Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

25/07/2006 – CLIPPING


O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.

FOLHA ONLINE – 24/07/2006 - 16h40
Pós-graduação gratuita leva 9.700 professores a concurso no Paraná

da Folha Online

A Secretaria de Estado da Educação do Paraná registrou a participação de 9.705 professores da rede pública nas provas do concurso para as 1.200 vagas em cursos de pós-graduação gratuitos.
Os cursos são oferecidos dentro do Programa de Desenvolvimento Educacional --programa de educação continuada desenvolvido pela secretaria, em parceria com cinco universidades estaduais e duas, federais. Os professores fizeram provas em Curitiba, Cascavel e Londrina.
O resultado da primeira etapa será publicado em edital, programado para o dia 7 de agosto. A data da segunda fase será divulgada no mesmo dia. O resultado final está previsto para 25 de agosto, e será divulgado pela internet.
A formação no curso dará direito a promoção e progressão automática previstas no plano de cargos, carreira e salários, aprovado pelo governo do Paraná em 2004.

FOLHA DE SÃO PAULO E FOLHA ONLINE – 25/07/2006 - 09h49
Rádio e TV associam técnica à teoria

VINÍCIUS SEGALLA
colaboração para a Folha de S.Paulo

Por trás de cada novela, telejornal ou show de auditório, no rádio ou na televisão, existe um batalhão de profissionais trabalhando para que aquele programa chegue à tela ou à caixa de som do jeito que vemos ou ouvimos. Eles gravam e editam as cenas captadas pelas câmeras, juntam trilhas sonoras a imagens, cuidam para que os cenários e a iluminação estejam corretos. São os profissionais de rádio e TV.
O radialista aprende na faculdade a usar imagens e sons como ferramenta de comunicação. Seu mercado de trabalho está em todos os lugares onde existam produtos de comunicação audiovisuais: o rádio, a TV, as produtoras independentes e até o cinema.
A grande diferença entre o radialista e os demais comunicadores é que o primeiro precisa deter conhecimentos técnicos de softwares e aparelhos de filmagem e de edição, além do saber humanístico sobre as ciências da comunicação.
O desafio de um curso na área é conseguir passar os dois tipos de conhecimento aos estudantes. "Não subestimamos a importância do aluno saber operar as ferramentas, mas ministramos um curso acadêmico, não meramente técnico", afirma o professor Marco Vale, vice-coordenador do curso da Cásper Líbero. "Ao mesmo tempo que ensinamos os alunos a trabalhar com o Final Cut (software de edição), temos aulas de história da arte, linguagem e estética da edição", exemplifica o professor.

Mercado aquecido

Do final da década de 90 para cá, o mercado passou por uma expansão, fruto do desenvolvimento de novos meios de comunicação e do barateamento da tecnologia necessária para editar vídeo.
A internet abriu um novo filão para todas as carreiras de comunicação, não só para o radialista. E o advento da imagem digital possibilitou que um computador de mesa pudesse substituir os caros equipamentos de uma ilha de edição.
Adriano Pena, 28, é editor de vídeo e se beneficiou dessa realidade. Ele ingressou no curso de rádio e TV da ECA-USP em 1998 e foi desde cedo direcionando sua carreira para a edição. "Quando entrei na faculdade, achei que tinha que trabalhar numa emissora de rádio ou de TV. Depois de um tempo, comecei a ver que tinham mais nichos. O negócio é dominar a linguagem de imagem e som, a plataforma em que será exibido o produto final não importa."
Adriano começou como estagiário do Canal SP, editando vinhetas. Após outros trabalhos semelhantes, foi arquivista na campanha presidencial do PT em 2002. "Tinha que separar imagens antigas para a propaganda eleitoral, mas sempre procurava a ilha de edição."
Depois, foi trabalhar na Bandeira Filmes, onde diz que aprendeu de vez a editar. "Aí, deixei a faculdade de lado para crescer profissionalmente. Ganhei muita confiança."
Em 2004, seus contatos o levaram para a campanha de vereadores do PSDB na cidade de Mogi das Cruzes. Pena afirma que ganhou um bom dinheiro e um nome no mercado. Em 2005, recebeu um convite para trabalhar na TV Angola. "Foi a prova final. Cheguei sem conhecer ninguém, nem o país. Passei quatro meses lá e voltei muito mais maduro."
Ao voltar, investiu o que ganhou em equipamentos e abriu, com dois colegas, a Pixaim Multimídia, sua própria produtora. Estabilizado, voltou à faculdade para buscar o diploma. Ele se forma no final do ano, já no curso de audiovisual. "Sou um ferramenteiro digital, queimando DVDs e ajustando frames. É profissão para quem não liga para horários e gosta de dinamismo", finaliza.

FOLHA DE SÃO PAULO E FOLHA ONLINE – 25/07/2006 - 09h43
Intercâmbio exige esforço extra

CONSTANÇA TATSCH
da Folha de São Paulo

Durante seis meses ou um ano, o jovem experimenta a vida de estudante em outro país. Mora com uma família local, vai à mesma escola que os outros adolescentes, assiste às aulas e se diverte como eles. Mas um dia o intercâmbio acaba. É hora de voltar para o Brasil e, de repente, o vestibular.
"A gente volta e é um "boom", já está tudo acontecendo. Não estava com esse pique todo e fiquei meio desesperada", conta Juliana Palhares Garcia Amoroso, 21, que, durante o ensino médio, passou seis meses nos Estados Unidos e voltou no começo do terceiro ano.
Passado o susto da chegada, os intercambistas precisam recuperar o conteúdo perdido na escola e logo são tragados pela ansiedade do vestibular. "Quando voltei, tive um pouco de dificuldade de acompanhar. Não é tão fácil. Fiz aulas particulares de física e de matemática. As matérias nas quais eu já tinha facilidade consegui acompanhar. Mas tive que estudar, fica uma lacuna e você tem que dar uma corrida atrás", conta Juliana, que hoje cursa o quarto ano de turismo na PUC.
A gerente nacional de "high school" do STB, Vivian Laureano, explica que a orientação do Ministério da Educação e a exigência de grande parte das escolas é que o estudante faça, pelo menos, cinco matérias quando estiver fora: inglês (ou a língua do país), matemática, uma da área de ciências, uma da de humanas e educação física. Ou seja, uma parte daquilo que será exigido no vestibular acaba ficando para trás. "Tem escola que só pede três matérias, outras pedem sete. Também depende do país, no Canadá, por exemplo, o intercambista só pode fazer quatro matérias, na Holanda, até 12 ou 13."
De acordo com professores, é fundamental fazer um esforço extra para conseguir recuperar as matérias que não foram vistas. "Eles podem perder algum conteúdo, até porque os conteúdos não são idênticos. Alguns são aproximados, matemática, por exemplo, mas história é muito diferente", afirma a psicóloga e coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp, Ângela Soligo. "É importante retomar aquilo que a pessoa sente que faz falta, no cursinho, com professor particular ou até dentro da escola, com um programa de estudos. No geral, elas ajudam na volta."
Para muitos jovens, conciliar o sonho do intercâmbio com a necessidade do vestibular assusta. Nathalie Maschio Maccabelli, 21, afirma que isso era uma preocupação. "Eu morria de medo de ir por causa do vestibular. Na volta, conversei com os professores e eles se dispuseram a me ajudar. Peguei as apostilas anteriores para dar uma revisada. Foi tranqüilo, consegui recuperar", diz ela, que entrou na faculdade sem fazer cursinho e hoje cursa publicidade na Faap.

Para jovens, viagem vale a pena

Nem sempre a volta é fácil. Muito estudo, readaptação e, às vezes, o sonho de entrar na faculdade atrasa um ano. Mas quem participou de um intercâmbio não se arrepende.
Gabriel Berla, 21, passou um ano nos EUA e voltou na metade do terceiro ano. Quando prestou vestibular para direito na Fuvest, não foi nem para a segunda fase. "Quando voltei, tive dificuldade. Me concentrei mais em passar no terceiro ano e rever meus amigos. Sabia que essa preparação não seria suficiente para passar direto. Achei que valia a pena a experiência", conta. O jeito foi dedicar um bom tempo aos estudos. "Fiz um ano de cursinho bem puxado porque tinha um rombo nas matérias. Mas não me arrependo de jeito nenhum. Nem que tivesse que fazer dois anos de cursinho", diz ele, que hoje estuda na USP.
Por mais que o vestibular preocupe, muitos jovens acreditam que não devem abrir mão do sonho por causa dele. "A gente é muito novo e essa experiência vai trazer muito mais do que sair correndo para passar no vestibular. Foi a experiência da minha vida", diz Juliana Palhares Garcia Amoroso, 21, que ficou seis meses nos EUA, voltou no início do terceiro ano e conseguiu entrar na faculdade no final do ano.
Independência, amadurecimento e, claro, um outro idioma. Segundo os intercambistas, são muitos os benefícios que a experiência traz.
"Você aprende a viver sem a família, a se virar sozinho. Cresce muito. Além de melhorar o currículo porque morou fora e sabe outra língua fluentemente, o que abre espaço no mercado de trabalho", afirma Sarah Salles, 17. Ela voltou há poucas semanas dos EUA, já prestou vestibular para comércio exterior e foi aprovada.
Nathalie Maschio Maccabelli, 21, mostra um outro lado do intercâmbio: conhecer uma outra cultura. Ela esteve na Nova Zelândia e conta que as matérias são muito diferentes, por exemplo, culinária, marcenaria ou mídia.
"Achei bem mais fácil. Lá eles pensam mais em ter qualidade de vida. Em qualquer coisa que fizerem vão ter dinheiro para viver tranqüilos. É outra cultura total."

Escolas orientam alunos e fazem exigências quanto ao conteúdo

Quando um aluno pensa em fazer intercâmbio, as escolas têm coisas a dizer. O melhor momento para ir, quanto tempo ficar, quanto estudar e o quê. No colégio Santa Cruz, por exemplo, a recomendação é ir no segundo semestre do segundo ano.
"É mais curto, tem as férias de verão para se adaptar na volta e tem o terceiro ano inteiro para estudar e passar no vestibular", explica Fábio Luiz Marinho Aidar Jr., vice-diretor-geral do colégio.
Recuperar a matéria perdida, segundo ele, especialmente para os alunos medianos, "não é tranqüilo, não". "Em algumas situações, sugerimos professores particulares. Em geral, o aluno não retoma o que perdeu. Dá como perdido. Cursinho de seis meses é uma boa solução."
Já no Vera Cruz, o intercâmbio nessa fase é desaconselhado. De acordo com Lucília Bechara Sanchez, diretora do ensino médio, "não é hora de interromper vínculos". Se o aluno resolver ir assim mesmo, deve cursar quatro matérias do currículo, além do inglês e da educação física, e precisa ter conceito no mínimo C para poder voltar no semestre seguinte.
Lucília acha que uma boa solução é viajar depois de se formar no ensino médio. Por ter ano letivo diferente e o curso ter duração maior, muitos países aceitam esses estudantes.
Foi o que fez Caroline Balaz, 17. "Acabei o terceiro ano e fui para a Nova Zelândia. Quando eu pensei em ir, já estava no terceiro e, nesse momento, acho que não é uma boa coisa viajar. É um ano essencial, tem revisão da matéria, e eu queria ficar com todo mundo, viajar e participar da formatura."

FOLHA DE SÃO PAULO – 25/07/2006
47% dos jovens não querem vizinho gay 

Pesquisa feita para a Unesco indica que quase metade dos brasileiros de 15 a 29 anos não quer morar ao lado de homossexual

Rejeição é maior em homem mais novo e de escolaridade baixa; professores não estão preparados para trabalhar o preconceito em sala de aula


ANTÔNIO GOIS
CRISTINA TARDÁGUILA
DA SUCURSAL DO RIO

O preconceito contra gays, no Brasil, é algo que aparece desde cedo. Uma pesquisa feita com jovens de 15 a 29 anos revela que quase a metade deles (47%) afirmou que não gostaria de ter um homossexual como vizinho. E a escola, espaço onde isso poderia ser combatido, mostra-se despreparada para lidar com o tema.
Esse quadro de intolerância e despreparo aparece em uma pesquisa inédita feita para a Unesco a partir de uma amostra de 10.010 jovens de todo o Brasil. Uma pesquisa sobre escola e homofobia também está sendo realizada pela OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura).
Parte dos resultados foi apresentada pela pesquisadora Miriam Abramovay, secretária-executiva do Observatório Ibero-Americano de Violência nas Escolas, a professores da rede pública do Rio há duas semanas, num seminário de sensibilização para lidar com o tema organizado pelo grupo Arco-Íris, com apoio do MEC.
A pesquisa com jovens de todo o Brasil indica que o preconceito é maior entre homens, entre os menos escolarizados, mais pobres e mais jovens. Entre homens, por exemplo, 54,2% disseram que não gostariam de ter um vizinho homossexual, percentual que cai para 40,1% entre mulheres.
"Desde que fizemos a primeira pesquisa sobre violência entre jovens, há nove anos, encontramos uma situação de homofobia muito intensa, e por isso fomos aprofundado essa questão. Os dados mostram como essa questão é importante e não é secundária. Ela faz parte de um contexto de diferentes violências que existem na sociedade. Esse quadro aparece também na escola, mas ela, que poderia ajudar a superar, finge que nada está acontecendo."
O despreparo da escola para lidar com o tema dos homossexuais aparece em uma pesquisa da Unesco sobre o perfil dos professores brasileiros.
Segundo a pesquisa, que gerou um livro, a maioria (59,5%) dos professores entrevistados admitiu não ter informação suficiente para lidar com a questão da homossexualidade. Nas entrevistas individuais feitas, muitos disseram que preferiam não tratar da questão em sala, ignorando qualquer tipo de diferença entre os alunos. Para Abramovay, no entanto, não se pode culpar os professores ou jovens por construírem esse preconceito em sala de aula.
"Nossa sociedade é homofóbica. Tenho certeza de que professores e alunos apenas reproduzem esse quadro. No caso dos professores, é preciso lembrar também que o tema da diversidade é muito pouco discutido nas faculdades de educação. Eles são formados apenas para serem professores de português ou matemática", diz.

Intolerância

A elevada intolerância entre os jovens do sexo masculino e de pouca escolaridade já apareceu em outras pesquisas. Uma delas foi feita com adolescentes de 18 e 24 anos de Porto Alegre, Rio e Salvador pelo Clam (Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos), da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
Essa pesquisa mostrou que 49% dos jovens do sexo masculino disseram que homens que têm relações sexuais com outros homens são "doentes" ou "não têm vergonha". Entre os filhos de mães sem ensino fundamental completo, esse índice chegava a 60,1%.
Na opinião da coordenadora do Clam, Jane Russo, na raiz dessa homofobia há também uma questão de gênero: "É uma visão tradicional da sociedade que coloca a mulher num papel submisso. Nesse sentido, o homem que é "mulherzinha" é menos respeitado, e isso é mais forte nas classes mais pobres."
Para Abramovay, outra possível explicação é o fato de esses adolescentes estarem numa fase de resolução da sexualidade: "Essa homofobia pode surgir por medo de parecer igual a alguém que é rechaçado pela sociedade".

Segundo professores, piadinha inocente esconde preconceito 

DA SUCURSAL DO RIO

Para professores ouvidos pela Folha, a homofobia nas escolas muitas vezes se esconde atrás das piadinhas ou brincadeiras. Essa é a opinião, por exemplo, de Léa Carvalho, diretora da Escola Técnica Estadual de Saúde Herbert Daniel de Souza, em Quintino (zona norte do Rio).
"A homofobia aqui acontece por meio de piadinhas, olhares e fofocas. É uma violência psicológica velada que é perigosa porque muitos acham que não passa de uma brincadeira", diz.
Ela, como diretora, tenta solucionar uma média de um caso de homofobia a cada 15 dias. "Não adianta brigar. Temos que levar os agressores à reflexão. Por isso, desde 2004, trabalhamos com o mural da diversidade, que fica no principal corredor da escola e é atualizado semanalmente. Nele, o assunto que mais aparece é a homossexualidade e a importância da tolerância."
Para o professor Antonio Pinheiro, que é gay e leciona no Instituto de Educação Sarah Kubitschek, em Campo Grande (RJ), o maior preconceito, em seu caso, vem dos professores. "Apesar de, entre os alunos, o preconceito correr solto, eles sabem que sou gay e me respeitam muito. Entre os professores, no entanto, muitos me olham de forma diferente ou fingem que a homossexualidade não existe. É uma maneira que só contribui para aumentar a homofobia."

Soluções

Para o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, Ricardo Henriques, o preconceito e o fato de a sexualidade ainda ser um tema tabu na sociedade exigem uma solução complexa.
"Não podemos ser rasteiros. O que estamos tentando encontrar são propostas pedagógicas que tenham sido testadas de forma eficiente. Precisamos ter coragem de dizer que temos de investir muito em conhecimento para saber a melhor maneira de lidar com esse tema em sala de aula. Não dá para ser algo improvisado", diz ele.
Em busca da melhor forma de trabalhar com o tema, o secretário afirma que o MEC está investindo R$ 1,5 milhão em ações desenvolvidas em escolas. Entre elas estão projetos pilotos feitos por 16 diferentes entidades que têm professores como público-alvo.
"A partir dessas experiências, saberemos quais metodologias deram certo e podem ser ampliadas", afirmou.
Um desses projetos é coordenado pelo grupo Arco-Íris no Rio com o nome "Rompendo a Fronteira e Discutindo a Homossexualidade na Escola". O coordenador, Márcio Caetano, explica que a opção foi não estabelecer um manual único porque as realidades são muito diferentes em cada colégio. Com isso, cada professor elaborou seu próprio plano de ação.

"Sempre era o mais zoado da turma no meu colégio" 

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO

Ao trocar de colégio para ser aceito pelos colegas de ensino médio, o aeroviário carioca Leandro Marques, 22, adotou por muito tempo um personagem sério, calado e durão, bem diferente de seu perfil. Na antiga escola, ele foi constantemente alvo de piadas e agressões por ser gay.
"Eu sempre era o mais zoado da turma. Todo mundo me xingava, jogava bolinha de papel em mim. Escondiam meus livros e me davam apelidos grosseiros. Eu não chorava de jeito nenhum. Ignorava até não poder mais. Aí, quando o limite chegava, procurava os professores e a diretoria. Hoje noto que nem mesmo entre eles encontrava apoio. Muitos fingiam que não viam a maldade e a homofobia ao meu redor."
Na saída do colégio, alguns meninos mais velhos costumavam se reunir e o obrigavam a passar por um "corredor polonês", recebendo tapas e pontapés. "Eu não escapava nunca e sempre me machucava. Nunca vou me esquecer da diretora dizendo que não poderia fazer nada porque ele acontecia do portão da escola para fora."
Às vezes, até os professores participavam das gozações. Na sétima série, os alunos comentaram que o aniversário dele é no dia 24. "Até a professora fez a clássica piadinha sobre o número 24 ser, no jogo do bicho, o número do veado."

FOLHA DE SÃO PAULO – 25/07/1006 (TENDÊNCIAS/DEBATES)
ECA, 16, aguarda mudança de mentalidade 

SANDRA FARIA

O ECA já provocou nesse período pequenas revoluções em favor de milhões de brasileiros de 0 a 18 anos

Aprovado em 1990 e inspirado na Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completou nesse mês 16 anos. Se, por um lado, a sociedade brasileira tem motivos para comemorar o aniversário, por outro, tem uma excelente oportunidade para refletir sobre a necessidade de correção de rumo por parte dos diversos setores da sociedade com o objetivo de reduzir a enorme distância entre as determinações dessa lei e a realidade de nossas crianças e adolescentes.
Apesar das reservas e das acusações na época sobre a capacidade da lei de promover uma ampla transformação social, o ECA provocou nesse período pequenas revoluções em favor de milhões de brasileiros de 0 a 18 anos. Regulamentou, ainda, conquistas garantidas pela Constituição de 1988 e inspirou vários países a criar sua legislação na área.
Um dos principais méritos do ECA foi o de consagrar novos marcos conceituais e doutrinários das políticas públicas para crianças e adolescentes, sepultando a herança correcional forjada a partir dos anos 20. Até 1990, a chamada "questão dos menores" era tratada de forma assistencialista por parte da sociedade e a partir de um enfoque tutelar-repressivo por parte do Estado; mais precisamente, pela sua capacidade de acolher crianças abandonadas e internar jovens tidos como "disfuncionais".
Exercendo uma importante função pedagógica, o ECA introduziu na ordem jurídica normas regulamentando os direitos à proteção integral -que compreende políticas sociais básicas, como saúde e educação- e à proteção especial -que inclui o resguardo contra toda forma de violência- e um sistema para garantir esses mesmos direitos, com ênfase na municipalização do atendimento e na gestão participativa.
Embora parte da sociedade brasileira, por absoluta desinformação, até hoje o considere passaporte para a impunidade, graças a esse texto legal outra parcela aprendeu a ver as crianças e adolescentes como prioridade social.
A lei também foi decisiva para incluir nas agendas governamentais a doutrina da proteção integral aos milhões de brasileiros de 0 a 18 anos. Em termos institucionais e jurídicos, os avanços trazidos pelo ECA foram enormes. A antiga idéia de controle foi substituída pela de promoção de direitos.
Mas e quanto ao futuro?
A reflexão a ser feita é sobre os instrumentos disponíveis que permitam reduzir o descompasso entre os objetivos do ECA e a realidade socioeconômica; mais precisamente, entre o projeto de sociedade subjacente a essa lei e a sociedade na qual efetivamente vivemos.
Não bastam só o conceito, o conjunto de regras e os mecanismos previstos no ECA para os direitos das crianças e dos adolescentes estarem assegurados. É necessário, como determina o artigo 4º da lei, que família, comunidade, sociedade e poder público sejam responsáveis pela concretização desses direitos. Infelizmente, a lição de casa parece não estar sendo bem feita.
É fundamental entender corretamente as responsabilidades assumidas. No caso das famílias, a pergunta é: de que família estamos falando?
Daquela representada por grande parte da população condenada à exclusão da economia formal e com dificuldade crônica de acesso às políticas sociais? Como teria a solidez para cumprir seu papel de locus de proteção e formação de seus filhos? No caso da sociedade, é preciso saber se seus atores e organizações estão conscientes do desafio da emancipação social, econômica, política e intelectual das novas gerações.
Finalmente, temos o poder público. Ele está organizado para atender que direitos? Qual a sua capacidade de garanti-los? Por fim, quais valores família, comunidade, sociedade e poder público desejam transmitir às crianças e jovens? Sem respostas plausíveis, o ECA fica em uma posição ambígua. Examinado à luz do futuro, ainda é uma enorme interrogação. Não basta institucionalizar generosos objetivos em um texto avançado. Acima de tudo, a eficácia de suas regras, princípios e metas depende da combinação de diferentes fatores de determinação política e fonte de financiamento, por parte do Executivo, a uma mudança de mentalidade no âmbito das autoridades responsáveis pela segurança, do Ministério Público, do Judiciário.
Além, é claro, de um maior envolvimento de toda a sociedade. É essa combinação que, até hoje, infelizmente, o país não conseguiu promover.

SANDRA FARIA, 55, graduada e pós-graduada em administração pública pela FGV (Fundação Getulio Vargas), é superintendente-executiva da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente.

FOLHA DE SÃO PAULO – 25/07/2006 (TENDÊNCIAS/DEBATES)
Vantagens da desorientação

GILBERTO DUPAS

Só nos resta admitir que somos todos co-responsáveis e parte integrante dos grandes impasses que aí estão

EVIDÊNCIAS DE que os desarranjos em nossa sociedade são profundos estão por toda parte. Seguem algumas das mais recentes, apenas na área da segurança: quadrilhas organizadas deixam perplexa a sociedade brasileira, conseguindo espalhar grave confusão em São Paulo; policiais são obrigados a lacrar por fora a porta de prisões e mandados de soltura têm de ser executados içando homens de pátios superlotados, onde seres humanos estão confinados como gado; cadeias são utilizadas para organizar o crime, e não desorganizá-lo; e, finalmente, gangues recrutam maciçamente adolescentes pobres sem nenhuma perspectiva de futuro para serem braços armados de uma modalidade de guerrilha urbana.
Perplexa diante desse quadro muito grave, parte de nossas elites insiste em seguir o esquema dos antigos "amos ausentes"; ou seja, tenta manter-se à distância, cercada de muros, seguranças e blindagens, cobrando dos políticos e dos governos -esses, com instrumentos cada vez mais precários- a missão de controlar, reformar costumes, manter a moral e civilizar. Mas os compromissos efetivos envolvendo as condições de vida das populações periféricas saem totalmente de seus radares.
O desmoronamento das agências de ação coletiva faz parte do "alívio de cargas sólidas" (o termo é de Zygmunt Bauman) exigido pelas teses neoliberais, em nome de maior fluidez dos capitais e da melhora do "risco-país"; reveladoramente, para a lógica do capital, esse "risco" não cresce com o aumento da exclusão.
O número de pobres, informais e marginais está em expansão, tornando tarefa impossível criar muros intransponíveis entre ricos e pobres, excluídos e incluídos, legais e ilegais. Até porque, o chamado "lado bom" demanda intensamente serviços informais e clandestinos. Basta lembrar os desmanches que abastecem oficinas ou as redes do tráfico que garantem as drogas de alguns de nossos jovens bem nascidos. Diante da imensidão desses desafios, urge um novo olhar onde o atual já não dá conta.
Para Ignacio Izuzquiza, estamos acostumados a identificar a realidade com um particular sentido de solidez, com a rotina de todos os dias. Mas quanto mais sólidos nos sentimos, mais vulneráveis seremos para a surpresa. É enorme a capacidade de surpreender do conjunto de seres que formam as sociedades; um bom exemplo é a tecnologia de telefonia celular, otimizando a eficácia do crime dentro e fora das prisões. Sentimo-nos muito vulneráveis porque nos imaginamos sólidos.
Izuzquiza propõe que aprendamos a viver em meio ao dinamismo, à insegurança, à ambigüidade e à variedade. Para tanto, é preciso renunciar às miragens de segurança e totalidade e desconfiar das cartilhas de ação, assumindo a desorientação como ingrediente necessário a toda criação. Para ele, é a luz da observação que nos permite viver positivamente a perda de referências, muitas vezes inaceitável, mas companheira inevitável do caminho. Entenderemos melhor uns aos outros se nos aceitarmos como perdidos e desorientados, vivendo num sistema onde o imprevisto é a regra e assumindo o perigo da ruptura, da morte e da decomposição.
Mas é preciso muito refinamento para transgredir constantemente os limites atuais, continuamente enfrentando os novos. Nesse momento, reconciliamo-nos com Nietzsche e o seu super-homem, construtor de novos mundos por meio da derrubada dos falsos ídolos e da assunção plena dos riscos para tentar construir um mundo melhor.
Só nos resta admitir que somos todos co-responsáveis e parte integrante dos grandes impasses que aí estão. Para tentarmos reagir, ajuda recuperar a capacidade de observar a realidade sem máscaras e filtros -tarefa complexa, na medida em que estamos continuamente distorcidos por mensagens e significados que nos querem impor.
Não é à toa que a competência de bem observar era considerada pelos antigos como um atributo dos deuses. Os contemporâneos sempre se queixam da falta de referências para entender suas próprias épocas. Porém, a desorientação não é algo que possa ser combatido, e sim uma oportunidade desestabilizante para a busca de soluções. O importante é investigarmos a razão mais profunda das coisas que nos deixam perplexos e buscar caminhos, em vez de inventar entidades que aliviem nosso terror momentâneo, mas que criem outros.

GILBERTO DUPAS, 63, é presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e autor de "O Mito do Progresso" (Editora Unesp), entre outras obras.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 25/07/2006
PUC-SP cancela cursos tecnológicos 

Por falta de candidatos, instituição não poderá oferecer 7 das 10 carreiras que pretendia lançar neste semestre 

Simone Iwasso 

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) cancelou por falta de candidatos aprovados sete dos dez cursos tecnológicos que pretendia começar neste semestre. A criação dos cursos era uma tentativa da instituição de atrair mais alunos e aumentar a receita após a crise financeira que levou à demissão de cerca de 30% do quadro de professores e funcionários no fim do ano passado. Das 1.050 vagas disponíveis no último vestibular de meio de ano, só 295 foram preenchidas.
Os outros três cursos tecnológicos restantes - Gestão de Marketing, Comércio Exterior e Design de Games - também não completaram as turmas de 40 vagas, mas a instituição analisou que eles ainda podem atrair mais alunos. Eles têm garantidos, até agora, 13, 15 e 24 estudantes inscritos, respectivamente.
Na análise da universidade, a baixa procura foi devido ao pouco tempo de divulgação dos novos cursos, das próprias áreas que eles abrangiam, a maioria novos e que ainda não existem no mercado, e também pelas notícias da crise, que podem ter assustado alguns candidatos. No entanto, para as graduações tradicionais que foram abertas vagas, como Relações Internacionais e Ciências Econômicas, a procura continuou a mesma e as turmas foram formadas.
"A gente nunca tinha feito isso, entrado na área dos cursos tecnológicos. Muita gente não conhecia, não ficou sabendo. Claro que a crise pode ter influenciado, mas acreditamos que o problema foi oferecer vagas para cursos que não têm demanda", afirma Ana Vilacchi, coordenadora-geral do vestibular da PUC-SP, que inclui provas para as faculdades Santa Marcelina e Rio Branco.
Ela explica que os candidatos aprovados nos cursos cancelados estão sendo avisados do problema por telefone. "Agora, vamos fazer uma nova divulgação porque esses cursos vão entrar novamente no vestibular do fim do ano", diz.
Os cursos tecnológicos que foram cancelados, mas seriam oferecidos pela primeira vez na PUC-SP, são Radiologia Médica, Agronegócios, Gestão de Pequenos e Médios Negócios, Gestão em Segurança Pública e Direitos Humanos, Gestão Digital em Hipermídia, Controladoria, Energia.

DÍVIDA

O cancelamento dos cursos não ajuda em nada a situação financeira da universidade, que em outubro começará a pagar o empréstimo bancário que fez no segundo semestre do ano passado. Atualmente, a dívida está em torno de R$ 107 milhões e o déficit mensal acumulado, que já foi de R$ 4 milhões, agora é de cerca de R$ 2 milhões.
A crise também motivou uma intervenção da Fundação São Paulo, mantenedora da universidade, o que provocou protestos de professores, funcionários e alunos, que temiam pela perda da autonomia da reitoria. Atualmente dois padres nomeados por dom Cláudio Hummes, arcebispo metropolitano e grão-chanceler da PUC, dividem com a reitora Maura Véras a presidência da fundação.
Além disso, o próprio dom Cláudio assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público se comprometendo a zerar o déficit mensal e a colocar em ordem as finanças da universidade até o fim do ano.
Entre as medidas que podem ser adotadas pela instituição estão uma nova redução no salário dos professores - as novas contratações já são feitas seguindo valores de mercado, abaixo dos que a instituição costumava pagar -, corte de gastos administrativos, aumento de vagas em cursos com demanda reprimida e diminuição no número das bolsas até o limite exigido pela lei.
Segundo auditoria do Ministério Público, a crise chegou a esse ponto por causa da má gestão nas últimas décadas.

RAIO X 

1.050 vagas foram oferecidas no vestibular de meio de ano para dez cursos tecnológicos e cinco graduações

295 vagas foram preenchidas, somando as graduações e três tecnológicos

R$ 2 milhões é o déficit mensal da universidade

R$ 107milhões é o quanto ela acumula de dívida com dois bancos após renegociação feita no ano passado

22 mil alunos estudam atualmente na universidade em cursos de graduação e pós-graduação

1,2 mil professores, entre mestres e doutores, trabalham na instituição

O ESTADO DE SÃO PAULO – 25/07/2006 (EM BAIXA)
Volta às aulas nas escolas de lata 

Pais e alunos de três colégios da Zona Leste querem escolas de alvenaria 

CAMILA ANAUATE 

Apesar de todas as promessas, estudantes de três unidades da rede municipal de ensino na região de São Mateus, na Zona Leste da Capital, voltaram às aulas ontem em escolas de lata. As instituições deveriam ter sido desativadas ainda no ano passado. Mas atrasos nas obras continuam adiando a inauguração das novos escolas de alvenaria.
Para pais e alunos da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Parque das Flores e das Escolas Municipais de Ensino Fundamental (Emefs) Parque das Flores II e Jardim das Laranjeiras, foi um dia de decepção. "Meu filho nem quis ir à aula quando soube que voltaria para a escola de latinha", contou a dona de casa Regina Alves dos Santos, de 39 anos. "Todos esperavam inaugurar a nova escola depois das férias. Era o prometido", lembrou.
"No dia da eleição eu aposto que inaugura", provocou a dona de casa Maria Diomar Queiroz de Assis, 42 anos, mãe de Talita, aluna da 7ª série no Jardim das Laranjeiras. A estudante reclama do forte calor quando faz sol e do frio que castiga a sala nos dias gelados. "Eu já a teria tirado da escola se tivesse vaga em outra", reclamou a mãe.
Bem ao lado da unidade metálica, no Jardim das Laranjeiras, a escola de alvenaria já está construída e aparentemente pronta para o uso. "Dizem que só falta resolver problemas de vazamento", afirmou Regina. "Deve ser por falta de pagamento", especulou Maria Diomar.
Nas Emei e Emef Parque das Flores, o cenário não muda. As escolas de lata ainda estão em funcionamento, mal conservadas e rodeadas de lixo, enquanto o novo prédio de alvenaria está vazio."É um sofrimento para as crianças, mas elas têm de estudar", disse a empregada doméstica Maria de Lourdes Jesus, 35 anos, mãe de Larissa, de 5.
A Prefeitura havia prometido acabar com as 51 escolas de lata da Cidade em 2005. Sete, no entanto, não foram substituídas a tempo. Na época, a Secretaria Municipal de Educação transferiu os alunos de quatro delas para outras unidades. Seria um deslocamento temporário, por seis meses, até a conclusão das unidades de alvenaria.
As três escolas de São Mateus só continuaram funcionando por opção da comunidade, que considerou menor o transtorno de ter seus filhos por mais um semestre nas escolas de lata do que mudá-los temporariamente. Mas passados os seis meses, continuam esperando.
A Secretaria Municipal de Educação apenas informou que as sete unidades estão em fase final de obras.

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