Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

11/08/2006 – CLIPPING


O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 11/08/2006
ALIÁS DEBATE (CADERNO SOBRE EDUCAÇÃO)

A educação e o capital humano 

Investe-se mais no ensino superior no País. Mas os dilemas da escola básica, graves e urgentes, estão além das cifras 

Um dos debatedores lançou a provocação: “Nós nos preocupamos pouco com educação. Em geral, na época das prévias eleitorais.” Nós quem? Formuladores de políticas públicas? Mães e pais de alunos? Educadores? Jornalistas? Candidatos? Empresários do setor? Um argumento pode fazer frente à provocação: o desafio educacional brasileiro supera, em tamanho e complexidade, qualquer campanha eleitoral. Questionável dizer que só se pensa nele agora.
A série Aliás Debate, seis encontros com especialistas em torno de temas fundamentais da agenda nacional, teve seu início na última segunda-feira, no auditório de O Estado de S. Paulo. Discutiu-se justamente o tema que transcende os palanques: a educação no Brasil. Para confrontar idéias e responder às indagações do público, os economistas Claudio de Moura e Castro e Eduardo Giannetti da Fonseca, ambos com sólida análise dos pilares e das trincas do sistema de ensino, e Julio Groppa Aquino, professor titular da Faculdade de Educação da USP.
Ao longo de mais de três horas, os convidados fizeram o diagnóstico da escola básica brasileira. E ela vai mal, cumpre informar. Não pelas dimensões que adquiriu nos últimos anos (hoje cerca de 97% das crianças brasileiras freqüentam a escola), mas pela qualidade do que oferece. Sair da quarta série sem saber ler é triste rotina. Professor ter de inventar aula por falta de livro, idem. Acreditar que tecnologia é o que falta às escolas virou moda ou panacéia.
Gasta-se pouco ou gasta-se mal com educação no Brasil? As soluções são imediatistas ou projetam o futuro? Nosso sistema de ensino reproduz a desigualdade da sociedade ou este é só um debate ideológico? Deve-se perseguir a igualdade de oportunidades ou a igualdade de resultados? São muitas as questões suscitadas pelo debate. Não se esgotam na temporada das campanhas políticas, mas podem inspirar candidatos e eleitores. Aproveitamos para anunciar o próximo encontro da série: Aliás Debate Segurança e Violência, nesta segunda, dia 14, às 14 horas, no auditório do Estadão.

Os debatedores 

Claudio de Moura e Castro
Claudio de Moura e Castro é economista e mestre em Educação. Tem mais de 30 livros publicados. Formou-se em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais, tem mestrado pela Universidade de Yale e doutorado pela Universidade Vanderbilt. Foi economista-sênior do IPEA, lecionou na PUC-RJ, na Universidade de Chicago, na Universidade de Brasília e em Genebra. Foi diretor-geral da Capes. Trabalhou no Banco Mundial (BID), em Washington. Ao aposentar-se do BID no ano 2000, assumiu a presidência do Conselho Consultivo das Faculdades Pitágoras, em Belo Horizonte.

Eduardo Giannetti
da Fonseca
Eduardo Giannetti da Fonseca é economista, com Ph.D. pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. É professor titular e coordenador do Ibmec, em São Paulo. Giannetti formou-se pela Faculdade de Economia e Administração da USP e em Ciências Sociais pela mesma universidade. Também foi professor em Cambridge. Autor de diversos livros, entre eles Vícios privados, benefícios públicos?, Auto-engano e Felicidade. Seu lançamento mais recente é o livro O Valor do Amanhã,sobre a natureza dos juros, finalista na categoria Economia do Prêmio Jabuti 2006.

Julio Groppa Aquino
Julio Groppa Aquino é professor-doutor da Faculdade de Educação da USP, onde leciona atualmente. Formou-se em Psicologia pela Unesp, fez seu mestrado e doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP. Entre 2000 e 2003, Groppa dedicou-se ao pós-doutorado na Universidade de Barcelona. Entre os temas que pesquisa, a violência no mundo escolar e as relações da família. É autor de Autoridade e Autonomia, Indisciplina: contraponto das escolas democráticas, Do Cotidiano Escolar e Diálogos com Educadores, entre outros títulos.

Uma radiografia da nossa vida escolar

O acesso ao ensino básico cresceu de modo espetacular no Brasil. Mas a qualidade dele nos põe na rabeira do mundo 

“A gente se impacienta com a educação, com as trapalhadas em torno dela, mas a verdade é que começamos a pensar nisso com quatro séculos e meio de atraso. O problema da educação brasileira não é o que se faz de errado hoje, é o que se deixou de fazer por quatro séculos e meio. Na velocidade em que a gente anda aqui no Brasil a trapalhada é inevitável - e há trapalhada para danar. Só em direção à segunda metade do século 20 é que começaram a acontecer coisas interessantes na educação. A primeira delas foi a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o Senai. A segunda, a criação de uma rede de universidades pública, com ênfase na pós-graduação e na pesquisa.
E onde chegamos? Num negócio absolutamente maluco. Temos formação profissional de Primeiro Mundo, criada inicialmente pelo sistema Senai, temos pesquisa de Primeiro Mundo e temos educação básica de Terceiro Mundo. É um negócio surrealista. O que aconteceu?
A década de 90 foi aquela em que, pela primeira vez na História do Brasil, realmente houve ênfase no ensino básico, sobretudo no ensino fundamental. Conseguimos universalizar o acesso: hoje chega a 97% o total de crianças que freqüentam a escola. Também aumentou a velocidade das graduações. Como resultado desse grande esforço, a matrícula no ensino médio triplicou e provavelmente temos a taxa mais rápida de crescimento (dessa área) no mundo inteiro. E o superior? Saiu de décadas de hibernação porque agora ele tem matéria-prima para crescer, ou seja, os alunos saindo em número maior do ensino médio. Antes o ensino superior não podia crescer, porque não havia alunos. Essa mudança é um feito extraordinário.
Ao contrário do que se pensava, a qualidade não caiu. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostra que ela tem oscilado um pouco, mas basicamente permanece no mesmo patamar. Na verdade, os brasileiros têm que ter um enorme orgulho de ter conseguido fazer o que pouquíssimos países conseguiram, ou seja, uma expansão tão rápida do sistema de ensino sem grande queda de qualidade. O problema é que essa qualidade de ensino que não caiu já era lamentável! Resultado: tiramos último lugar no Pisa (Program for International Students Assessment, que faz avaliações do ensino em países do Primeiro Mundo). Pelo que se nota no Saeb, mais da metade dos alunos, quando chega à quarta série, ainda não foi alfabetizada corretamente. Da população adulta, três quartos são analfabetos funcionais. Portanto, a situação permanece crítica. O Pisa mostrou que não apenas o Brasil ficou em último lugar, como apontou uma coisa inacreditável: as crianças que vêm da elite brasileira entendem menos o que está escrito no papel do que os filhos de operários em países da Europa. Quer dizer, há alguma coisa de errado com o nosso sistema.
Diante disso, qual é o nosso grande desafio? É entender o que se passa com a qualidade do ensino brasileiro. A opinião pública, talvez um tanto elitista, não entende. A cobertura da imprensa tende a ser amadorística ao analisar o problema, com as exceções que a gente conhece. E 80% das informações que a imprensa propaga, nesse território, vêm do MEC. E o ministério parece que ainda não entendeu que a nossa prioridade é o ensino básico. A burocracia do básico é a pior de todas dentro do MEC, a mais frágil, a mais limitada. Sempre foi assim, não é novidade, mas agora está particularmente ruim.
Como hoje as escolas têm giz, quadro-negro, livro, professor, porta, janela, luz elétrica e banheiro, isso não é mais o desafio. O que eu quero dizer? Desafio agora é o ensino. O grande problema da educação está na sala de aula. Se a educação não for considerada um problema de sala de aula, não iremos a lugar nenhum.
Vamos falar também de outros desafios que se sucedem. Nós pagamos duas vezes e não educamos nenhuma: os alunos repetem e a gente paga para repetir. Só com a redução da reprovação, mantendo a mesma qualidade, seria possível pagar 30% de salário a mais para os professores. Outra coisa: a escola tem a cara do diretor e as nossas políticas de escolha de diretor tendem a ser péssimas. Todo aluno sabe se o diretor é bom ou se é ruim, todo professor também sabe, só as autoridades educacionais não sabem. Escolher bons diretores é fundamental.
A escola brasileira também tem de entender que é preciso dar ao aluno aquilo que ele pode aprender - e não o que ela gostaria de ensinar. É preciso aceitar essa diversidade. Isso implica admitir uma pedagogia para os alunos mais modestos, tal como fez o Japão e outros países ao adotarem a seguinte orientação: deve-se ensinar de forma que o aluno mais fraco consiga entender e, ao mesmo tempo, deve-se ter uma alternativa para os outros que não são tão fracos. Pensar o ensino é pensar o que se passa em sala de aula. Se a gente não fizer isso, não vai a lugar nenhum. Isso também pede atenção especial a materiais pré-trabalhados, conteúdos, livros, etc. Ensinar para o professor pedagogia no abstrato é fonte de controvérsias e não ajuda a melhorar a sala de aula. Por esse excesso de abstração é que as faculdades de educação são instituições tão difíceis de mudar.
É, a nossa sala de aula está enguiçada. Professores não aprenderam a ensinar. Gurus vivos ficam citando gurus mortos. O princípio científico, aquele que salva a vida da gente quando se vai ao médico, é rejeitado. E o sopão ideológico acaba se apresentando como uma solução muito mais fácil do que a educação baseada em evidências. Temos o resultado: nossos alunos perdem muito tempo decorando ou copiando do quadro-negro, ao invés de aprender a pensar.
A carreira do docente, então, é uma desgraça. Ninguém é premiado porque fez certo. Ninguém é punido porque faz errado. Não existe associação entre a capacitação do professorado e o grau de aprendizado dos alunos. Professores padecem de baixa estima - e este é um assunto para ser tratado neste debate. Daí nós chegamos às falsas soluções: perdemos tempo com os balangandãs, as firulas e os paetês da moda. Como a crença de que a solução tecnológica possa substituir a boa aula. Ou a idéia de que o professor não precisa seguir um livro, que basta o pobre coitado inventar a aula que está tudo resolvido. Ora, isso não acontece na Finlândia, por exemplo, onde virtualmente todos os professores têm mestrado e têm livros que os acompanham nas salas de aula.
Vocês já perceberam como as escolas estão se envolvendo cada vez mais com programas de responsabilidade social? É um tal de promover festa, encontro, excursão, tanta coisa que acaba não sobrando tempo para educar. Confunde-se disciplina com autoritarismo. A propósito, há uma pesquisa interessante, feita nos Estados Unidos, na qual perguntaram aos alunos o que é que mais atrapalha o aprendizado deles. A resposta: é o colega do lado, conversando. Então, tem de aparecer alguém para não deixar o colega conversar! Temos hoje um assembleísmo escolar substituindo a autoridade legítima.
Vivemos de projetinhos. Chamem a Vidrobrás para trocar o vidro. A Mata-Borrãobrás para botar um mata-borrão em cada sala de aula, por aí vai. E dá-lhe dança, teatro, educação sexual, educação para o trânsito, Dia da Árvore, Dia do Pastel de Angu, ora, nada disso resolve o problema da educação. O que se faz nos países bem-sucedidos? Soluções simples. A tecnologia ajuda, mas não faz milagre. A grande diferença é que, nesses países, os professores sabem o conteúdo e aprenderam a dar aula. Simples. Os currículos são claros e explícitos. Há bons livros, que são usados no cotidiano. Há avaliação permanente e exige-se disciplina, sim, disciplina careta na sala de aula.
Há um livro recente, de uma educadora americana chamada Lauren Randolph, mostrando o que fizeram os países que saíram vitoriosos ao reformar o seu ensino básico: planejamento detalhado de currículo, planejamento de aula, professores muito bem capacitados nos anos iniciais, autonomia para a escola combinada a metas de trabalho, avaliação constante e cobrança de resultados. Também faz diferença no aprendizado a atenção e o interesse dos pais pelo que os filhos estão fazendo e recebendo na escola. É isso o que acontece na Europa e nos países onde a educação funciona.

A visão de Claudio de Moura e Castro
‘Prioridade absoluta para o fundamental’
 

Claudio de Moura e Castro 

“Se estamos falando em consertar o sistema, os pesquisadores têm que mostrar onde estão os problemas e precisamos de grande esforço de marketing social para vender as soluções. Mas, quem tem clareza do que deve ser feito? Ninguém! Os pais acham a educação boa. Os políticos estão satisfeitos com a politicagem que fazem em torno da escola. Portanto, nossa primeira agenda é criar uma crise. Como convencer os pais de que a educação de seus filhos é péssima?
Meu plano de ação: prioridade absoluta para o ensino fundamental. Currículo: ler, escrever, usar números e pensar. Metas claras, autonomia e avaliação depois. Preparar o professor para dar aula e ensinar com um bom livro. Escolha meritocrática de diretores e apoio às piores escolas. Só faltou a parte mais importante do meu plano: é tudo isso. E só isso

A dimensão econômica do desafio educacional

País investe 5,1% do PIB no setor, patamar semelhante ao de países de igual nível de renda. E usa muito mal os recursos 

“A educação tem duas dimensões muito importantes para qualquer sociedade moderna. Uma econômica, stricto sensu, e uma social, ligada a questões como desigualdade e políticas sociais. Do ponto de vista econômico, o investimento em educação é parte do esforço de acumulação de capital de uma sociedade. Por que capital? Porque é transferência de recursos do presente para o futuro. A sociedade investe na criação de ativos - no caso capital humano - e este, mais à frente, gerará níveis maiores de renda, maior produção média por habitante.
Mas estamos numa sociedade que tem muita dificuldade em transferir recursos do presente para o futuro. Uma sociedade que padece de uma terrível miopia temporal, tanto individual quanto coletiva. O problema do ensino fundamental não difere muito do problema de saneamento básico, por exemplo. Mais de 60% dos domicílios brasileiros não têm acesso a esgoto.
Onde se reflete economicamente a educação? Primeiro, na trajetória do indivíduo que recebe, ou não, uma educação adequada. Um ano adicional de escolaridade no Brasil significa, na média, um aumento de 14% na renda do indivíduo. E para a sociedade? Dois economistas americanos, Gary Becker e Roberto Fogel, ambos ganhadores do Nobel, fizeram recentemente uma estimativa da importância do capital humano na economia americana. O resultado a que chegaram é impressionante: dois terços do estoque total de capital nos Estados Unidos, hoje, são de capital humano. Se considerarmos todos os ativos da maior economia do mundo - máquinas, equipamentos, edificações, terra e tudo o mais -, dois terços do total de ativos produtivos nos Estados Unidos são capital humano. Isso dá uma dimensão da importância dos seres humanos para o desenvolvimento, para o aumento da produção média por habitante, para a prosperidade. Temos aí, portanto, uma dimensão fundamental: a educação como parte do esforço de acumulação de capital.
Há também a questão da educação como política social. A maior parte da desigualdade num país tremendamente desigual como o Brasil é causada por diferenças quanto a oportunidades educacionais. Os países que reduziram, em caráter permanente, a desigualdade social e a má distribuição de renda fizeram-no aumentando e melhorando a dotação inicial da maior parte da população. Por dotação inicial entende-se primordialmente educação fundamental, com ensino médio de qualidade.
Isso, sim, é uma política de solução permanente do problema de desigualdade. Assistencialismo, transferência de renda, é uma política emergencial que pode atenuar situações muito graves de privação, mas não soluciona a desigualdade. Filosoficamente, defendo igualdade de oportunidades, não acho que a igualdade de resultados faça sentido nem que seja desejável. Incomoda profundamente uma situação como a brasileira na qual, por exemplo, um jovem que nasce entre os 40% mais pobres da população tem uma probabilidade estatística zero de chegar ao ensino superior público. Uma sociedade na qual isso ocorre, que condena um indivíduo pela sua condição de vida ao nascer a um horizonte muito restrito de oportunidades, é uma sociedade desigual, mal resolvida.
Sim, fizemos, no Brasil, um esforço meritório de aumento da rede de ensino. Isso se deu basicamente na década de 90 - saímos em 91 com 80,5% das crianças de 7 a 14 anos freqüentando o ensino fundamental e chegamos, no ano 2000, a 96,5%. O maior salto se deu na Região Nordeste, que de 1991 para 2000 passou de 75% para 91%.
No entanto, a qualidade do nosso ensino é, sob todos os aspectos, muito ruim. Isso aparece nos exames internos feitos pelo Saeb: mais de 90% dos alunos do quarto ano do fundamental não conseguem ler e escrever. E isso aparece todas as vezes em que o Brasil participa de comparativos internacionais. Nossos alunos de 15 anos que participam do exame do Pisa (Programme for International Students Assessment, que faz a avaliação em escolas européias) ocupam sistematicamente as últimas colocações em línguas, em matemática e em ciências. Ou seja, nosso ensino é realmente sofrível.
O que há de errado e o que poderia ser feito? Primeiro, não gastamos pouco em educação, como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) - o gasto do Estado brasileiro (União, Estados e municípios), nessa área, atinge 5,1% do PIB, número muito parecido com o de outros países com o mesmo nível de renda. No entanto, a qualidade desse gasto é muito questionável, para não dizer desastrosa. Gastamos desproporcionalmente a mais com ensino superior e a menos com ensino fundamental. Do total do orçamento público em educação, cerca de 20% são destinados ao ensino superior gratuito. É um gasto desastroso porque as famílias cujos filhos chegam ao ensino superior têm recursos para financiar privadamente a sua educação.
Outro dado importante: 73% dos que entram em escola pública superior, no Brasil, saem dos 20% mais ricos da população. Essas famílias têm condições de financiar a formação de capital dos seus jovens, poderiam estar fazendo isso. Custa mais de dez vezes para o País manter um aluno no ensino superior do que no fundamental. Esses jovens estão recebendo um subsídio enorme, que vai ser, em larga medida, capturado privadamente.
Em resumo: acho que deveríamos concentrar o gasto público em peso no ensino fundamental. Cobrar de quem pode pagar e usar esses recursos para melhorar as condições do ensino fundamental. Deixe-me lembrar que, curiosamente, Karl Marx, na Crítica do Programa de Ghota, diante de uma proposta de se introduzir na Alemanha, no final do século 19, o ensino superior gratuito, já se declarava contra essa idéia, dizendo que isso significaria apenas subsidiar com dinheiro da sociedade o ensino dos ricos.”

A visão de Eduardo Giannetti da Fonseca
Proponho um exame nacional unificado’

Eduardo Giannetti da Fonseca

“Há uma idéia que acalento faz anos, uma proposta radical. Como garantir que os recursos se transformem em educação de qualidade? Minha sugestão é estabelecer um exame nacional unificado para que, ao final do ensino fundamental, o jovem que passou pelo processo educacional demonstre publicamente que adquiriu habilidades e capacidades associadas àquele grau de ensino.
Ou seja: o jovem brasileiro não terá o ensino fundamental completo simplesmente por ter finalizado um número determinado de anos na escola. Ele somente terá o grau de ensino fundamental se passar num exame nacional, que vai testar se adquiriu as competências educacionais ligadas àquele grau , isto é, ler, escrever, fazer contas.
Quais são as vantagens disso? Primeira: é um enorme incentivo para que as escolas façam bem o que têm de fazer. Aquelas cujos alunos não passam no exame nacional vão se ver em dificuldades.
Segunda
vantagem: a partir daí, criaremos um termômetro imprescindível para corrigir as deficiências do sistema educacional. Teremos uma informação muito forte, pois será de interesse de todos os que participam do exame realmente passar. Falo de uma coisa parecida com o exame da Ordem dos Advogados do Brasil - neste, o estudante não se torna advogado se não for aprovado no exame da Ordem. Da mesma maneira, não terá ensino fundamental completo o aluno que não passar no exame. Isso vai dar uma indicação da qualidade do ensino, mostrar onde estão as deficiências e por onde começar sua correção. Existe também o aspecto de monitoramento, já que vai dar aos pais um instrumento importante para saber onde estão matriculando os filhos.
Finalmente, teremos uma informação relevante para a sociedade. O empregador, ao contratar um funcionário, levará em conta o fato de esse funcionário dispor ou não do grau acadêmico correspondente àquele que diz ter cursado. Precisamos entender que não podemos viver nesse quase auto-engano de que, ao termos 100% das crianças de 7 a 14 anos na escola, a questão está resolvida.”

Ninguém está interessado em mudar essa história 

A elite econômica do País abdicou por completo da prerrogativa de ocupar o lugar de elite cultural, adverte Groppa Aquino 

“Quero dizer, antes de mais nada, da honra que é poder estar aqui, porque sou um professor tão somente, um professor de escola pública que fez sua trajetória escolar toda na escola pública. A possibilidade de estar aqui me parece rara e interessante. Rara pelo fato de que, em geral, a gente precisa lembrar um pouco dessa tensão que existe entre as discursividades jornalística e acadêmica, que sempre acaba explodindo sob alguma forma de acusação à universidade, que não estaria cumprindo com o seu papel. E, junto com essa espécie de crítica generalizada, uma ambigüidade de pedidos, sempre de especialistas, para justificar muitas vezes essa discursividade.
Não há e não pode haver especialistas exatamente em educação. Isso por um lado. Por outro, parece-me importante tentar dar conta de uma espécie de movimento histórico desse debate, que é o silêncio dos educadores. Educadores nunca estão presentes no debate sobre políticas direcionadas à educação. E as autoridades em educação não são do campo pedagógico. O papel das faculdades de educação é inócuo, seja pelo abstracionismo do que se discute, seja por uma espécie de tecnicismo acéfalo que muitas vezes a gente oferece como possibilidade de interlocução com as práticas concretas, porque é só isso que elas parecem compreender.
Minha tarefa fundamental, aqui, é a de frustrar as expectativas de se fazer uma visão propositiva. Não a tenho. Pelo contrário, eu queria oferecer uma visão sóbria, pouco esperançosa, sobre os destinos da educação brasileira. O que resta a um professor ocupando esse lugar? Oferecer uma visão crítica radical, com uma espécie de atitude de espreita em relação a isso que nos tornamos nas escolas desde dentro.
Todas essas propostas que aparecem são velhas, repetidas ad infinitum e nunca levadas a cabo. A educação é alguma coisa com a qual a gente se preocupa um pouco, em particular em prévia eleitoral, e depois se esquece por completo.
Vou tentar trabalhar com uma espécie de hipótese de base: que a gente tem uma cultura antidemocrática no que diz respeito à questão educacional extremamente arraigada entre nós, entre todos os segmentos sociais - e até entre os próprios educadores. Eles não se safam disso de maneira nenhuma.
Vou falar um pouco de dentro das práticas educativas. Tenho uma convicção absoluta de que decisões exógenas em relação aos fazeres escolares tendem ao fracasso, tal como esse fracasso dos 36 anos da educação brasileira que a gente conhece a partir da Lei 5.692*. Porque sempre vão dar de frente com esse despactuamento em nível coletivo, de cima a baixo na sociedade brasileira, que deriva em uma privatização crescente dos serviços educacionais.

A escola serve ‘para avançar e para conservar’ 

Julio Groppa Aquino 

“De um lado a gente atribui à educação essa idéia de que ela é a prioridade na agenda educacional se a gente quiser um país desenvolvido, toda essa correlação que a gente faz entre educação e desenvolvimento, que às vezes é óbvia e às vezes não.
Isso por quê? Porque do ponto de vista das práticas concretas a gente tem isso de um lado e de outro a escola como o mais perfeito dispositivo de manutenção das desigualdades sociais. Então, de um lado a gente espera que ela seja promotora de desenvolvimento e, de outro, ela conserva.
Nesse sentido, a escola brasileira não tem nada de errado, ela é exatamente o projeto que a gente só executa. Então me parece que, quando se colocam pessoas para discutir isso, fica uma coisa meio da má consciência da intelligentzia nacional : o que faremos com a educação? Na verdade, nada.”

O Brasil tem o direito de saber que o sistema é ruim 

Em quase três horas de debate, um diagnóstico das falhas da nossa educação e do valor das soluções apresentadas 

Edição: Gabriel Manzano Filho 

As exposições dos três especialistas, apresentadas nas páginas anteriores, foram seguidas de um debate entre eles, os participantes da mesa e o auditório. Durante cerca de três horas vieram à luz temas como progressão continuada, ProUni, carreira dos professores, limites entre disciplina e autoritarismo nas escolas e fórmulas de avaliação dos alunos. Neste último item, despertou polêmica a proposta de Eduardo Giannetti da Fonseca sobre um exame nacional obrigatório para que o aluno do ensino fundamental receba seu diploma. A seguir, alguns dos principais momentos dessas discussões.

Professor Giannetti, a sua idéia de uma prova nacional para aferir conhecimentos no ensino fundamental suscita dúvidas. Se você não confere o diploma, num país com um ensino fundamental tão deficitário, não estará criando uma geração de párias no ensino?
GIANNETTI -Não acredito que essa prova de aferição vá criar párias, os párias já existem. O que essa avaliação vai fazer é mostrar isso para a sociedade. Não se cria uma nova situação. A prova apenas nos dará a oportunidade de olhar de frente uma situação que não queremos encarar. Qualquer esperança de avanço, a meu ver, depende desse passo doloroso. E a escola vai ser exposta: se ela dispõe de recursos e não tem uma média razoável de aprovados, há algo errado, que ela precisa corrigir.

E o que aconteceria com essas crianças reprovadas? Não estariam sendo penalizadas?
GIANNETTI - Não, é lógico que elas deverão ter toda oportunidade de tentar, estudar de novo. O essencial é a sociedade saber se essa pessoa adquiriu, em sua formação, as qualificações associadas a esse grau escolar. Assim como há supletivo hoje, elas provavelmente terão algum tipo de curso extra, para estudar e mostrar publicamente que adquiriram as competências exigidas. Só isso.

E se elas não têm essa competência porque não lhes foi oferecida?
GIANNETTI - Isso reflete uma preocupação com a imagem de quem não passa. Se você tem um problema, uma doença, vai passar a vida inteira fingindo que não tem? Ninguém se livra da febre quebrando o termômetro. Nada resolve o sujeito deixar de ir ao médico porque não quer saber da doença.

Já temos a Prova Brasil, que começou este ano e mostra escola por escola. Vão mudando os nomes, o Saeb vira Neb, o Enad é o antigo provão... Não é exame demais?
GIANNETTI- O meu exame é para acabar com todos os exames. É diferente do provão, que mostrava a qualidade da faculdade. É lógico que a resistência corporativista é monumental, é por isso que não sou político. O que o professorado mais teme no mundo é que o resultado de seu trabalho seja publicamente aferido. Mas a sociedade tem o direito de saber disso. E é uma coisa que vai fazer diferença na vida de uma pessoa.

GROPPA - A mim, isso parece um afã controlador, que não controla. Esse é o segredo da questão educacional, a gente não consegue chegar lá na ponta. A rigor, temos leis espetaculares no País. Veja o exemplo do Estatuto da Criança e do Adolescente. Se entendo o trabalho educativo como uma prática eminentemente social, não acho que deva ser regulado por prescrições normativas o tempo todo. Não é desse calibre a saída que imagino para a questão educacional.

Professor Groppa, o sr. tem um estudo contrapondo violência e autoridade no contexto escolar. A gente escuta falar de violência na periferia, o noticiário às vezes é assustador. Mas houve, há uns dois anos, o episódio de uma tradicionalíssima escola de São Paulo em que os alunos se despediram do curso depredando o prédio. Então, a questão não é só a violência do pobre?
GROPPA - As escolas de periferia, se bem pactuadas com seu entorno, são protegidíssimas, em geral cuidadas. Mas, de uma maneira ou de outra, a escola é uma caixa de ressonância dos movimentos da sociedade. Em geral, elas tão-somente acolhem esses atos violentos, que não são gerados internamente. O que é gerado internamente - e alguns autores chamam de violência simbólica - tem a ver com humilhação, com uma relação tensa. Isso remete ao que falei antes, sobre a esgarçadura dos vínculos entre professor e aluno, essa desritualização radical das práticas da sala de aula.

O projeto de valorização do magistério, desenvolvido no governo anterior, já teve algum resultado?
CASTRO - Qual é a grande estrela do ensino público brasileiro? A pós-graduação, que é brilhante, talvez a melhor do Terceiro Mundo. E por que ela funciona bem? Porque, ao mesmo tempo, tem puxão de orelha e prêmio para professor. Então, o MEC dá o exemplo de uma pós-graduação de excelente qualidade e padrão internacional. Agora, se no ensino fundamental e médio é extraordinariamente difícil puxar a orelha e premiar, isso não pode ser boa coisa.

Qual é a importância da família no desempenho escolar das crianças?
GIANNETTI - É enorme. E há uma questão que pode ter um impacto relevante: a da maternidade precoce. Em 1998 foi feito um levantamento no SUS sobre partos de mães abaixo dos 19 anos. Houve naquele ano 698.439 partos dessas jovens, cerca de 2 mil por dia no País! E foi um ano normal. Essas crianças, de mães de baixa escolaridade, terão muita dificuldade para estudar e ter um desempenho adequado. Uma boa política de planejamento familiar, ao longo do tempo, ajuda.

E qual o peso, nesse processo, da autoridade em casa?

GIANNETTI - Existe um dado que me impressiona nesse sentido. No Brasil, há na população do Estado de São Paulo 1,8% de descendentes de asiáticos, que ocupam 13% das vagas na Fuvest. Eles vieram para cá sem qualquer privilégio ou vantagem, partiram de condições comuns da sociedade e, em uma ou duas gerações, aparece essa diferença. O que há por trás disso? Temos duas explicações básicas: ou é genético, e creio que não é, ou é a estrutura familiar.
Essas famílias têm um tipo de suporte, de estímulo e de pressão que leva a outro tipo de atitude no processo educacional. Na Califórnia é parecido, eles são 9,5% da população e ocupam 36% das vagas na universidade, mais que os brancos. Os latinos, que são 26% da população lá, preenchem 13% das vagas. Acho que a resposta para isso é, fundamentalmente, a pré-escola. Já que não há como mexer na estrutura familiar, pois isso não faz parte das políticas públicas, é necessário compensar a desvantagem da estrutura familiar com uma pré-escola que reforce e prepare para entrar no primeiro grau. Diga-se de passagem que, hoje, 40% dos alunos repetem o primeiro ano do primeiro grau.

Seria o caso de pensar em ter filosofia religiosa na grade curricular?
CASTRO - Depois que se separou a Igreja do Estado, não cabe propor medidas como o ensino religioso nas escolas.

GROPPA - Quero me manifestar sobre esse tema. Fiquemos tranqüilos, as escolas já estão tendo um amplo movimento de deslaicização do ensino. Como elas não acham mais importante a matemática, o português, etc., já se ensina aos alunos a rezar com a Bíblia, o Alcorão, as rezas orixás, isso já está em curso. Nem precisamos mais querer religião na escola, isso já venceu. E, na questão anterior, o fato é que a democratização escolar tem três eixos complementares - o acesso, a permanência e a aprendizagem. Estamos ainda no meio da discussão sobre a democratização da permanência. Ainda estamos distantes de debater a democratização da aprendizagem. Mas insisto em que o problema não são as bordas, elas estão o.k., o problema é com o interior da vida escolar, os fazeres escolares.

Qual é a avaliação de vocês sobre a ação do governo brasileiro quanto à educação nos últimos 40 anos?
CASTRO - Primeiro, falemos do governo militar. Quando olhamos a educação no Brasil, o que vemos não é o peso deste ou daquele governo, é a inércia da cultura brasileira, que nunca deu atenção à educação. Isso vem de séculos. As estatísticas sobre educação não mudam no regime militar, projeta-se tudo e continua igualzinho - antes, durante e depois dos militares. Não houve uma intervenção que mudasse a direção do sistema durante o regime militar, a não ser na expansão da universidade pública e na criação da pesquisa de pós-graduação. Quanto ao governo Lula, acho que a única prioridade neste momento é a qualidade do ensino básico, do ensino fundamental e em seguida do médio. Como nenhum dos ministros do presente governo afirmou que essa é a prioridade, o meu julgamento está dito.

GIANNETTI - Queria comentar sobre um caso muito interessante, o da Coréia do Sul. Na década de 60, esse país tinha um nível de renda e uma taxa de escolaridade igual ou pior que a do Brasil. De lá para cá, ele fez um trabalho magnífico. Hoje, nos exames do Pisa (Program for International Student Assessment), os sul-coreanos saem na frente dos alemães e americanos em matemática - e com classes maiores, professores que recebem menos e sem equipamento sofisticado. Mas há duas diferenças fundamentais em relação ao Brasil. A primeira é que a Coréia do Sul não viveu a explosão demográfica pela qual o Brasil passou no pós-guerra. O País triplicou sua população, saímos de 50 milhões para 150 milhões, em 45 anos. Os efeitos disso foram enormes. Fizemos o laissez-faire demográfico, o resultado está aí. Explodiu, em curto espaço de tempo, o contingente de crianças e jovens que precisa de investimento e não o teve.
A outra diferença, que já foi mencionada, é a da estrutura familiar, que não é apenas afetiva, mas tem um elemento de cobrança. Isso é uma herança cultural, é capital humano que eles têm e que, infelizmente, nós aqui não temos. O que sabemos, empiricamente, é que a escolaridade da mãe é uma variável de primeira ordem no desempenho escolar. A recomendação que sai daí é a seguinte: concentrar recursos na pré-escola especialmente para aquelas crianças que têm mãe com baixa escolaridade e uma estrutura familiar deficiente do ponto de vista educacional.

Falou-se dos índices escandalosos de analfabetismo funcional no Brasil e estamos em plena discussão sobre métodos de alfabetização. Afinal, qual é o melhor método? O fônico ou o chamado método global?
CASTRO - Inicialmente, sou um babaca desses que acredita no método científico, em velha guarda, aquelas coisas. Quando a gente fala no método global, no qual se aprende a ler a frase inteira, ou no método fônico, no qual se começa com a letra e com as vogais, em primeiro lugar tudo indica que, para a classe média, não interessa o método. Na casa, a tradição é que se aprende sozinho, se aprende com a empregada, na televisão, ou já se chega sabendo. O problema do método existe para o aluno mais pobre. Há uns anos, dada a predominância do método global sobretudo na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, houve uma controvérsia grande. Então, fizeram a seleção de todas as pesquisas existentes, comparando um método com o outro. Partiram de 30 mil, eliminaram todas aquelas que não eram à prova de bala do ponto de vista metodológico e se terminou com umas 30 pesquisas, consideradas acima de qualquer suspeita metodológica.

E o que diziam essas pesquisas?
CASTRO - Saiu que havia oito métodos competindo para ver qual seria o mais eficiente na alfabetização. Nenhum deles era o global, ou seja, o global saiu de cena, e desses oito a busca se reduziu a dois - um era se você deve começar com um garrancho e passar para o som, o outro era se você começa com som e passa para o garrancho. Como resultado, virtualmente todos os países da Europa e os Estados Unidos mudaram com armas e bagagens para o método fônico. “O vovô viu a uva” é o avô do fônico de hoje, a conseqüência de uma série de avanços do ponto de vista metodológico. Então, para um cara que acredita no método científico, não posso entender que exista qualquer dúvida. Agora, há uma controvérsia entre o fônico com historinha, o fônico chamado com construtivismo e o fônico puro. No fônico puro se aprendem as letras, as palavras, se aprende a escrever. E o fônico com historinha tem uma certa inspiração de Paulo Freire, é uma contextualização do mundo para motivar mais os alunos. Eu acredito que não temos uma base segura para distinguir entre um e outro, para dizer se um ou outro é melhor. A suspeita é a de que o fônico sem historinha seja o melhor.

O que o sr. entende por método científico?
CASTRO - Falo de pesquisas que têm grupos de controle, com a escolha aleatória de quem vai ser avaliado, que medem o resultado do processo antes e depois. É o convencional do método científico.

Mas, para aprender a ler, a memória é fundamental. O que já se avançou na pesquisa em torno de memorização?
CASTRO - Há uma pesquisa muito curiosa. Na verdade, não é uma, são muitas, que se somam e que dizem o seguinte: a memória de curto prazo é aquela da ordem de 10 a 15 segundos; a sentença típica tem uma média de dez palavras. Então, quem lê uma palavra por segundo chega no fim da frase ainda lembrando a primeira palavra. Quem lê menos do que isso já esqueceu a primeira palavra, então tem que ler de novo, o que causa frustração.
Portanto, a leitura requer velocidade, e velocidade você aprende no passo a passo. Isso confirma essa pesquisa sobre a eficácia do fônico. Sabemos que há uma correlação muito grande entre o êxito na leitura nas primeiras séries e o êxito em tudo o que vem depois. O que vem de início é simplesmente o aprendizado de uma técnica. Não é educação, é aprender a técnica. É como aprender qual é o pedal do freio e qual é o da embreagem. Não significa que se aprendeu a dirigir. Depois começa a educação, mas nesse princípio tem que ter essa mecanização de processos.
Ao afirmar que saímos de uma escola da palmatória e que devemos instalar uma avaliação freqüente, penso se o ideal para a educação brasileira é a instalação da sociedade de controle. Parece-me que o nosso debate não está levando em conta que temos uma nova sociedade, que essa sociedade tem um sujeito que não responde mais aos parâmetros da sociedade anterior. Nesse sentido, parece-me um debate saudosista.

CASTRO - Morei seis anos na Suíça e na França, oito anos nos Estados Unidos, muito próximo do sistema educacional, e vi duas coisas. Primeiro, que os sistemas educacionais avaliam cada vez com mais freqüência. Segundo, eles devem ter sido submetidos a um sistema de lavagem cerebral tão profundo que ninguém lá descobriu que eles estão vivendo numa sociedade... como é que se chama? Ah, de controle.

Como não investimos na educação de base, qual é o prognóstico do ProUni para daqui a dez anos?
GIANNETTI - Nunca estudei de perto o ProUni, mas sei que temos duas atitudes a evitar. Uma é a voluntarista, de achar que tudo é uma questão de vontade, achar que com uma grande medida os problemas vão magicamente se resolver. Não vão. Aliás, no campo educacional, recaímos muitas vezes nessa crença de que os CIEPs, CIACs ou CEUs nos trarão a resposta. Não trarão. Mas temos de nos precaver também contra a atitude fatalista - essa de achar que nada resolve, que tudo vai continuar como é. Não vejo isso como uma conspiração de elites. Elas conspiraram tanto para isso quanto conspiraram contra o saneamento básico ou para a hiperinflação que tivemos no passado. É um problema de deformação cultural histórica, de raízes profundas. Acho que a sociedade brasileira está lentamente despertando para a centralidade da questão educacional.

CASTRO - Sobre o ProUni, o que aconteceu nos últimos 10 ou 12 anos? O ensino médio triplicou. Ao triplicar, recebeu principalmente alunos de origem mais modesta. Assim, chega ao limiar do ensino superior um grupo, uma camada de alunos que mal conseguiu atingir o nível de proficiência necessário para passar de ano e se formar no médio. O que o ProUni está fazendo é permitir a essa nova camada que tenha acesso ao ensino superior. E a informação que se tem, ainda pouco trabalhada, é que o aluno típico do ProUni não é pior do que aqueles alunos “mais ou menos” que estão entrando no superior. Portanto, o ProUni não vai puxar a qualidade do ensino para baixo.

JORNAL DA TARDE – 11/08/2006
Educação integral: dentro ou fora da escola?

MARIA REHDER 

O direito à educação formal, atrelada ao lazer, à cultura e à profissionalização, conforme o artigo 227 da Constituição Federal, não deve ser assegurado às crianças e aos jovens apenas pelo poder público, mas é dever de toda a sociedade e, principalmente, de seus familiares.
É neste contexto que educadores e membros do Terceiro Setor estão unidos na busca de uma política pública de educação integral para que esses direitos sejam assegurados ao público infanto-juvenil matriculado nas escolas brasileiras.
Segundo Ana Beatriz Patrício, superintendente da Fundação Itaú Social, ainda não há um modelo pronto e ideal de educação integral. "É certo que as crianças precisam desenvolver competências como esporte, música, teatro. Tanto as ONGs podem ser parceiras das escolas nessas atividades como as escolas podem implementar suas ações", avalia.
A autonomia da escola na gestão de seus projetos, segundo Ana Beatriz, é fundamental para que os jovens possam ir além da educação formal. "Mas nada impede que a educação integral seja promovida também pelo Terceiro Setor", diz.
O projeto Jovens Urbanos, criado em 2004 pela Fundação Itaú Social, é um exemplo de educação integral promovida fora da escola. "Firmamos parcerias com as comunidades para que os jovens de zonas periféricas possam desenvolver atividades socioeducativas ."

Nas escolas

Para Gracia Lopes, diretora da ONG Cala a Boca Já Morreu, a escola pública está cansada de receber projetos prontos, sem liberdade de adequá-los a sua realidade. "As parcerias só funcionam com a participação da equipe pedagógica da escola", diz.
Segundo Roberto W. Carbonari, diretor da Emef Mauro Faccio Gonçalves Zacaria, no Jardim Ângela, Zona Sul, a educação integral já acontecia na escola antes mesmo do projeto de contra-turno do Município. "Conseguíamos parceiros para aulas de dança, capoeira, os quais também capacitavam os professores. Agora, tivemos de adequar a nossa realidade ao projeto da Prefeitura."
Já Nadir Godoi, diretora da Escola Estadual Durval Evaristo dos Santos, de Itaquaquecetuba, ressalta que o acesso dos jovens a projetos diferenciados causa impacto positivo no processo pedagógico. "Há anos temos parcerias com ONGs, os resultados são maravilhosos. No entanto, precisamos de investimentos do poder público, pois temos limitação não só de espaço físico, mas de acesso a materiais", diz.

Seminário trará experiências de todo o Brasil 

Os professores, diretores e coordenadores de escolas públicas ou privadas e representantes do 3º setor que tiverem interesse em debater a educação integral podem se inscrever para o Seminário Nacional Tecendo Redes para a Educação Integral, que será realizado de 15 a 17 de agosto, no Memorial da América Latina, em São Paulo.
O evento, gratuito, é uma iniciativa da Fundação Itaú Social e do Unicef, com apoio do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
O tema central do seminário será o debate em torno das possíveis soluções para a implantação do sistema de educação integral. Serão mostrados projetos que estão em desenvolvimento e já apresentam resultados em cidades como Belo Horizonte (MG), Nova Iguaçu (RJ), Apucarana (PR), entre outras dos Estados Santa Catarina, Bahia e Pernambuco.
As inscrições devem ser feitas por meio do site www.cenpec.org até o dia 14 de agosto. Informações pelo telefone 0800-7017-104.

JORNAL DA TARDE – 10/08/2006
Creches: inscrição causa dúvidas 

Mães criticam novo processo de cadastro, agora informatizado 

CAMILLA HADDAD 

A nova forma de inscrições para conseguir uma vaga em creches municipais ainda causa dúvidas na população. Desde março, a Secretaria Municipal de Educação (SME) informatizou o processo. O responsável pela criança vai até a creche mais próxima de sua casa e passa os dados para a unidade que, em seguida, armazena as informações em uma central online da Coordenadoria de Educação.
A secretaria garante que o método é eficaz, pois não é mais necessário fazer inscrições em várias unidades da região desejada. Com apenas com um cadastro, a criança automaticamente está inscrita para as demais unidades.
Mas para a produtora cultural Márcia Marques, 37 anos, que mora na Aclimação, o processo não é tão simples assim. Mãe de Sofia, de 1 ano e 8 meses, e de Felipe, de 3 meses, ela garante que espera uma vaga há quase um ano nas Creches Vila Monumento e Silvia Covas, localizadas no bairro. Segundo a produtora, em abril ela esteve na Creche Vila Monumento, onde preencheu um cadastro manual. "Nessa unidade eu recebi o canhoto e estou esperando um retorno."
O problema foi que, na Creche Silvia Covas, funcionários teriam pedido só uma cópia da certidão de nascimento de seus filhos e disseram que, em seguida, iriam passar para o sistema online. "Eles afirmaram que a chamada de vagas ficou unificada num sistema só, o que eu duvido e critico porque não tem transparência. Ninguém explica o critério para a chamada dos meus filhos."
A secretaria informou que "não necessariamente" entrega-se o protocolo para a mãe, a não ser que ela peça. Em caso de dúvidas, o órgão recomenda que as mães peçam uma cópia da ficha de inscrição ou da ficha preenchida no sistema. Não é necessário, segundo a secretaria, que o responsável apresente documentos da criança. Em algumas ocasiões, os documentos são pedidos para verificar a grafia correta da criança. Quando surge uma vaga, a mãe é avisada por telefone ou telegrama.
O tempo médio para conseguir uma vaga nas unidades não foi informado pela secretaria.

Bibliotecas terão mais livros da Fuvest 

Secretaria de Cultura compra 3.078 exemplares das obras exigidas no processo seletivo 

Fernanda Aranda 

A Secretaria Municipal de Cultura acaba de anunciar a compra de 3.078 exemplares de todas as nove obras exigidas no processo seletivo da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular). Os livros ficarão disponíveis em 57 bibliotecas da Capital, sendo 342 livros a mais para cada acervo público.
O objetivo é aumentar a oferta das obras literárias e facilitar o acesso dos vestibulandos. No último domingo, o JT publicou que a média de estudantes carentes por publicação nas bibliotecas públicas é de 216 alunos para cada livro. O número atual é quase sete vezes maior do que a quantidade de candidatos por vaga no curso de Medicina da USP (sendo 32 pessoas para cada).
De acordo com a diretora do sistema de bibliotecas da secretaria, Maria Zenita Monteiro, a compra vai facilitar a organização da demanda de público nos acervos.
"Registramos hoje uma imensa procura pelos títulos exigidos pela Fuvest. As bibliotecas públicas representam, muitas vezes, a única possibilidade de acesso dos jovens. Com a compra de mais exemplares de cada título obrigatório para todas as bibliotecas da Cidade, esse acesso torna-se mais democrático e as chances de todos mais igualitárias", afirmou a diretora.
A Secretaria de Cultura informou que o prazo para a chegada dos livros é de 40 dias. Cada biblioteca receberá cinco exemplares a mais de cada obra exigida. A média hoje é de apenas dois títulos por acervo.
"Além desta aquisição, estamos investindo
neste ano R$ 1,5 milhão na compra de novos títulos para as bibliotecas públicas. O valor representa um crescimento bastante significativo com relação ao investido em 2005, de cerca de R$ 930 mil", garantiu a diretora Maria Zenita.

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