estabelecer um sistema como esse, é preciso fazer um censo de raças, que é um passo para o racismo", afirma Lamounier.
Na avaliação de Fernanda Carvalho, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais, deve aumentar a aprovação da classe média às cotas raciais à medida que haja mais informações sobre o assunto. "Nos outros países, quando as pessoas viram o funcionamento e os resultados dos sistemas de cotas, a rejeição caiu."
O fato de os entrevistados também serem simpáticos à idéia das cotas sociais, independentemente da cor, também gera explicações divergentes. "No Brasil, é mais consistente a idéia de que a classe social é mais importante que a raça para definir desvantagem", avalia o sociólogo Edward Telles, favorável às cotas.
Já Sérgio Abranches diz que as cotas sociais têm mais apoio porque há uma noção deturpada no país. "É mais confortável achar que existem tantos pobres brancos quanto negros do que pensar que a maioria dos pobres é negra. A cota social quebra o galho e deixa a pessoa se sentir confortável." (CC)
"Cota é a única forma de se fazer justiça para os pobres", diz aluno carente
DA REPORTAGEM LOCAL
Desempregado há sete meses e sem dinheiro para o ônibus, Aloisio Silva, 24, anda todos dias
Filho de um pedreiro, também desempregado, e de uma dona-de-casa, ele quer prestar ciências sociais na USP e na Unicamp no final do ano e se tornar o primeiro universitário da família.
Bisneto de escrava, Aloisio defende que as universidades reservem 50% das vagas para alunos de escola pública e, dentro desse percentual, destinem uma parcela para negros. "É a única forma de se fazer justiça com os pobres e negros."
Contra
Apesar de ter ingressado em medicina na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) pelas cotas raciais, o estudante Luiz Guilheme Werneck, 22, é contra a reserva de vagas.
Ele defende as cotas para alunos de escola pública que comprovem a capacidade para acompanhar o curso escolhido. "Senão, a qualidade de ensino vai cair."
Werneck cursou o ensino médio e o fundamental em escolas públicas de Santa Isabel (Grande SP) e, quando se decidiu por medicina, fez três anos de cursinho no Etapa,
Werneck diz que nunca se sentiu discriminado na Unifesp por ter ingressado por meio de cotas raciais. "Tinha receio antes de entrar. Lá dentro, todo mundo se iguala. Não há o grupinho daqueles que entraram por cotas", conta o estudante. (CC)
Necessidade de informação
MAURO PAULINO
DIRETOR-GERAL DO DATAFOLHA
Até aqui apenas um em cada dez brasileiros considera-se bem informado sobre o projeto de Estatuto de Igualdade Racial em tramitação no Congresso. Trata-se de uma informação relevante da pesquisa Datafolha e que aponta para a necessidade da ampliação do debate sobre o tema junto à sociedade.
Sempre que investiga questões de interesse público que não sejam de amplo conhecimento da população, o Datafolha colhe o grau de informação auto-atribuído pelos entrevistados sobre o tema e, na pergunta seguinte, faz uma breve explicação para que opinem sobre o assunto. Nesta pesquisa, a pergunta aplicada foi a seguinte: "Um dos pontos do projeto prevê que, no mínimo, 20% das vagas em universidades públicas e particulares sejam reservadas para pessoas negras e descendentes de negros, independentemente das notas obtidas no vestibular em relação aos que não são negros. Você é a favor ou contra as cotas, isto é, que sejam reservadas vagas para negros e descendentes de negros nas universidades?"
A essa primeira pergunta específica, 65% dos eleitores brasileiros respondem de forma favorável, 25% são contrários e 9% são indiferentes ou não sabem opinar. Esses números devem ser analisados como reflexo desse instante em que o grau de informação sobre o assunto é significativamente baixo.
Por isso, para uma análise isenta, é importante destacar também as respostas daqueles que já se consideram bem informados -representados, nesse momento, por apenas 9% dos eleitores. Nesse segmento, a rejeição ao projeto sobe para 40% -15 pontos acima da média. Também entre os que têm nível superior de escolaridade e, conseqüentemente, mais acesso à informação, a taxa dos que são contrários ao projeto sobe para 52%. Mesmo os que se declaram negros e têm nível superior mostram-se divididos ao responder a essa questão.
Em seguida, os pesquisadores apresentaram alguns conceitos para os entrevistados demonstrarem o grau de concordância com cada um. Nota-se aí que a ampla maioria (78%) concorda, mesmo que em parte, que "as vagas nas universidades devem ser ocupadas pelos melhores alunos, independentemente da cor, raça ou condição social", e um número ainda maior (87%) está de acordo que "deveriam ser criadas cotas nas universidades para pessoas pobres e de baixa renda, independentemente da raça".
Essa aparente incoerência com a primeira pergunta indica que os brasileiros desejam uma maior inclusão dos mais pobres, sejam negros ou não, nas universidades, concordam inicialmente com a proposta das cotas, mas valorizam também o mérito do desempenho escolar.
A pesquisa demonstra que a falta de informação é terreno fértil para se trabalhar os conceitos do tema. A maneira como esses conceitos serão comunicados e debatidos, principalmente nos veículos de comunicação, será determinante a partir daqui no posicionamento dos brasileiros sobre a questão. É papel das pesquisas acompanhar e revelar eventuais mudanças nesse cenário.
Estudos apontam bom rendimento de cotistas
Unicamp, UFBA e Uergs adotaram diferentes tipos de ação afirmativa
19% das universidades públicas do país já aplicam algum tipo de benefício aos alunos afrodescendentes ou que sejam de baixa renda
ANTÔNIO GOIS
RAPHAEL GOMIDE
DA SUCURSAL DO RIO
As políticas de ações afirmativas em discussão no Congresso já podem ser examinadas com base em experiências concretas de várias universidades públicas brasileiras. A Folha selecionou três delas por serem pioneiras ou por já terem feitos estudos que permitiram avaliar os primeiros resultados.
Os caminhos escolhidos pela Unicamp, UFBA (Universidade Federal da Bahia) e Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) são diferentes. Em comum, está o fato de as análises feitas até o momento terem mostrado que o desempenho dos beneficiados foi semelhante -e em alguns casos até superior- ao dos demais estudantes. As taxas de evasão deles também foram menores.
A Uergs foi a primeira universidade pública a adotar, em 2002, uma reserva de vagas levando em conta apenas o critério socioeconômico, sem considerar a cor do candidato.
A instituição separa metade das suas vagas a alunos carentes e 10% a portadores de deficiência. "Embora não haja dados confiáveis a respeito, toda desigualdade ou preconceito se traduz em diferenças econômicas. Por isso, atendemos a todas as formas de desigualdade", disse o reitor da universidade, Nelson Boeira. Segundo ele, a diferença nas notas foi pequena entre os grupos de alunos.
Preconceito
A UFBA, uma das primeiras federais a adotar cotas, escolheu reservar vagas para alunos da rede pública que fossem, majoritariamente, pretos, pardos ou indígenas. Com isso, pela primeira vez os calouros da rede pública superaram os das particulares na aprovação e o percentual de pretos, pardos e indígenas ficou próximo ao da população do Estado.
Para o pró-reitor de graduação, Maerbal Bittencourt Marinho, o aumento do percentual de negros seria alcançado mesmo sem o corte racial. Apesar disso, ele defende o critério.
"Nas escolas públicas baianas, o percentual de negros é grande. Mas a universidade aceitou estabelecer também o corte racial para mostrar que ela defende que o lugar do negro é também na universidade. Isso ajuda a mudar a visão preconceituosa da sociedade", diz.
Já a Unicamp, por meio de um sistema de concessão de bônus, foi a primeira instituição pública a adotar uma ação afirmativa sem cotas usando a justificativa de que, dessa maneira, seria preservado o princípio do mérito acadêmico.
Houve aumento no número de alunos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas, ainda que não próximo do percentual da população de São Paulo.
A universidade avaliou o desempenho acadêmico do método. Na maioria dos cursos (31 dos 56), os beneficiados apresentam rendimento melhor do que o dos demais no primeiro semestre. "Os resultados mostram que o programa foi até agora bem-sucedido, mas vamos continuar acompanhando os resultados para ter mais confiança no caminho escolhido ou aperfeiçoando o sistema", diz o reitor José Tadeu Jorge.
Essas não são as únicas experiências com ações afirmativas em curso no Brasil. Segundo a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, 30 instituições de ensino superior federais ou estaduais já adotam algum critério. Elas representam 19% total de 162 instituições dessas duas redes.
Estatuto criaria "racismo de Estado", diz antropóloga
Para professora, lei da igualdade racial institucionalizaria o preconceito e não ajudaria em seu combate na sociedade
Intelectual contrária às cotas defende criação de mais vagas e cursos na universidade pública em vez da reserva de cadeiras
SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL
Pouco menos de um mês depois de entregar ao governo um manifesto contra o projeto de Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial, a antropóloga Yvonne Maggie, uma das autoras do texto, comemora. O documento, assinado por 114 intelectuais, acadêmicos e artistas, vem acumulando adesões que já somam 900 pessoas. Em entrevista à Folha, a professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio Janeiro) disse que as cotas e o estatuto desestruturam a idéia de nação ao dividir a população em duas raças. Defendeu ainda que as universidades públicas recebam mais alunos, sem ter de adotar uma política de cotas. Leia a entrevista que concedeu na última quinta-feira.
FOLHA - O que você achou da repercussão que a polêmica dos estatutos causou nas últimas semanas?
YVONNE MAGGIE - Vejo que houve uma reação interessante. Nossa carta foi assinada por 114 pessoas e agora já temos quase 900 adesões. Constituiu-se um movimento. Antes éramos apenas pesquisadores, intelectuais e artistas isolados e estávamos falando no deserto. Mas, o debate se tornou de toda a nação.
FOLHA - Qual é o problema com a lei de cotas e com o estatuto?
MAGGIE - A grande crítica que temos não é ao diagnóstico, é à solução. Qual é o apelo das cotas e do Estatuto da Igualdade Racial para a sociedade? É que parece ser uma solução fantástica para acabar com a desigualdade. Mas nós contestamos isso. A grande discussão é como combater o racismo.
FOLHA - As cotas não poderiam ajudar nesse processo?
MAGGIE - O estatuto e as cotas nos pressionariam a não sermos mais brasileiros. Ao estabelecer a classificação dos brasileiros em duas raças, seremos uma outra nação. Somos a favor de uma legislação que combata o racismo, que tenha o racismo como crime hediondo, comparável ao terrorismo. O que as pessoas que são a favor das cotas nos dizem é que este país já é, na prática, dividido. Bem, mas uma coisa é o racismo na sociedade, outra coisa é o racismo de Estado. É contra esse racismo de Estado que nos colocamos. E a favor da proposta de uma legislação "arracial".
FOLHA - Os que defendem as cotas dizem que os cotistas têm alcançado bons resultados na universidade.
MAGGIE - Não me espanto com o fato de os cotistas se saírem muito bem. Por que não se sairiam? A questão é que a universidade pública tem de abrir as suas portas, e as cotas são uma forma precária de fazer isso. Só vão criar problemas. É preciso reavaliar o potencial da universidade pública de fazer ensino de massa.
FOLHA - Como seria a reavaliação?
MAGGIE - Nós temos, nas universidades públicas, um grande potencial de abertura e de ampliação dos cursos. Porque não abrimos mais vagas? Temos professores e temos salas de aula suficientes para termos mais alunos. O problema não é colocar pessoas para dentro da universidade, é fazer elas se formarem. Estabelecer cotas é trocar seis por meia dúzia.
FOLHA - Se o texto do Estatuto for amenizado, você acha que ele poderia ser aplicado?
MAGGIE - O Estatuto é um problema. A única forma de combater o racismo é criar campanhas nacionais, investir em delegacias de disque-racismo, por exemplo. O estatuto poderia ser da igualdade e não da igualdade racial, pois igualdade racial é uma contradição. Se existem raças, não existe igualdade. A primeira lição é que raça não existe. Identidade étnica só faz sofrimento, é uma invenção.
Críticas a cotas são "cegueira social", afirma ministra
Matilde Ribeiro diz que reação contrária neste debate é natural, mas traz um olhar viciado sobre o tema
Para ela, a alegação de que cotistas teriam dificuldade em acompanhar as aulas ou seriam estigmatizados não condiz à realidade
LUCIANA CONSTANTINO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A ministra Matilde Ribeiro (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) reconhece que a miscigenação dificulta a classificação de uma pessoa como afrodescendente, mas diz haver "divisões sociais" no Brasil. Por isso, defende ações afirmativas para reduzir as desigualdades. Militante do movimento negro antes de participar do governo federal, Matilde afirma que o "dilema" entre cotas sociais e raciais está resolvido no projeto de reserva de vagas
FOLHA - O Estatuto da Igualdade Racial considera afrobrasileira pessoa que se classifica como tal. Qualquer um poderá se declarar assim para tentar se beneficiar de cotas?
MATILDE RIBEIRO - No Brasil sempre tivemos a máxima de que não somos racistas e somos mestiços. O movimento negro, desde a abolição, trabalhou para que tivéssemos orgulho de sermos negros em uma sociedade que não nos acolheu. Sabemos que ser negro não é fácil.
FOLHA - Se o quadro muda, não haverá quem queira se beneficiar?
MATILDE - Não necessariamente. No Brasil, devido à miscigenação, é difícil saber quem é ou não. O consenso do IBGE para perguntar a cor é a autodeclaração. Se isso acontecer [se beneficiar não sendo afrodescendente], vai ser uma minoria.
FOLHA - No Brasil, o que identifica um afrodescendente?
MATILDE - Os rappers têm uma definição interessante. Dizem: "Os brasileiros podem não saber quem é negro ou branco, mas a polícia sabe". Nossos limites raciais não são visíveis como os da África do Sul durante o apartheid. Mas, temos divisões sociais e cotidianas.
FOLHA - Cotas não são mecanismo de desigualdade?
MATILDE - A Constituição brasileira é uma das mais avançadas. Está dito que todos somos iguais independentemente de sexo, credo, raça, idade, blá, blá, blá. Mas há uma dinâmica da sociedade que vai além e é excludente. Justamente por ser excludente é preciso ter medidas de governo e de Estado para chegar ao equilíbrio colocado na Constituição. Considero a crítica ao sistema de cotas parte da nossa cegueira social.
FOLHA - As pessoas deixaram de ver esse problema?
MATILDE - Esse dilema entre cotas sociais e raciais creio que resolvemos na formulação da proposta de projeto de lei de reserva de vagas nas universidades encaminhada à Câmara. Prevê reserva de 50% das vagas das universidades públicas para alunos oriundos de escolas públicas (cota social) combinada com proporção de negros e indígenas nos Estados (cota racial). É a somatória das duas.
FOLHA - Mas não é o desenho que vemos nas cotas previstas no texto do Estatuto da Igualdade Racial.
MATILDE - O texto que está no Congresso já passou por alterações, e o governo fez contribuições. Mas ainda não chegamos ao final da negociação e dos procedimentos.
Já em relação ao debate com intelectuais e agentes políticos, creio ser natural a reação contrária. O debate é bem-vindo, mas não concordo com o princípio das pessoas que se apresentam contra o projeto. Para complementar o termo cegueira, diria que o olhar dessas pessoas que se apresentam contra é viciado. Cito exemplos. A alegação de que alunos, ao entrarem pelas cotas, teriam dificuldade de permanecer, estariam estigmatizados, nada disso se comprova. As experiências em curso têm mostrado que quem entra pelas cotas tem tendência de superar a média escolar.
FOLHA DE SÃO PAULO – 23/07/2006
Como dar aula de incompetência
O caso de Macaé, no Rio, onde a falta de investimento em qualificação levou à geração de pobreza na riqueza
GILBERTO DIMENSTEIN
IMAGINE SE, num passe de mágica, multiplicássemos por dez a renda per capita do brasileiro.
Resultado: teríamos a cidade de Macaé (RJ), onde a renda por habitante chega a extraordinários R$ 96 mil.
Deveríamos supor que, nessa cidade tão privilegiada graças à exploração de petróleo, as pessoas desfrutam de boas chances de prosperar. Errado. Como a mão-de-obra local tem baixa qualificação, os melhores empregos gerados são ocupados por profissionais de outras cidades.
Esse exemplo de pobreza na riqueza faz dali um caso a ser estudado pelos candidatos, nessas eleições, sobre os efeitos do baixo investimento em capital humano.
Com o dinheiro arrecadado com o petróleo, o orçamento do município é de R$ 750 milhões, para uma população de 156 mil habitantes. Para comparar: o orçamento da cidade de São Paulo, a mais rica em valores absolutos do país, é de R$ 14 bilhões para 11 milhões de habitantes.
As escolas públicas de Macaé exibem um desempenho mediano -e mediano no Brasil significa qualidade ruim-, o que explica, em larga medida, por que sua população não consegue se apropriar da riqueza produzida bem à frente de seu nariz.
Não é culpa localizada desse ou daquele prefeito, mas de uma "obra conjunta" que reflete as conseqüências devastadoras da falta de visão sobre a importância de investir na qualificação dos indivíduos. O resultado é o desperdício na abundância e a geração de pobreza na riqueza.
Na semana passada citei nesta coluna o caso de Sertãozinho, cujas escolas públicas estão no topo do Estado de São Paulo, segundo a lista da Prova Brasil, que mede os conhecimentos de matemática e português no ensino fundamental. Uma delas, a José Negri, conseguiu ficar entre as dez melhores de todo o país, gastando R$ 150 mensais por aluno, o que não é muito diferente da média da região Sudeste. Dali saíram campeões em olimpíadas nacionais de física e matemática.
Façamos, então, a comparação devastadora. Com 110 mil pessoas -não muito distante da população de Macaé-, a Prefeitura de Sertãozinho tem um orçamento de R$ 120 milhões, seis vezes menos que o da cidade fluminense.
Desconte-se a favor de Macaé o fato de que, devido ao aumento da exploração do petróleo na bacia de Campos, ocorreu um rápido crescimento populacional, no começo de 1980 -um aumento de três vezes o tamanho de sua população.
Em Sertãozinho, o aumento não foi tão rápido nem tão intenso. Mas, por causa da indústria associada à cana, também passou por um forte tremor: a população dobrou no mesmo período da mudança demográfica de Macaé.
Se Macaé tivesse, porém, uma elite política e empresarial que conhecesse relação entre capital humano e distribuição de renda, saberia que a riqueza está mais dentro da cabeça dos indivíduos que debaixo da terra. Como conseqüência, se investiria mais nas escolas, nos cursos técnicos profissionalizantes, nos programas para a formação de tecnólogos.
Não existe aqui nenhuma novidade. Se prestarmos atenção em cidades brasileiras que estão virando pólos de riqueza, explorando sua vocação, veremos que os arranjos produtivos se uniram a arranjos de conhecimento. São lugares em que o desemprego não está na lista dos maiores problemas. Nesses arranjos produtivos, empresas de jovens empreendedores são incubadas, com a associação da prefeitura com as universidades, articuladas com entidades do tipo Sebrae. Vemos esse tipo de ação
Nessa aula de incompetência de Macaé há pelo menos duas dicas especialmente valiosas em período eleitoral: 1) quanto mais as cidades se organizarem como comunidades de aprendizagem, mais chance haverá de se produzir riqueza e distribuí-la melhor; 2) quanto mais essa organização partir do nível local -a começar da prefeitura- , maior eficiência se conseguirá.
Se entendemos Macaé, entendemos por que o Brasil, tão rico, consegue gerar tanta pobreza.
PS: Estamos cada vez mais dispondo de números sociais para não cairmos nas lorotas dos governantes -isso faz parte dos avanços democráticos. Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) exemplos de cidades, a partir dos dados educacionais e de renda, para que o eleitor possa fazer as comparações.
É aprendendo a cobrar que os serviços públicos tendem a melhorar. Vamos ver que, quanto maior a pressão social, melhor o dinheiro é empregado.
O ESTADO DE SÃO PAULO – 24/07/2006
Obras para o adulto que aprendeu a ler agora
Ministério da Educação distribuirá livros com linguagem mais simples
Ricardo Westin
Os adultos que estão sendo alfabetizados ou que acabaram de sair da escola receberão, ainda este ano, livros de ficção sob medida, com conteúdo, vocabulário e estrutura das frases específicos para quem já tem experiência de vida, mas não domina totalmente o idioma.
São os oito títulos vencedores de um concurso para novos escritores realizado pelo Ministério da Educação no início do ano, o Literatura para Todos, que recebeu a inscrição de mais de 2 mil obras. Cada título terá uma tiragem de 300 mil exemplares. Esses 2,4 milhões de livros serão distribuídos entre os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), como hoje é conhecido o supletivo.
Cerca de 4,6 milhões de pessoas (2,5% da população brasileira) cursam o supletivo e vivem entre dois extremos: se querem um livro com uma história interessante, encontram obras com uma linguagem difícil; se querem um livro que lhes seja inteligível, encontram historinhas para o público infantil.
"Uma adulto se interessa pelo livro A Escrava Isaura (clássico de Bernardo Guimarães), por causa de temas como amor e escravidão, mas as construções sintáticas são complexas, o vocabulário não é o de hoje e as referências também são do passado. Esses problemas ele não encontraria num livro sobre o cachorrinho e o indiozinho. Mas quem disse que um homem de 45 anos quer saber sobre o cachorrinho?", exemplifica o professor de Literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e escritor Paulo Seben.
De acordo com o Ministério da Educação, o concurso Literatura para Todos foi criado porque não existem, no mercado brasileiro, livros voltados especificamente para os adolescentes e adultos que estão aprendendo a ler e escrever. "As editoras consideram que, por ser majoritariamente pobre, esse público não tem como comprar livros", afirma Timothy Ireland, diretor de EJA do Ministério da Educação. "Essa é uma avaliação equivocada. É possível produzir material específico para o 'neoleitor' a preços acessíveis."
As obras para os chamados "novos leitores" são mais ou menos como os livros escritos para os estudantes de uma língua estrangeira. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, existem editoras especializadas em publicar romances com diversos níveis de dificuldade no vocabulário, de acordo com o grau de conhecimento de inglês do aluno.
VOLTA AO ANALFABETISMO
Um livro interessante tem uma importância ainda maior quando se constata que o afastamento das letras pode significar a perda de todos os anos de estudo. De acordo com o Ministério da Educação, a taxa de retorno ao analfabetismo chega a 60% entre os recém-alfabetizados quatro anos depois de deixarem a escola.
Maria José Soares Paladino mora
Os primeiros livros - não importa se o recém-alfabetizado é uma criança ou um adulto - precisam despertar o amor pela literatura, explica Rosineide Magalhães de Souza, doutoranda
Governo desiste de adaptar linguagem dos clássicos
Ricardo Westin
O primeiro projeto do Ministério da Educação de distribuição de livros especiais para os adultos recém-alfabetizados foi lançado há três anos. Batizado de É Só o Começo, consistia na adaptação de clássicos da literatura nacional, como A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães (veja no quadro acima), e O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Logo após a distribuição dos primeiros exemplares entre os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o antigo supletivo, o ministério abandonou o programa.
"O 'neoleitor' merece um trabalho feito especificamente para suas necessidades, e não receber textos adaptados, encurtados", diz Timothy Ireland, diretor de EJA do Ministério da Educação, explicando por que o governo criou um concurso nacional de livros para os "novos leitores".
De fato, quando se adapta uma obra para o público recém-alfabetizado, muito se perde, principalmente no estilo.
Há quem discorde do Ministério da Educação em relação à ausência de material para os "neoleitores" no País. Editoras lembram que as obras de autores consagrados como Cora Coralina, Câmara Cascudo e Fernando Sabino também têm uma linguagem simples e direta. "Podem ser usadas na educação de jovens e adultos", afirma Luiz Alves, diretor da Global Editora.
O ESTADO DE SÃO PAULO – 24/07/2006
Ensino fundamental em shopping do ABC
O Shopping Metrópole,
O ESTADO DE SÃO PAULO – 23/07/2006
Na creche, falhas na atenção à saúde
Mudança das unidades da área de Assistência Social para a de Educação deixou lacuna nos cuidados e higiene
Simone Iwasso
Enquanto avançam na formação pedagógica dos professores e aumentam a consciência de que educação nos primeiros três anos de vida é muito mais do que apenas dar de comer, colocar para dormir e levar para o parquinho, as creches municipais de São Paulo enfrentam problemas nos aspectos mais básicos de saúde e cuidado. Isso porque, ao migrarem da área da Assistência Social para a de Educação, há três anos, perderam a presença do profissional de saúde, geralmente um enfermeiro ou auxiliar de enfermagem.
Nessa transição - a Prefeitura já iniciou alguns projetos para tentar melhorar a situação -, lidam diariamente com preparo incorreto de alimentos, falta de higiene, quantidade erradas de leite e dúvidas na hora de medicar e limpar a criança.
"A principal deficiência é mão-de-obra qualificada para o cuidado que uma criança pequena precisa. Vimos que em 100% delas, por exemplo, os funcionários não lavavam as mãos para preparar alimentos, não higienizavam mamadeiras e, em 40%, havia alto risco de contaminação", afirma a nutricionista Mariana de Novaes Oliveira, uma das autoras de uma pesquisa multidisciplinar feita na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) nas instituições.
"Elas não sabem fazer a limpeza na área genital dos bebês, o que pode provocar infecções urinárias, seguem ainda algumas crenças populares, como colocar moedas ou fitas na hérnia umbilical, o que sabemos que não se deve fazer pois ela cicatriza sozinha", diz o pediatra Tulio Konstantyner. "No entanto, o índice de anemia na creche, em torno de 50%, está abaixo da média geral. O que mostra que a creche tem um grande potencial de oferecer cuidados de saúde, só que isso é muito pouco explorado."
Entre 2004 e
"O que mais preocupa é que foi desmontado um sistema de supervisão da saúde. Há casos de surtos de diarréia e falta de uma estrutura que dê conta dos cuidados com crianças que passam mal na creche", diz Damaris Gomes Maranhão, enfermeira pediátrica e responsável pelo treinamento de funcionários de creches públicas e privadas. Ela exemplifica: "O que fazer quando a criança vomita? E quando tem febre? Quando tem uma reação alérgica? E as que precisam tomar remédio? Não há um protocolo a seguir e as educadoras não passaram por uma formação para isso. Muitas davam aulas para ensino fundamental."
MAIS DOENÇAS
Pelos dados do sistema que havia antes, a enfermeira Eneida Ramos Vico fez uma pesquisa na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) mostrando a incidência de doenças. Descobriu, entre outras coisas, o dobro de casos de morte por varicela em crianças de creche do que na média geral, o que fez com que a vacina contra a doença passasse a ser incluída na rede do Estado. "À medida que a criança fica muitas horas num coletivo, o risco de adquirir e desenvolver doenças é maior", diz.
Na prática, algumas creches buscam, individualmente, preencher a lacuna de alguma maneira. "Tínhamos conseguido manter dois auxiliares de enfermagem, um deles morreu e não vamos receber uma substituição, então agora temos só em um período", conta Valéria Russano de Castro, diretora da CEI Vereador José de Moura, no Brás (região central). "Mas acho imprescindível, porque os bebês ficam doentes toda semanas. É comum precisarem de medicação e não podemos dizer todas as vezes para a mãe ficar com ele
A diretora da CEI Vicentina Velasco, no Parque Bristol (zona sul), encontrou uma parceria com a FMU e a UniABC para cuidar da saúde das crianças. "Foi uma bênção que caiu do céu", diz, referindo-se aos estudantes de Enfermagem, Odontologia e até Psicologia que trabalham com as crianças. "É inegável que tivemos ganhos pedagógicos até agora com a mudança, mas a saúde é agora nossa maior luta. A parte da saúde faz muita falta."
Nas creches conveniadas, administradas por entidades, mas que recebem verba da Prefeitura, existe uma possibilidade de manter um profissional de saúde. "Como você mantém um berçário sem enfermagem? Não dá. As necessidades são mais do que só educacionais", diz Rosa Maria Marinho, da superintendente da Cruzada Pró-Infância, entidade que tem seis creches
Curso vai preparar funcionário
O trabalho de campo realizado pelos pesquisadores da Unifesp resultou na publicação do manual CrechEficiente - Guia Para Gerentes e Educadores, voltado para ajudar no treinamento de funcionários dos centros de educação infantil. Eles já iniciaram um curso preparatório, que começou na semana passada com 60 educadores que atuam nas creches da região de Capela do Socorro (zona sul). A idéia agora é tentar viabilizar um projeto e incluir 1.200 funcionários.
O grupo pretende também acompanhar o funcionamento da creche e o comportamento dos funcionários durante algum tempo para testar se os métodos ensinados vão ser adotados na rotina das entidades.
Uma das dificuldades para implantar projetos do tipo é o tamanho da rede. De acordo com dados do Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC), o número de matrículas nas creches municipais
Integração e parcerias podem reverter situação
Prefeitura quer que unidades de saúde, universidades, pais e professores trabalhem juntos
Levar profissionais das Unidades Básicas de Saúde e de universidades da região para dentro de cada creche e criar ações que envolvam alunos, pais e professores é a proposta da Secretaria Municipal de Educação para preencher a lacuna que existe hoje nos centros de educação infantil.
"Muitas creches já tentam seguir as normas de funcionamento em relação à saúde e à alimentação. O que ocorre é que, na maioria das vezes, elas não cumprem todas as tarefas. Nitidamente, há um despreparo. E como hoje não tem mais o profissional da saúde dentro da creche, buscamos uma parceria com a Secretaria de Saúde e universidades para funcionar como referência e garantir esse aspecto", explica o médico Domingos Palma, professor-adjunto de Pediatria da Unifesp e coordenador do Programa Escola Promotora de Saúde da Secretaria da Educação.
Segundo ele, que também trabalhou na coordenação do manual feito pela Unifesp, há diversos projetos em pontos específicos da cidade que buscam levar orientação e maiores noções de saúde, principalmente na educação infantil.
"Além disso, cada educador que passar pela formação deverá multiplicar o que aprendeu em sua região. Queremos expandir e conseguir abranger a cidade inteira", afirma.
Enquanto isso, as creches que estão sem treinamento e sem profissionais sentem falta e tentam se adaptar à situação. "Tenho várias creches que não tem mais ninguém e elas tentam ver se algum educador dá a medicação, sempre com receita médica", diz Solange Gonçalvez de Lima, responsável pela Coordenadoria de Educação Ipiranga, que incluiu as creches das regiões do centro, Ipiranga, Vila Mariana e Vila Prudente. "Existe ainda no quadro a função, ela não foi extinta, mas os próprios profissionais de saúde não têm interesse em vir para as creches", complementa a coordenadora.
Desde que assumiu a responsabilidade pelas creches, um processo que começou há cerca de três anos, a Secretaria Municipal de Educação reforçou o caráter pedagógico da educação infantil, seguindo as normas definidas pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996.
Além disso, começou a oferecer cursos de especialização, já que, segundo a legislação atual, os educadores que trabalham no ensino infantil devem ter concluído o ensino superior até o ano que vem. Hoje, quase todos já concluíram ou estão concluindo uma graduação.
"Tivemos um ganho enorme, e estamos ainda trabalhando para conscientizar sobre a importância da educação infantil. Até os três anos, a criança vive um período riquíssimo, que precisa de estimulação. Não somos mais só parquinhos", diz Solange.
Especialistas afirmam que, nessa idade, as crianças precisam de estímulos como música, movimentos, cores, brincadeiras e atividades de socialização. Nos berçários particulares, nome mais usado na rede privada para as creches, onde as mensalidades custam até mais de R$ 1 mil, os bebês dispõem de psicomotricista, musicista, pediatra em período integral e nutricionistas para elaborar um cardápio para cada criança. S.I.
O ESTADO DE SÃO PAULO – 22/07/2006
PUC não preenche nem metade das vagas
Concurso de meio de ano, tentativa de reverter crise, teve baixa procura
A Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) não conseguiu preencher nem metade das vagas oferecidas em seu primeiro vestibular de meio de ano. Dez cursos superiores tecnológicos foram criados dentro do projeto de expansão como alternativa para atravessar a crise financeira por que passa a universidade. A lista dos aprovados foi divulgada ontem, com apenas 418 nomes. Foram oferecidas 1.502 vagas no exame unificado com a Faculdade Santa Marcelina e Rio Branco; mas 1.050 delas eram da PUC-SP.
A Assessoria de Imprensa da universidade informou que o motivo do pequeno número de convocados para as vagas foi a baixa procura. Entretanto, não havia técnicos na área de vestibular ontem para esclarecer quantos dos 418 aprovados seriam da PUC-SP e quantos das outras instituições. A reitoria também não se pronunciou sobre o assunto.
CRISE
A instituição enfrenta uma crise financeira desde o fim do ano passado e já acumula uma dívida de R$ 107 milhões, mesmo após demitir cerca de 30% do quadro de professores, a maioria mestres e doutores.
Como estratégia para atrair mais alunos, abriu os cursos tecnológicos, com duração de três anos, em áreas como Gestão de Games, Gestão de Marketing, Agronegócio e Comércio Exterior.
Não há números precisos, mas é certo que nem todos esses cursos conseguiram formar turmas. O total de vagas oferecidas era de 510. O restante delas foi oferecido em bacharelado como Administração, Ciências Econômicas e Ciências Biológicas, entre outros.
JORNAL DA TARDE – 24/07/2006
NOTAS
Cursinho da USP: inscrições até dia 28
Foram prorrogadas até o dia 28 as inscrições para a Turma Expansivo do Cursinho Psico USP, voltada a egressos do ensino público, supletivos, e pessoas afastadas da escola há muito tempo. As aulas têm duração de 16 meses. Para participar, o interessado deve comparecer ao cursinho (Instituto de Psicologia da USP, Av. Professor Melo Moraes, 1721, bloco B, sala 30, Cidade Universitária), de segunda a sexta, das 15h às 21h, e aos sábados, das 9h às 13h, com o RG. A taxa é de R$
Metodista: cursos online no Interior
Para atender à demanda de cursos de pós-graduação à distância no Interior, a Universidade Metodista construiu oito pólos regionais de apoio em Itapeva, Bertioga, Mauá, Guaratinguetá, Araras, São José dos Campos, Guaianazes e Presidente Prudente. Os cursos de especialização oferecidos são Comunicação Empresarial, Gestão de Políticas Públicas Participativas para as Cidades e Docência
Vagas para alunos brasileiros na Rússia
Cinco das melhores universidades russas abrem cotas de vagas para estudantes brasileiros como parte de um programa de intercâmbio da Associação Latino-Americana Russa de Estudos Superiores. Há 120 vagas para cursos de graduação e pós-graduação em ciências humanas, exatas e biológicas. O prazo de inscrições para o processo seletivo termina amanhã e o embarque será em setembro - início do período letivo na Rússia. Entre as instituições do programa, estão a Universidade Estatal de Bélgorod (50 vagas), com a melhor infra-estrutura do país, e a Academia Médica Sechenov (20 vagas), considerada pela Unesco a segunda melhor faculdade de medicina do mundo. Informações no site www.universidades-russia.com.br ou pelo telefone 5505-5898.
JORNAL DA TARDE – 23/07/2006
Férias: conheça a sua Cidade
Sugestão de aula: ensino fundamental
MARIA REHDER
O JT, em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP), coordenado pelo Professor Ismar de Oliveira Soares, propõe um roteiro de passeio nos pontos turísticos da Capital, a ser desenvolvido por educadores e seus alunos de Ensino Fundamental.
Este plano de aula foi elaborado por Carmen Gattás, professora de filosofia e educomunicadora do NCE-USP.
Para a atividade de hoje, os educadores, em conjunto com seus alunos, devem escolher um dos cinco roteiros aqui sugeridos e realizá-lo com seus alunos, para que estes possam conhecer melhor a cidade em que vivem, por meio de uma abordagem educomunicativa. Esta dica também vale para os que quiserem aproveitar as férias de julho para fazer um passeio diferente, barato e educativo.
Os roteiros disponíveis para esta atividade fazem parte do TurisMetrô, programa que oferece passeios aos pontos turísticos e históricos da Capital, com o acompanhamento de guias especializados.
As opções de passeio são:
1. Roteiro Turismo na Sé;
2. Roteiro Turismo Memoriais;
3. Roteiro Turismo na Paulista;
4. Roteiro Turismo na Luz/Tiradentes;
5. Roteiro São Francisco - Theatro Municipal.
INTRODUÇÃO
Falar sobre a cidade de São Paulo, terceira maior do mundo, suas origens e linguagens fixadas no encontro de raças e religiões diversas, especialmente da grande expansão do cristianismo, por meio de passeios na sua região Central, parece ser um desafio muito ambicioso para o educador em um primeiro momento.
Entretanto, a história da Cidade fica ainda mais bonita e marcante nos roteiros aqui sugeridos, pois além dos guias descreverem os detalhes que marcaram a história das igrejas, avenidas e de outros pontos turísticos paulistanos, esta narrativa também conta com a participação de atores que interpretam os fatos históricos aqui ocorridos.
Estes artistas encarnam personagens do dia-a-dia da vida dos paulistanos e difundem as informações de forma que estas estejam vinculadas à realidade imediata dos alunos.
Ao buscar opções alternativas e criativas de educar o cidadão paulistano sobre suas origens, sua linguagem cotidiana e cultura, o educador pode constatar que o estudo de História, Língua Portuguesa e de temas da atualidade se torna mais prazeroso.
DESENVOLVIMENTO
O primeiro passo do educador nesta atividade é propor uma votação em sala de aula para que a escolha do roteiro seja feita de forma democrática e participativa.
Oriente seus alunos para que levem máquinas fotográficas, blocos de anotações, canetas, lápis e gravadores, para que registrem todas as informações e impressões que lhes forem transmitidas pelos guias em cada um dos pontos turísticos visitados durante o passeio.
Os instrua para que fiquem atentos a todas informações que lhes forem passadas como dados históricos, vestimentas utilizadas pelos atores e aspectos das construções, mesmo que estas sejam transmitidas em forma de poesia, canto ou mesmo encenação.
Este momento da atividade visa trabalhar a capacidade de concentração, observação de detalhes, entre outras funções cognitivas.
NA SALA DE AULA
Após realizado o passeio, organize seus alunos em grupos de trabalho, de maneira em que cada um dos grupos escolha um dos principais pontos turísticos visitados (cada roteiro aqui sugerido oferece cerca de cinco deles).
A seguir, peça para que eles façam uma pesquisa sobre o contexto histórico e atual do local.
Por meio da comparação do produto final da pesquisa e da apuração realizada pelos alunos durante o passeio, peça para que cada grupo desenvolva uma nova apresentação, só que desta vez em forma de encenação teatral baseada nas descobertas e curiosidades dos pontos turísticos visitados.
Todas as etapas desta atividade devem ser desenvolvidas de forma lúdica e agradável, com o objetivo de fazer com que o aluno se divirta ao aprender.
É importante orientar os alunos para que criem suas próprias apresentações e que não simplesmente reproduzam a interpretação dos atores assistidos.
O PAPEL DO EDUCADOR
O educador nesta atividade assume o papel de facilitador dos estudantes no processo de aprendizagem.
Trata-se de valorizar as pequenas informações: geográficas, históricas, lingüísticas, entre outras, orientando o aluno a pesquisar uma bibliografia (previamente levantada pelo professor) que ofereça, por meio destas pequenas informações, todo o conteúdo que enriquece e faz significativo o cotidiano.
Equipe de Consultoria Educomunicativa do NCE-USP: Izabel Leão e Luci Ferraz
CURIOSIDADES
O acesso ao site www.saopaulominhacidade.com.br pode ser uma etapa opcional da atividade, na qual o aluno poderá conhecer a história paulistana contada por outros e também escrever um texto sobre a sua relação com a Cidade .
BIBLIOGRAFIA
AB'SABER, Aziz. Padrões Históricos de estruturas de ruas e processos de urbanização na cidade de São Paulo. CONDEPHAAT, 1986
ALVES, Milton Rodrigues. Casas paulistanas : pequenos tesouros da Mooca na transformação de São Paulo. São Paulo: Casa Paulistana de Comunicação, 1998 AMERICANO, Jorge. São Paulo nesse tempo: 1915-1935. São Paulo: Melhoramentos, 1962
JORNAL DA TARDE – 23/07/2006
NOTAS
Museu do Relógio tem entrada franca
O Museu do Relógio, localizado na Avenida Mofarrej, 840, no bairro da Vila Leopoldina,
Evento debate a revitalização do Centro
A Secretaria de Relações Internacionais, da Prefeitura de São Paulo, em parceria com o Institute for Transportation and Development Policies, realiza a palestra "A Revitalização do Centro de São Paulo". O evento acontecerá amanhã , das 8h30 às 13h, no Auditório da Prefeitura Municipal de São Paulo, Viaduto do Chá, nº 15, 7º andar. Inscrições gratuitas pelo telefone ( 11) 3113-8514.
Site da Nova Escola traz as aulas do JT
Os professores têm acesso a todas as atividades publicadas pelo JT em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da USP por meio do site da Revista Nova Escola: www.novaescola.org.br, que conta com planos de aulas elaborados por educadores.Outra boa opção é o portal do NCE- USP, que traz textos complementares para a realização das atividades sugeridas aos domingos no JT: www.usp.br/nce.
Veja a Capital inteira da torre do Banespa
Inaugurado em 1947, após 8 anos de construção, o prédio do Banespa foi um dos primeiros arranha-céus de São Paulo. Inspirado no Empire State Building, de Nova York, o prédio tem
JORNAL DA TARDE – 22/07/2006
Passe escolar no fim de semana
Alunos da rede estadual agora podem comprar passes sem limite
Alunos e professores da rede estadual de ensino podem agora comprar passes escolares sem limite de quantidade. A Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) atendeu às reivindicações e decidiu mudar as regras. Ontem, uma portaria publicada no Diário Oficial acaba com a obrigatoriedade de compra de lote mínimo de 10 passagens para as linhas rodoviárias e de lote mensal para as linhas suburbanas do transporte intermunicipal.
Outra vantagem prevista pela portaria é a utilização das passagens também em fins de semana, feriados e férias, mas desde que as escolas apresentem um documento oficial que justifique a necessidade da freqüência do aluno ou do professor.
Alunos reclamavam
A cota mínima sempre foi a principal reclamação de estudantes e docentes registrada pela ouvidoria da Artesp. Por causa das solicitações, a agência resolveu revisar as regras válidas para a venda de passes escolares e implantar as mudanças.
O direito ao desconto de 50% em ônibus intermunicipais rodoviários para estudantes e professores é válido desde setembro do ano passado, quando a Artesp publicou portaria que regulamentava a meia passagem. Até hoje, o benefício só era aplicado em deslocamentos entre escola e residência, em dias letivos.
JORNAL DA TARDE – 22/07/2006
O Grêmio e nova biblioteca
Nem um problema de saúde fez a professora Maria Senna abandonar a escola. "Hoje poderia estar afastada, ou até mesmo aposentada, mas não consigo ficar longe dos alunos . No entanto, por causa de um problema na voz, me colocaram na secretaria, sem função. Só quando a Maria José assumiu é que voltei para perto dos alunos."
Já Maria José Andrade, diretora da E.E. Prof.ª Hermínia de Andrade P. Neves, ressalta que Maria Senna é quem fez a diferença. "Como um talento daqueles não podia ser desperdiçado, dei autonomia a ela para montar a biblioteca. Ela não só o fez de forma maravilhosa, mas além do incentivo a leitura, ela deu vida ao Grêmio, hoje muito ativo."
JORNAL DA TARDE – 22/07/2006
Professora transforma a vida dos alunos
MARIA REHDER
"Foi graças a Maria Senna, minha professora da 8ª série, que consegui driblar as dificuldades vividas por um jovem morador da periferia e me tornei um advogado", diz Jamil Ferreira da Silva, 37 anos.
O ex-aluno da Escola Estadual Maria da Conceição Costa, Zona Leste, faz questão de relatar um episódio, ocorrido há mais de 20 anos , que marcou a sua vida. "Eu era bagunceiro, porém muito tímido. Morria de vergonha de ler em voz alta. Um dia, a professora Maria me pediu para ler um texto, eu tive de ler na frente de toda classe. Ela me disse, então, que tinha certeza de que eu seria advogado, pois eu defendia as idéias bem e tinha uma voz muito bonita", lembra.
Jamil conta que, desde então, as palavras daquela professora sempre lhe vieram à cabeça nas situações mais complicadas. "Enfrentei problemas financeiros, superei a timidez e fui atrás de um sonho sustentado pela minha família, que era rígida em relação aos estudos. O início de tudo, porém, foi dado pela professora." Hoje, prestes a ter o seu primeiro filho e com o sonho de carreira realizado, Jamil faz questão de agradecer a Maria Senna. "Sem o incentivo, com certeza eu não teria chegado até aqui", avalia.
No entanto, o que Jamil não imaginava é que também foi um incentivo o grande responsável pelo sucesso de carreira de sua professora. "Com 12 anos, vim da Bahia para passar férias com a minha mãe, mas acabei ficando aqui para a vida inteira", diz a professora Maria Senna do Nascimento, 63 anos.
Os anos foram passando e Maria não conseguia arranjar emprego, pois não tinha o 2º grau completo. Só com 20 anos voltou a estudar.
A professora conta que só com o incentivo de uma colega é que decidiu cursar a faculdade. "Eu achava que não seria capaz, mas com a insistência dela, prestei vestibular e entrei em Direito, mas fiz transferência para Ciências Sociais e não só conclui o curso, como hoje também sou pós-graduada", destaca.
Em 1980, Maria Senna começou a carreira de professora na rede estadual e, desde então, nunca mais deixou as escolas. "Comecei dando aulas de Estudos Sociais, mas após mudanças curriculares, passei a dar aulas de História e Geogra fia."
Segredos de sala de aula
A valorização do lado humano, a rigidez e o incentivo ao conhecimento da realidade por meio da leitura de jornais. Segundo Maria, foram esses fatores que fizeram seus alunos deixarem a rebeldia de lado para pensar em um futuro melhor.
"Comecei com aulas na periferia da Zona Leste e desde então estou aqui. Essa é uma região violenta, confesso que já cheguei a sair da aula para chorar, pois os alunos eram difíceis. Mas vi que com determinação as coisas seriam diferentes. E realmente foram", avalia.
Ao ouvir o relato do ex-aluno Jamil, Maria se emociona e explica que aquele momento da aula a que ele se refere faz parte de um dos seus segredos pedagógicos. "Nos últimos minutos da aula, pedia para que os alunos fizessem um resumo do conteúdo dado. No dia seguinte, o retomávamos por meio da explicação individual e com isso os alunos nunca passavam para outro assunto sem ter entendido o anterior. No entanto, em vez de falar sobre o conteúdo, Jamil fez uma linda interpretação. Fiquei encantada."
