Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

18/09/2006 – CLIPPING

O Clipping Educacional do SINPEEM tem como finalidade
manter os profissionais de educação filiados ao sindicato informados
sobre as publicações diárias dos principais jornais impressos e sites
sobre a área de educação. Portanto, os textos apresentados
não expressam a opinião do SINPEEM.

JORNAL DA TARDE – 18/09/2006
Quando é que ‘iPod’? 

Escolas criam regras específicas para o uso de aparatos digitais, que só são liberados no recreio 

LOLA FELIX 

Apesar de leves e discretos, aparelhos como o iPod e o telefone celular são considerados bagagem demais pelos professores e diretores de colégios. Quando eles estão ligados, dentro da sala de aula, eles se tornam objeto de desejo (de matar) do professor. Algumas escolas mais antenadas com os tempos modernos procuram falar sobre o assunto no horário de aula. O Colégio Lourenço Castanho, na Vila Nova Conceição, criou um conjunto de regras sobre todas as parafernálias eletrônicas, incluindo msn e orkut. O iPod é usado por 90% dos alunos do colégio, que podem ouvi-lo durante os intervalos. Alguns, inicialmente, ligavam o aparelho durante as aulas.
“O jovem vive com base no controle remoto. Ele consegue desligar tudo com rapidez. O iPod é uma maneira de ‘desligar’ o professor”, diz a coordenadora pedagógica do Lourenço Castanho, Rosemary Jimenez. Segundo pedagoga, ligar o aparelho na aula é também uma forma de transgredir regras sociais.
Sofia Olival, da 7ª e Gabriela Forjaz, da 8ª, tiveram sorte ao usarem o aparelho durante as aulas sem serem pegas em flagrante. Mas quem é pego ouvindo música durante a aula recebe advertência. A função, segundo Rosemary, é educar e não punir o aluno. “É importante educar o aluno para esta questão do público e do privado. A sala de aula é um ambiente público, ele não pode achar que tem mais privilégios do que o colega ao lado”, explica Rosemary. Fora da sala de aula, celular e iPod são liberados, mas educadores ainda vêem pontos negativos nisso. Usados de maneira isolada, os recursos de comunicação podem distanciar ainda mais os adolescentes uns dos outros. “Nesta fase delicada da vida, a convivência é natural e necessária ao desenvolvimento”, diz a coordenadora.
O colégio usa suas aulas de orientação educacional para discutir com os alunos o uso dos aparelhos nos momentos de convivência social. Alguns alunos, como Sofia, Gabriela, sua amiga Marjorie Samaha, da 7ª série, Carolina Guimarães, da 6ª e Felipe Moccia, da 8ª, dividem os fones com os amigos, o que diminui um pouco o isolamento social. Outros discutem músicas e bandas com os colegas.
No entanto, em alguns casos, o aluno pode estar querendo deixar aqueles fones de lado e se juntar à turma. “Se ele fica sozinho todos os intervalos, não se envolve em trabalhos, pode ser que os laços sociais estejam fracos”, diz Rosemary. Neste caso, o coordenadores entra em contato com a família. “Em muitos casos, pode ser apenas uma tristeza, mas em outros, pode indicar problemas na dinâmica familiar.”

JORNAL DA TARDE – 18/09/2006
Cara a cara 

Com Rosemary Jimenez, psicopedagoga 

Todos estes recursos de comunicação mais ajudam ou atrapalham a vida dos educadores?

Não há uma resposta específica para esta pergunta, depende da maneira como eles são usados. É impossível pensar na educação sem o computador. A internet faz parte do universo escolar. Por outro lado, o uso exagerado do iPod, por exemplo, pode levar o aluno ao isolamento social. E a educação perde sua chance de ocupar um importante lugar na sociedade.

Como vocês controlam o uso destes aparelhos?

Com regras e através das aulas de orientação educacional. Nelas, questionamos aos alunos o porquê do uso do iPod em um momento social. Ele pode estar se sentindo isolado, por exemplo.

Qual a intenção quando se passa uma advertência ao aluno pelo uso inadequado do celular?

Educá-lo para a convivência pública. Os outros alunos também gostariam de conversar com os pais dentro da sala de aula, por que só ele atende o celular? Ele precisa entender que não é o mais importante.

Qual o problema no uso de sites e programas como o orkut e o MSN?

Eles são bons para o aluno mais tímido, que se sente à vontade para conversar com outras pessoas. No entanto, o aluno precisa compreender o que significa ética. A tela do computador pode ser um esconderijo para pessoas que pretendem falar o que querem sem medir conseqüências. Sem contar o isolamento que ele pode ocasionar.

JORNAL DA TARDE – 18/09/2006
Estou pagando! 

Içami Tiba 

No interiorzão do Mato Grosso, soube que há aluninhos que já não obedecem os professores e 'mandam' neles terminando tudo dizendo estas últimas palavras: 'Estou pagando!' Mas isso ocorre em todo o Brasil, mesmo em São Paulo...
Nesta
frase existe um preconceito de superioridade, uma exigência e uma imensa falta de educação, de preparo para a vida. Hoje vou falar somente do preconceito da superioridade. Em qualquer lugar do mundo sempre vamos encontrar pessoas no mesmo nível, acima ou abaixo de nós. Depende do critério escolhido. O mais forte (rico, culto, famoso, etc) não pode se considerar superior ao mais fraco. Merece nossa admiração pelo seu desenvolvimento. Nada é de graça. Ao mais fraco, vamos ajudá-lo e ao igual vamos nos associar. São três os verbos do bem: admirar, ajudar e associar. Um aluninho não pode se sentir superior ao professor porque é mais rico do que ele. O pai dele é o rico, não ele. Ele já está demonstrando a tirania do poder. Se nada mudar, que tipo de cidadão será ele? O professor, em classe, está acima do aluninho, mas não lhe é superior. O aluninho está no nível abaixo que ele e nem por isso é inferior. Um existe em função do outro. Não existe aluno sem professor e vice versa. Assim como não existe rico se não houver pobre e vice-versa. O aluno vai para a escola porque precisa do professor. É neste critério que ambos tem de ser avaliados, e não deslocando para a área financeira. O grande problema é este deslocamento de critérios para usar o poder em benefício próprio. Um milionário morrendo afogado pode ser salvo por um bombeiro que é pobre. De nada adianta a riqueza toda no meio do afogamento?

JORNAL DA TARDE – 17/09/2006
Um belo projeto. No papel 

EDUCAÇÃO Pais e professores apontam falhas das Escolas de Tempo Integral, que atendem 149 mil estudantes em SP 

MARICI CAPITELLI

Em funcionamento desde o início do ano, as 508 Escolas de Tempo Integral de São Paulo deveriam oferecer às crianças atividades como computação, dança, línguas e oficinas pedagógicas. Mas isso só existe no papel. A realidade tem se mostrado repleta de problemas.
As Escolas de Tempo Integral, que ampliam o tempo de permanência do estudante na unidade, atendem 149 mil alunos. Pais e professores reclamam que a maioria deles fica ociosa, principalmente por causa da falta de estrutura.
'Essas escolas se transformaram em depósitos de crianças. Não oferecemos qualidade porque não há espaço e nem material para trabalhar', afirma uma professora da Zona Sul. Ela explica, por exemplo, que no seu colégio são cerca de 350 alunos para oito computadores. Na hora da comida, a garotada se espreme no pátio. 'A falta de espaço é absurda, o que acaba deixando as crianças irritadas. Os banheiros também são insuficientes.'
De acordo com professores, diante da falta de estrutura, a palavra de ordem é improvisar para cumprir o horário. As crianças de 1ª a 8ª séries, que participam do programa, estudam das 7h às 16h com uma hora de intervalo para almoço. A merenda ainda é alvo de reclamações. Escolas do Interior chegaram a sofrer ações do Ministério Público por causa da alimentação.
'Fazemos tudo improvisado e estamos longe de oferecer qualidade aos alunos', diz um professor de Educação Física da Zona Leste da Capital. A escola em que trabalha, por exemplo, não tem nem quadra.
O jeito é acomodar a criançada no pátio, que é pequeno. Como não dispõe de colchonetes, bambolês e outros materiais esportivos, ele ameniza o problema dando uma bola para os alunos. Com isso, as atividades esportivas se limitam a um bate-bola em local inadequado.
'Aliás, eles ficam o tempo todo no pátio brincando como se estivessem no quintal da casa. Se for para isso, não precisam ficar o dia todo na escola, onde deveriam estar aprendendo', diz a mãe de uma aluna da 3ª série da Escola Estadual Gabriela Mistral, na Zona Norte.
Fabiana da Silva Rocha, 25 anos, mãe de uma criança de nove anos na Escola Jardim das Oliveiras II, na Zona Leste, conta que nos primeiros dias de aula a filha chegou com a mão roxa e dolorida. 'Ela disse que estava ficando a tarde toda na sala copiando a lição. Não tinha outra coisa para fazer', afirma. Depois do episódio, Fabiana conversou com os educadores para que a menina só cursasse o período normal das aulas e voltasse para casa à tarde.
O promotor de Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos da Infância e da Juventude, Motauri Ciocchetti de Souza, tem recebido reclamações das escolas que funcionam nesse sistema. 'Estamos acompanhando a implantação e conversando com os diretores das unidades para resolver os problemas.'
Apesar das falhas do programa, os profissionais de educação, pais e Ministério Público são unânimes em afirmar que a proposta é ótima - desde que seja implantada como foi prometido pela Secretaria Estadual de Educação, em dezembro do ano passado.

Dificuldade de interpretação

Luiz Cândido Rodrigues, coordenador de Ensino da Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo, acredita que existe dificuldade de interpretação dos pais em relação ao projeto.
'A proposta é, justamente, que as oficinas pedagógicas sejam muito diferentes das atividades em sala de aula. Muitas vezes, a criança está participando de uma oficina de matemática através de um jogo e os pais não têm essa compreensão. Eles acham que elas ficaram apenas jogando', afirma.
Com relação à falta de material, ele informa que, ainda neste ano, as escolas deverão receber 4 mil novos computadores. Diz que 97% dos colégios terão quadras cobertas e o processo já está em licitação.
De acordo com Rodrigues, as escolas já receberam uma parcela de R$ 4 a 7 mil, dependendo do tamanho da unidade, para a compra de material de trabalho. 'Em outubro, vão receber um pouquinho mais para adquirir o que for necessário.'

Aula integral rende transferência 

Neste ano, o desempenho escolar de Beatriz, de 8 anos, despencou. Segundo a mãe, Maria Isabel da Silva Condo (foto), a garota só chorava e dizia que estava cansada de ficar só na sala de aula. Outro problema é que a menina chegava faminta da escola. Quando começou acompanhar a situação de perto, ela descobriu que as crianças ficavam na classe todo o período integral. Com o passar do tempo, Maria Isabel começou a receber bilhetes das professoras que davam conta do péssimo rendimento de sua filha no colégio integral. Como a situação ficou insustentável, a única solução foi a transferência de colégio. Hoje, na nova escola, Beatriz voltou a ser uma boa aluna.

Três perguntas a Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente em exercício da Apeoesp

Qual a avaliação da Escola em Tempo Integral?

Foi um projeto que começou muito mais na linha do marketing. Não adianta um trabalho sem estrutura. Além disso, é uma contradição quando estamos justamente discutindo a necessidade de aulas aos sábados para as escolas de três turnos que não conseguem cumprir a carga horária.
Não existe também a garantia do professor de ter uma jornada única para poder acompanhar todas as etapas do trabalho como merece.

Como estão sendo desenvolvidas as atividades propostas?

Elas estão descoladas de todo o projeto porque não existe estrutura para que possam ser desenvolvidas no contexto. Na verdade, só acontecem para cumprir as horas mas sem a qualidade necessária. É um depósito de criança como esses que criticamos nas creches.

Quais os rumos que esperam para o projeto?

Esperamos uma revisão imediata, o que não quer dizer suspensão. Podemos discutir, por exemplo, porque não flexibilizar o horário?
Se as crianças passam o dia na escola, porque não intercalar as atividades extras em vez de deixá-las todas para o período da tarde, o que não deixaria as crianças tão cansadas?
Não podemos esquecer que tivemos em São Paulo uma experiência interessante no que se refere a educação integral. Foram os CEUs (Centros de Educação Unificados) mas que agora estão fragmentados. Enfim, não é possível fazer uma escola de período integral com uma estrutura de 500 anos atrás.

JORNAL DA TARDE – 17/09/2006
Mapeando a comunidade 

MARIA REHDER 

Em vez do uso do “velho” atlas para o entendimento dos mapas nas aulas de cartografia, o JT, em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação (NCE/USP), coordenado pelo professor Ismar de Oliveira Soares, traz uma sugestão de atividade que permite a leitura e a produção de mapas nas aulas de Geografia por meio de foto de satélites disponíveis gratuitamente nos sites www.googlemaps.com e www.googleearth.com
Esta atividade, para alunos de 8ª série do Ensino Fundamental, foi elaborada pela professora Regina Araújo de Almeida, vice-coordenadora do Laboratório de Ensino e Material Didático (Lemadi) do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, e Waldirene Ribeiro do Carmo, mestranda em Geografia Física, técnica do Lemadi.

INTRODUÇÃO

Os mapas nesses sites oferecem ao professor de Geografia a oportunidade de motivar seus alunos a reconhecer, por meio de imagens de satélite, o seu pequeno mundo, a escola, as suas casas, os diferentes estabelecimentos não só do bairro, mas de toda a cidade em que moram. Tais lugares, muitas vezes considerados sem grande importância, tornam-se ainda mais especiais quando inseridos no contexto do Planeta. Por outro lado, a mesma tecnologia mostra como fica fácil a construção e a leitura de mapas dos lugares onde os alunos vivem.

ATIVIDADE

Esta atividade deve ser realizada em três aulas, sendo duas utilizadas para iniciar ou rever com os alunos conceitos que servirão de base para a interpretação das imagens de satélite possibilitando, em seguida, a construção de mapas.

ESCALA

1ª aula: o conceito inicial trabalhado é a escala - relação entre o tamanho dos elementos na realidade e o tamanho equivalente no desenho, e os cálculos básicos para trabalhar o conceito presente nos mapas.
Divida os alunos em equipes de 5 pessoas. Com uma trena, cada grupo vai medir a sala de aula.
Em seguida, cada grupo vai fazer um desenho, utilizando uma escala que possibilite a redução dos elementos da sala em um papel. Uma classe de 10 m de largura, por exemplo, precisa ser reduzida pelo menos 50 vezes, ou seja, uma escala 1:50.
Mostre aos alunos um globo terrestre para explicar o que são as coordenadas geográficas que determinam a latitude e a longitude, permitindo, desta forma, a localização de qualquer ponto no Planeta. Ajude-os a imaginar em que escala está esse globo, perguntando quantas vezes é preciso diminuir o Planeta, com 40.075 km de diâmetro, para se chegar ao tamanho do globo que está sendo mostrado.

LEITURA

2ª aula: o professor já pode trabalhar os conceitos de visão frontal, oblíqua e vertical. Peça aos alunos para fotografarem a entrada da escola “de frente” e de outros ângulos e distâncias. Se houver um lugar alto para fotografar a escola, aproveite. Ressalte que a visão vertical “de cima”é a que se aproxima das imagens de satélite e dos mapas. Com o apoio de uma bússola peça aos alunos que descubram em que direção está o centro da cidade. Aproveite para desenhar uma rosa dos ventos no mapa.

LOCALIZAÇÃO

3ª aula: atividade na sala de informática - com o uso do Google Maps / Earth, peça para grupos de 3 a 4 alunos localizarem a América do Sul, o Brasil, São Paulo e o seu bairro. Será preciso fazer um “passeio” descobrindo os pontos de referência próximos da escola.
Inicie a atividade localizando pontos importantes e visíveis, como o Estádio do Morumbi, por exemplo. Peça para os alunos observarem a escala das imagens e as coordenadas de cada ponto de referência. Encontrada a escola, imprima essa página para cada grupo de alunos.

PRODUÇÃO

Munidos da imagem de satélite, os grupos deverão construir um mapa da escola.
Peça para os alunos copiarem os pontos mais importantes da imagem (a escola, as ruas próximas, a praça) em um papel de seda. Em seguida, os alunos devem escolher os elementos a serem representados, criar uma legenda com símbolos para que possam desenhar o mapa em uma folha de cartolina.
A tarefa final será a construção de um mapa de suas casas. Sugira aos alunos que repitam o exercício anterior usando a sua casa como ponto geográfico, trazendo o mapa construído em casa para os colegas verem.
Equipe de consultoria educomunicativa: Débora Menezes, Izabel Leão e Salete Soares. 

JORNAL DA TARDE – 17/09/2006
NOTAS

Professores trocam experiência no CCBB 

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) está com as inscrições abertas para os professores interessados em relatar suas experiências de aula no encontro Diálogos e Reflexões com Educadores, que será realizado no dia 7 de outubro, a partir das 10h. Serão selecionados 14 experiências e cada professor terá 20 minutos para apresentação. As inscrições devem ser feitas até 2 de outubro pelo e-mail:aeproducoes@gmail.com

Madeira será tema de oficina para professor 

A Estação Ciência vai realizar no dia 7 de outubro a Oficina Anatomia da Madeira, que propõe aos participantes a identificação de características anatômicas da madeira. Direcionada a professores, a oficina é gratuita e terá atividades que podem ser feitas em classe, tornando as aulas mais interativas, utilizando materiais reaproveitados de jardins e marcenarias. (www.eciencia.usp.br)

Site da ‘NovaEscola’ traz aulas do ‘JT’ 

Os professores têm acesso a todos os planos de aula publicados pelo JT, em parceria com o Núcleo de Comunicação e Educação da USP, por meio do site da Revista Nova Escola :www.novaescola.org.br, que traz várias sugestões de atividades elaboradas por educadores. Agora, as edições da Revista Nova Escola também contam com um caderno especial com sugestões de atividades para a educação infantil.

Sesc realiza palestras sobre o universo 

A professora Monica Grady realizará 4 palestras gratuitas no Sesc Pinheiro sobre os mistérios do universo. No dia 20/9, às 10h, ‘Ligando os Motores - O Universo’ e às14h, ‘Explorando o Sistema Solar’. No dia 21/9, às 10h, ‘Em Rota de Colisão’ e às 14h ‘Tem alguém aí? Vida Extraterrestre’. Insformações: 11-3094-9400.

JORNAL DA TARDE – 16/09/2006
Boa gestão destaca Emei da Vila Prudente 

MARIA REHDER 

Uma equipe comprometida com a avaliação detalhada, a tabulação e o retorno de centenas de pesquisas de opinião. Por incrível que pareça, essas características, em vez de serem atribuídas aos executivos de marketing ou recursos humanos de grandes empresas, referem-se à equipe pedagógica da Emei Maria Luiza Moretti Gentile, localizada nas proximidades das favelas da Vila Prudente, Zona Leste.
A reportagem do JT, ao visitar na semana passada esta escola de educação infantil, que conta com mais de 480 alunos de 3 a 6 anos, pôde constatar na prática os resultados de uma boa gestão, pois além do espaço limpíssimo, enfeitado com materiais artísticos produzidos pelos alunos, a baixíssima rotatividade de profissionais chamou a atenção. 'Participei do processo de matrícula dos primeiros alunos desta escola', afirma a assistente de direção, Mônica Amoroso, que trabalha na Emei há 10 anos.
A diretora da escola, Margarete Barreiras, que atua ali há mais de 5 anos, explica que os professores só deixam a escola em caso de mudanças ou imprevistos. 'Por ter um projeto consolidado, os profissionais optam por dar aulas nesta Emei. '
É o que confirmou a professora Ana Paula da Silva, enquanto dava aula aos pequenos, ao som de música clássica, em uma sala de artes recém-criada pela equipe da escola, que aproveitou o canto do refeitório para criar um espaço especial composto por mesinhas e armários onde os alunos podem usar à vontade os materiais artísticos. 'Aqui é um lugar perfeito para se trabalhar. Estou aqui há 5 anos e não pretendo sair tão cedo, pois a equipe é muito envolvida.'

Pesquisa de opinião

A coordenadora pedagógica Magali Genga, que atua na Emei há 9 anos, conta que desde o início a escola realiza pesquisas de opinião semestrais com familiares de alunos, funcionários e com as próprias crianças. 'Nos unimos para responder as pesquisas dos pais e dos pequenos, que é realizada em aula. Os resultados são tabulados para discussão nas reuniões de pais.'
A diretora Margarete afirma que a gestão pedagógica e administrativa da Emei é baseada na participação de todos. 'Outro dia uma mãe disse não gostar do fato de a professora de seu filho não acompanhar a sua turma nos passeios. No entanto, ela não sabia que a professora dava aula em outra escola. Depois disso, ao divulgar os passeios, passamos a dar ênfase na informação sobre os acompanhantes.'
Vale a pena destacar que muitos alunos matriculados na Emei são de família de baixa renda. 'Fazemos questão de que nosso espaço seja belo, alegre, pois alguns alunos não vivem esta realidade em casa', diz.
Segundo Maria Luiza de Oliveira, mãe de Amanda, 10 anos, e Juliana, 6, mesmo quando suas filhas saírem da Emei, ela continuará atuando ali. 'Quando estava grávida da minha segunda filha fui convidada a participar do conselho da Emei. Meu marido achou que eu não daria conta, mas me envolvi tanto que não quero mais sair.'
Maria Luiza diz que, além de ser importante para o bom desempenho de suas filhas, a sua proximidade com a escola atrai outros familiares. 'Muitas mães falam comigo no portão da escola e eu levo as informações para a coordenação, onde debatemos tudo, desde festas a decisões administrativas.'

Feira também é ferramenta pedagógica 

A diretora da Emei Maria Luiza Moretti Gentile, Margarete Barreiras, diz que os professores, já no início do ano, escolhem a capacitação que vão receber. 'Neste ano eles optaram por estudar a matemática para educação infantil.'
Margarete cita os passeios escolares à feira da comunidade local como um bom exemplo de como a matemática pode ser trabalhada com alunos de 3 a 6 anos. 'Dias antes do passeio os professores realizam uma atividade de poupança com os alunos, que trazem algumas moedinhas. Assim, eles criam o hábito de ter o contato com o dinheiro, aprendem a contar e desenvolvem o raciocínio matemático.'
Durante o passeio, a diretora explica que as crianças se divertem ao conversar com os feirantes, realizam suas compras e até guardam um dinheirinho para comprar pastel. 'A atividade não acaba por aí. Com os ingredientes comprados pelos alunos, os professores trabalham o consumo consciente por meio dos temas desperdício e nutrição. Os alunos ajudam as merendeiras e as professoras a prepararem suas refeições', afirma a diretora Margarete.

JORNAL DA TARDE – 16/09/2006
NOTAS

REFORÇO GRATUITO 

A Universidade São Marcos realizará no dia 23 de setembro, das 8h às 11h45, aula gratuita de reforço de matemática para vestibulandos. As inscrições devem ser feitas no site www.smarcos.br.

CAPACITAÇÃO 

A Fundação Orsa vai promover a capacitação gratuita para educadores para a confecção de brinquedos artesanais. As inscrições devem ser feitas por e-mail: wcsantana@fundacaoorsa.org.br.

CONCURSO DE CORAIS 

O Concurso de Corais Infanto-Juvenis do Centro do Professorado Paulista acontecerá de 19 a 22 de setembro, às 14h, com entrada franca. Endereço: Av. Liberdade, 928. Informações: (11) 3340-0509

ELEIÇÕES NA ESCOLA 

A Associação Paulista de Magistrados lança a versão infantil da cartilha 'Operação Eleições Limpas', com histórias do Menino Maluquinho. A cartilha pode ser solicitada no site www.amb.com.br

INCLUSÃO 

A Editora Scipione, por meio do site www.scipione.com.br/igualdade, abre espaço para que os professores de todo o País troquem experiências sobre educação inclusiva.

JORNAL DA TARDE – 15/09/2006
Movimento luta por mais verba para a educação 

MARIA REHDER 

Inverter a lógica do investimento mínimo anual realizado pelo governo federal em educação básica. Esta é a proposta defendida pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, movimento que reúne mais de 120 instituições, incluindo ONGs, sindicatos, universidades, secretários de Educação e organizações estudantis de todo o Brasil.
O movimento - que surgiu em 1998 com o objetivo de efetivar os direitos educacionais garantidos na lei por meio da mobilização social - foi responsável pela elaboração do Custo Aluno Qualidade (CAQ): um estudo realizado por especialistas em educação ao longo dos últimos três anos, cujo resultado determina o quanto é preciso ser investido pelo governo federal por aluno de cada nível e modalidade da educação básica.
Hoje, o governo federal investe anualmente o equivalente a 3,5% do PIB em educação básica e a lei estabelece um valor de investimento baseado nos recursos financeiros disponíveis dividido pelo número de alunos matriculados. 'Em vez de programas educacionais criados de acordo com a verba disponível, o CAQ defende que o investimento do governo federal em educação básica deva ser calculado com base em um custo mínimo por aluno, o que garantiria um ensino público de qualidade', afirma José Marcelino Pinto, especialista em financiamentos da educação da USP de Ribeirão Preto, responsável pela elaboração do estudo.
Segundo José Marcelino, o CAQ define para o 1º ciclo do Ensino Fundamental um custo mínimo anual por aluno de cerca de R$1,7 mil, valor que inclui os custos fixados de diferentes gastos da escola. 'Por exemplo, defendemos a criação de um piso salarial nacional para os funcionários das escolas de acordo com o seu nível de formação. Para os que têm nível médio de ensino, definimos piso de R$ 1 mil para jornada de 40 horas. Já para os que têm ensino superior, R$ 1,5 mil.'
No entanto, o especialista ressalta que o CAQ não é apenas uma luta em prol da valorização salarial e explica que o estudo visa ao desenvolvimento do aluno com base no custo mínimo para um ensino de qualidade, o que inclui valorização dos profissionais, investimentos em infra-estrutura, materiais e até mesmo criação de novos cargos. 'Defendemos, por exemplo, a contratação de um bibliotecário com nível superior para que as salas de leitura e bibliotecas funcionem de fato.'
Outra proposta do CAQ é um custo mínimo para o desenvolvimento de projetos pedagógicos especiais. 'O investimento anual de R$ 100 para cada aluno matriculado seria destinado para a criação desses projetos. Por exemplo, uma escola com mil alunos teria R$ 100 mil anuais para o desenvolvimento e gestão desses projetos', explica.
De acordo com Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, se o cálculo proposto no CAQ fosse adotado pelo governo federal, o investimento anual em educação básica teria de saltar dos atuais 3,5% do PIB para cerca de 4,6%. 'Em breve lançaremos uma publicação do CAQ, pois queremos que toda a sociedade tenha acesso às propostas.' O site www.campanhaeducacao.org.br traz informações sobre o projeto.

Custo por aluno gera polêmica 

Para Maria José Andrade, diretora da Escola Estadual Professora Hermínia de Andrade Pfuhl Neves, na Zona Leste, a proposta de cálculo apontada pelo Custo Aluno Qualidade (CAQ) traria melhorias para as escolas públicas. 'Se conseguissem fazer com que a verba do projeto não fosse desviada, o CAQ seria um sucesso.'
A diretora destaca que a criação de um piso salarial com base na formação do funcionário seria um incentivo à profissionalização. 'Ao saber que com mais especialização seu salário será aumentado, com certeza os profissionais da rede investiriam em plano de carreira.'
Já Adelson Cavalcanti, presidente em exercício do Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem), afirma que a proposta do CAQ é boa, mas acredita que a definição de um piso salarial nacional estagnaria as possibilidades de valorização dos educadores. 'É preciso avaliar os diferentes contextos em que as escolas estão inseridas. A regionalidade deve ser levada em conta na implementação de um projeto como esse.'
Para Ilona Becskeházy, diretora-executiva da Fundação Lemann, antes de criar qualquer proposta de investimento, é preciso reestruturar o sistema educacional do País. 'O ideal seria que a rede pública de ensino adotasse um plano de remuneração com base na avaliação de desempenho de seus profissionais. A implementação de uma boa política de valorização não precisa esperar a aprovação de um aumento de investimento.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 18/09/2006
NOTAS

País terá evento de alimentação escolar 

NUTRIÇÃO 

Devido ao seu programa de alimentação escolar, que fornece refeições em toda a rede pública, o Brasil foi escolhido para sediar, em outubro do ano que vem, o 3.º Congresso Internacional de Alimentação Escolar para América Latina, promovido pela Red de Alimentación Escolar para América Latina (La-Rae). O objetivo é que o Brasil forneça consultoria a outros países.

Curso ensina a contar histórias infantis 

ARTE-EDUCAÇÃO 

O arte-educador Giuliano Tierno está com as inscrições abertas para o workshop “A Arte de Contar Histórias”, no sábado. O curso é voltado para pedagogos, educadores, voluntários de entidades filantrópicas que trabalham com crianças e até mesmo pais. A aula enfoca a importância das memórias auditiva e visual e de como usá-las no ensino. Informações: (0xx11) 5535-4373.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 18/09/2006
Mais universitários estudam fora. Mas total ainda é pequeno 

Segundo relatório da OCDE já são 20 mil os estudantes fora, mas só 0,8% do total mundial 

Jamil Chade, Renata Cafardo 

O número de universitários brasileiros que estudam no exterior passou de 11 mil para 20 mil nos últimos anos, segundo relatório divulgado na semana passada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O total, no entanto, representa apenas 0,8% dos 2,7 milhões de jovens do mundo todo que estão estudando fora de seus países. E 0,5% da quantidade de alunos de graduação e pós no Brasil, que chegam a 4 milhões.
Mas os números mundiais vem crescendo, segundo o relatório da OCDE. Na década, o aumento na quantidade de estudantes em universidades estrangeiras foi de 41%. Em apenas 30 anos, a quantidade de alunos vivendo no exterior no mundo foi multiplicada por cinco.
Segundo especialistas, a globalização e as políticas de incentivo à internacionalização das universidades em todo o mundo são as principais razões da mudança. Vários governos contam com programas de estímulo aos intercâmbios, principalmente os que fazem parte da União Européia.Nos últimos anos, eles têm fechado alianças entre países ou universidades e acordos de cooperação permitem que créditos sejam reconhecidos de uma instituição para outra. Fala-se também em currículos comuns.
Além disso, universidades americanas, que tradicionalmente davam prioridade aos alunos de seu país, têm partido em busca de estudantes fora. A Harvard abriu neste ano um escritório no Brasil e a Yale organiza eventos de apresentação da instituição.

ASIÁTICOS PELO MUNDO

Segundo a OCDE, os jovens que mais viajam para estudar são os asiáticos, representando 45% do total. Eles são chineses, indianos e japoneses, principalmente. Outros 25% de todos os estudantes fora de seus países são europeus, seguidos pelos africanos, com 12%. A América do Sul vem em último lugar, com apenas 6%.
Nas instituições brasileiras, a internacionalização do ensino cresceu nos últimos cinco anos. A Universidade de São Paulo (USP) tem atualmente cerca de 250 convênios com instituições de ensino estrangeiras, para intercâmbio de estudantes. “Há universidades que inclusive pagam bolsas para nosso alunos estudarem por um tempo lá”, diz o presidente da Comissão de Cooperação Internacional da USP, Adnei Melges de Andrade.
Daniela Bezerra da Silva, de 20 anos, foi para a Universidade do Texas nessas condições. “Cursei tudo que sabia que não poderia fazer no Brasil, de mergulho a música”, diz ela, que estudava Ciências Sociais na USP quando ingressou no programa. As disciplinas feitas lá serão válidas na instituição brasileira.
Outra ajuda pôde ser notada na pós-graduação. O número de bolsas concedidas a estudantes de mestrado e doutorado que querem estudar no exterior cresceu mais de três vezes nos últimos anos. Eram 603 em 1996 e agora são 2.093. O diretor de Avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC), Renato Janine Ribeiro, no entanto, diz que os brasileiros precisam ficar atentos à qualidade dos cursos lá fora. Há os que se deixam iludir apenas pelo status de estudar no exterior. “Não basta o título pelo título.” Tanto os diplomas de graduação quanto os de pós precisam ser revalidados por universidades brasileiras.
Talita Nader, de Campinas, fez vestibular no Brasil e, assim que terminou o ensino médio, mudou-se para Friburgo, na Suíça, para começar seu curso de Direito. “Era a primeira vez que saía do Brasil. Tinha muita vontade de viver outra realidade”, disse. Seu curso termina em 2009 e ela não sabe se voltará ao Brasil.
Já Mireli Barreto Antun, de 28 anos, está na fase final de seu mestrado na Suíça, depois de dois anos na Universidade de Genebra. Ela já conseguiu um trabalho para permanecer na Europa. “Foi importante ter uma experiência de vida no exterior.” Seu objetivo era voltar ao País, mas acabou descobrindo novas oportunidades.

IMPORTÂNCIA DO INGLÊS

De acordo com o levantamento, o destino preferido dos estudantes ainda é os Estados Unidos, com 22% das opções. O Reino Unido vem em segundo lugar, com 11%. As universidades americanas, porém, estão perdendo espaço nos últimos anos, principalmente diante das políticas mais duras de imigração. O resultado tem sido o surgimento de novos destinos, como Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. O Brasil atrai menos de 1% dos estudantes internacionais.
Para a OCDE, um fator que pesa de forma considerável na escolha de uma universidade é a língua. Parte da opção por EUA e outros se explica pelo ensino em inglês. Entre os brasileiros, as universidades americanas atraem mais de 35% dos universitários. Portugal vem em segundo lugar, com 11,4%, seguido pela França, com 8%, e Reino Unido com 5%.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 18/09/2006
Jovens querem aulas de ética, mostra pesquisa 

Estudo aponta vontade de discutir cidadania e política 

Pesquisa realizada com jovens de seis capitais brasileiras mostra que eles gostariam de ter aprendido ética na escola. O estudo qualitativo - feito por meio de entrevistas aprofundadas e não questionários com resultados numéricos - teve o objetivo de analisar a percepção do grupo sobre cidadania e política. Muitos dos entrevistados falaram da inexistência de espaços para discussão dessas questões, o que, segundo eles, acaba ocorrendo somente em casa.
“A
escola é um espaço excelente para discutir ética, porque ela é o primeiro e um dos mais importantes locais de convivência da criança”, diz coordenadora pedagógica da Escola Cidade Jardim/Play Pen, Gabriela Argolo. Há dois anos, esse trabalho é feito na instituição por meio de debates sobre os problemas do dia-a-dia dos alunos.
Os assuntos são propostos pelos próprios estudantes e podem ser algo como o uso inadequado dos banheiros, o sumiço de uma bola ou a fofoca que surge no recreio. “Com muita discussão, e com a ajuda dos professores, eles passam da queixa para a transformação”, explica Gabriela. “O princípio básico é a coletividade e o respeito ao outro.”
A aluna da Escola da Vila Olívia Gonçalves Pereira, de 13 anos, lembra de uma discussão sobre o roubo de uma caneta em sala de aula. “Tem gente que achava normal só porque não era algo de valor”, conta. No colégio, assembléias quinzenais também são realizadas pelos alunos de 1ª a 8ª série, que terminam com regras determinadas por eles mesmos. Antes da atividade, eles completam as três frases no painel que dão origem aos debates: “eu critico...”, “eu felicito...” e “eu gostaria de discutir...”.
“Os alunos refletem o que é certo e o que é errado e para quem é certo e errado. Essa é a vivência da ética”, diz a diretora da Escola da Vila, Sônia Barreira. O mesmo ocorre na Prima-Escola Montessori, que ensina crianças a partir de 1 ano a tirar o prato depois do lanche e arrumar a mesa em que brincou. As crianças também são orientadas a não invadir o espaço do colega e a escolher as brincadeiras de que vão participar. “Elas interiorizam um conceito com pequenas ações”, diz a diretora Maria Angelina Franceschini Brandão. A ética também é discutida nas aulas de filosofia, que começam aos 7 anos.
A pesquisa com os jovens foi realizada pela Voltage, uma empresa especializada no estudo e aplicação de tendências comportamentais. As entrevistas foram feitas em julho, pela internet, com cerca de 30 pessoas, entre 18 e 28 anos. Elas fazem parte de uma rede de jovens freqüentemente conectada à empresa e que a ajuda a detectar novidades em setores como moda, cinema, cultura, entre outras. “Eles têm consciência de que não são tão bons cidadãos e queriam ter mais exemplos práticos”, diz a psicóloga da Voltage, Camila Toledo Piza, que analisou a pesquisa.
“Estudar ética na escola é tão importante quanto português e matemática. O período escolar é justamente quando estamos formando nosso caráter”, diz Evandro Negrão de Lima Junior, de 24 anos, que participou da pesquisa.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 17/09/2006
Na escola, aulas para ter boas maneiras 

Cansados de alunos sem modos, colégios ensinam regras de convivência 

Simone Iwasso 

Cansados de alunos malcriados, colégios de São Paulo começam a oferecer aulas de boas maneiras para ensinar regras de convivência para as crianças. Entenda-se por isso não somente instruí-las sobre como segurar guardanapos e talheres, mas dar noções bem mais básicas de educação, como acostumá-las a dizer ‘obrigado’ e ‘por favor’, pedir licença, não passar na frente na fila, oferecer o lanche para o colega, sentar-se corretamente na cadeira e não mastigar de boca aberta, por exemplo.
Educadores justificam o tempo gasto com esses ensinamentos como necessidade de preencher lacunas deixadas pela família. Pais e mães consideram a iniciativa boa, porque lhes desobriga de serem rígidos com as crianças nos poucos momentos que ficam juntos. Especialistas, no entanto, afirmam que passar regras de convivência não é tarefa da escola e sim parte da formação que deve ser ensinada em casa, tendo o comportamento familiar como exemplo.
“A gente percebe que as crianças são muito malcriadas. Não têm noções mínimas de convivência social”, afirma a professora Maria Grupi, que criou um curso de etiqueta para crianças a partir de 4 anos na Escola de Educação Infantil Ponto Omega, no Jardim Paulistano, após fazer uma reunião com os pais dos alunos. “Hoje em dia, as crianças são criadas por babás e pelos colégios. Os pais chegam tarde em casa e não querem se desgastar com os filhos. Acabam mais condescendentes e deixam essa educação em segundo plano.”
No Colégio Mackenzie, por exemplo, os ensinamentos são concentrados nas duas primeiras séries do ensino fundamental, em algumas aulas, com jogos e livros paradidáticos nos quais os protagonistas enfrentam situações sociais, como receber amigos para um chá. “Tem crianças que até chegam com essas noções de casa, mas você precisa trabalhar isso na escola também, porque é o espaço onde elas começam a conviver mais e as dificuldades aparecem”, explica Anaqueila de Barros, orientadora pedagógica de educação infantil do colégio.
O Santa Maria, em Santo Amaro, e o Porto Seguro também são exemplos de escolas que aplicam essas regras de boas maneiras em algumas aulas. “São hábitos importantes que devem ser adquiridos na infância”, diz Suely Gomes, orientadora do Santa Maria.
No Colégio Pentágono, a preocupação aparece como atividade extracurricular. Em colégios como o Dante Alighieri, professores especialistas em bom comportamento também já foram levados para dar palestras e aulas extracurriculares para os pequenos.
Basicamente, as aulas impõem limites e ensinam a cumprimentar pessoas, como familiares, professores ou colegas, a agradecer na hora de ganhar um presente, a pedir licença para entrar na casa dos amigos e não apoiar os braços na mesa. Também ensina a não gritar para pedir alguma coisa, desligar os celulares em certas ocasiões e não jogar lixo pela janela do carro. Ou seja, tudo que sempre foi responsabilidade dos pais - e que as crianças aprendem a partir de seu comportamento.
Mas, pela resposta das famílias, não tem sido mais assim. “A gente tem pouco tempo e a escola ocupa um papel grande demais na vida deles. No fim de semana, tem mais condição de fazer, mas meio que deixa, não quer ser tão rígido”, conta a publicitária Ana Maria Zacarias, mãe de Gustavo, de 5 anos. “Vejo que ele está sendo cuidado lá. Quando a irmãzinha menor espirra, ele fala para ela colocar a mãozinha na frente.”
Além das poucas horas com os filhos, a joalheira Lídia Sayeg diz que optou por um curso desse tipo para a filha, Jéssica, por considerar que ela ouviria mais se aprendesse com um profissional, em um curso, do que na própria casa. “Eles ouvem mais num ambiente escolar. Não adiantava eu dizer para lavar as mãos antes das refeições que ela não ia ligar. Agora, ela aprendeu e é um modelo”, conta.
Essa tranqüilidade dos pais e a argumentação da falta de tempo e autoridade não podem ser desculpas para a omissão, alerta a psicóloga Suely Guimarães, especialista em psicologia do desenvolvimento da Universidade de Brasília (UnB). “A criança aprende por imitação no convívio, não só com regras explícitas colocadas”, diz.
No entanto, esse não é o maior problema apontado pela psicóloga: “Quando a criança chega até a escola sem isso, significa que a família não está sendo mais modelo. A conseqüência dessa educação frouxa dos pais, com medo de serem chatos, é que a criança cresce achando que não tem regra”.
A psicopedagoga Irene Maluf, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, afirma que esse comportamento assusta e preocupa. “Surpreende que isso aconteça com famílias de classe média e alta, que pagam colégios caros. O que são essas regras de etiqueta que os pais não estão ensinando? São normas que dizem respeito aos limites que você tem de ter com a outra pessoa, que os pais estão esquecendo.”
Segundo ela, ao conversar com educadores, é fácil perceber o problema. “As escolas tomaram a iniciativa porque ninguém mais agüenta a falta de educação das crianças. Os pais deveriam ver isso como um alerta e não como mais uma responsabilidade delegada.”

Curso adapta regras de executivos para crianças 

Além do que é oferecido em termos de boas maneiras por alguns colégios, há também cursos de etiqueta dados por consultorias, que ministram aulas para adultos e executivos. Ali, as crianças aprendem uma versão resumida - sem os capítulos sobre regras no trabalho e bebidas, por exemplo - de um curso regular.
Isso inclui saudações, como se comportar em festas, em recepções, em jantares, como colocar uma mesa, usar diversos tipos de talheres e copos, responder convites e enviar cartões. Os pequenos também aprendem o que quer dizer traje social, traje esportivo, a rigor. De maneira geral, um tipo de conhecimento mais específico, além das regras de bom comportamento que as escolas tentam passar aos alunos.
Nessas aulas, dadas em um ou dois dias, pais e mães gastam cerca de R$ 350 - preço que inclui uma apostila e um almoço no qual colocam em prática o que aprenderam.

DEMANDA DOS ADULTOS

Segundo Albertina Costa Ruiz, professora de etiqueta e co-autora do livro Não Fale de Boca Cheia (editora Mundo Cristão, 47 páginas, R$ 19), que trata de bons modos para crianças, as aulas surgiram para atender a uma demanda dos adultos. “Principalmente os executivos nos perguntavam se não podíamos ensinar algumas coisas para seus filhos. Regras que eles mesmos não sabiam.”
“A gente adapta tudo para a linguagem deles, para que eles compreendam”, afirma Lígia Marques, uma das primeiras a oferecer esses cursos para criança. “Alguns resistem um pouco. Outros gostam de cara, principalmente as meninas.” S.I.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 16/09/2006
Cai desigualdade social, mas cresce trabalho infantil no País 

Levantamento do IBGE mostra também que brasileiro tem mais acesso a telefone do que a rede de esgoto

Irany Tereza, Karine Rodrigues

O retrato de três anos do governo Lula revela algumas imagens surpreendentemente negativas, como o aumento do trabalho infantil, o primeiro desde 1992, e o recuo do rendimento real do trabalho, que na média ficou em R$ 781 -13% mais baixo do que o valor médio dos oito anos do governo Fernando Henrique, R$ 898. Mostra, também, dados positivos, como a aceleração no ritmo de redução da desigualdade social e o crescimento no nível de ocupação. Na análise de um período maior, de dez anos, também houve evolução na educação: subiu a média de anos de estudo, aumentou o ingresso na escola e caiu a taxa de analfabetismo, de 14,7% para 10,2%.
Estes são alguns dos dados apresentados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2005 (Pnad), o mais completo levantamento socioeconômico feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 'Houve avanços nos últimos dez anos, mas a velocidade de melhoria de alguns indicadores é lenta para as necessidades do País', avalia o presidente do IBGE, Eduardo Nunes.
O estudo, repetido a cada ano, mostra que o brasileiro vive hoje a esdrúxula situação de ter mais acesso a telefone (71,6% dos domicílios) do que a rede de esgoto sanitário (69,7%). A inversão da prioridade na prestação dos serviços é resultado direto, por um lado, da privatização da operação de telefonia e a conseqüente universalização do atendimento; por outro, da demora na definição do marco regulatório para o setor de saneamento básico.
Pela primeira vez, o número de residências onde existe apenas telefone celular é maior do que o de dotadas de linha fixa. O Brasil também entrou definitivamente na era da internet pelas mãos das crianças e adolescentes - a grande massa nacional de internautas. Mas o acesso ainda é bastante limitado às classes de renda e de instrução mais alta.
A pressão feminina no ingresso ao mercado de trabalho está alterando o nível de ocupação e contribuindo para a redução gradual da desigualdade. Movido pelos programas de transferência de renda, o País está menos desigual, mas não de forma homogênea - a desigualdade aumentou em São Paulo e caiu de forma substancial no Maranhão, por exemplo.
A taxa de pessoas que não sabem ler nem escrever caiu lentamente desde o início do governo Lula - apenas 0,5 ponto porcentual, atingindo 10,2%. E há 38 milhões de brasileiros com menos de quatro anos de instrução.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 16/09/2006
Biblioteca Mário de Andrade terá verba para acervo 

No Rio, recursos do BNDES vão para equipamentos de segurança 

A Biblioteca Mário de Andrade, de São Paulo, vai receber R$ 400 mil do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para recuperar seu acervo de jornais antigos. A instituição pretende fazer a microfilmagem dos cerca de 10 milhões de exemplares, alguns lançados durante a época da Província de São Paulo.
O repasse do BNDES faz parte do programa de Apoio à Preservação de Acervos, que destinará R$ 5,4 milhões para 20 instituições do País. Outras três instituições paulistas também serão contempladas (Instituto Butantan, Fundação Santos Dumont e Arquivo Histórico Félix Guisard Filho, de Taubaté).
No Rio de Janeiro, a Chácara do Céu e o Museu do Açude utilizarão os repasses do BNDES para instalarem sistemas de segurança de padrão internacional. Na Chácara do Céu foram roubados quatro quadros e um livro raro, em fevereiro. O projeto inclui a instalação de câmeras e alarmes antifurto e contra incêndios.
A direção da biblioteca Mário de Andrade também estuda instalar um sistema de segurança após descobrir o furto, na semana passada, de mais de 100 gravuras do século 19 e um livro raro de 1501. 'Estamos fazendo um estudo para melhoria da segurança, para troca das portas e instalação de câmeras. Seria ótimo poder contar com a ajuda do BNDES, mas as medidas com relação à Mario de Andrade estão sendo tomadas, independentemente desse edital', afirmou o secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Carlos Augusto Calil.

O ESTADO DE SÃO PAULO – 15/09/2006 (EDITORIAL)
As distorções da educação 

O Brasil não aparece bem no mais novo relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre educação. Divulgado esta semana, o trabalho é um importante estudo comparativo do desempenho do sistema educacional dos 30 países pertencentes à instituição. O trabalho revela que a maioria deles, partindo da premissa de que o capital humano é fator-chave para assegurar o crescimento econômico e oferecer 'condições de inclusão social' aos segmentos mais desfavorecidos da população, há muito tempo vem dando prioridade à educação básica.
Em vez de fazer o mesmo, pois quem não sabe ler, escrever ou fazer contas aritméticas não tem como evoluir no sistema de ensino e ingressar no mercado de trabalho, no Brasil as autoridades educacionais continuam dando prioridade à expansão do ensino superior, relegando para segundo plano o desafio da melhoria de qualidade da rede pública do ensino básico. Segundo o relatório da OCDE, o País gasta apenas 18% do Produto Interno Bruto (PIB) per capita com os alunos das oito séries do ensino básico e 127% nos estudantes universitários.
Em termos financeiros, esses porcentuais equivalem a um investimento de R$ 1,9 mil anuais em cada aluno do ensino fundamental e cerca de R$ 13 mil por ano para cada estudante do ensino superior. O estudo mostra que a média de investimento em universitários entre os países da OCDE é de apenas 50% do PIB per capita, duas vezes e meia a menos do que no Brasil. Países desenvolvidos, como é o caso da Noruega e da França, e em desenvolvimento, como a Coréia do Sul, chegam a ter índices ainda mais baixos, inferiores a 40%.
O que torna ainda mais injusta essa diferença de investimentos entre os três ciclos educacionais é o fato de que as faculdades e universidades brasileiras têm cerca de 4 milhões de estudantes, enquanto o ensino básico atende mais de 42 milhões de alunos, o equivalente a um quarto da população. Em matéria de recursos para o ensino fundamental, o Brasil ocupa o penúltimo lugar no relatório da OCDE, ganhando somente da Turquia.
O resultado prático dessa grave distorção é um círculo vicioso que começa num ensino fundamental de baixa qualidade, ganha desenvoltura num ensino médio fraco e se consolida num ensino superior que só reproduz as desigualdades sociais do País. Isto porque, enquanto as universidades públicas, que são gratuitas e de bom nível, atendem jovens oriundos de famílias ricas, as universidades particulares, que são caras e, em sua maioria, ruins, acolhem os jovens oriundos de famílias pobres.
'O problema de nosso ensino superior é que ele recebe alunos mal preparados do ensino fundamental', afirma o conceituado educador Cláudio Moura Castro. 'O governo dá todo ano um Fiat o.k. para o aluno rico e uma bicicleta para o pobre', diz ele, criticando a tendência do País de negligenciar o ensino fundamental e apontando os efeitos perversos das prioridades erradas no setor educacional. 'Na rede pública, não há mecanismo de cobrança nem de recompensa baseado na qualidade da escola', lembra Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE e pesquisador do Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade. 'O Brasil investe bastante em ensino, mas o problema é que desperdiça muitos recursos', conclui Jorge Werthein, da Organização dos Estados Ibero-americanos para Educação, Ciência e Cultura.
O levantamento da OCDE é mais uma confirmação do que os pedagogos sempre disseram com relação ao problema da educação no Brasil. Segundo eles, se o País até hoje não conseguiu promover a revolução educacional, seguindo o exemplo do que foi feito pelos 'tigres asiáticos' na segunda metade do século 20 e hoje vem sendo realizado pela Índia, não foi por insuficiência de verbas para o setor. Foi, isto sim, pela maneira equivocada como elas vêm sendo aplicadas. Em 2002, período analisado pelo relatório, o Brasil investiu 4,4% do PIB em ensino. A média dos países da OCDE é de 5,5%, dos quais 4% em educação básica e 1,5% em ensino superior.
Para os candidatos a cargos no Executivo e no Legislativo nas eleições de outubro, que se limitam a prometer mais verbas para educação, o relatório da OCDE deveria ser leitura obrigatória.

FOLHA DE SÃO PAULO – 18/09/2006
Diploma de nível superior é raro em cargos de chefia 

Só 27% dos dirigentes do setor público ou privado fizeram curso universitário

Pesquisa do Observatório Universitário foi feita com dados do Censo do IBGE. Para especialista, ensino superior precisa se expandir

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

Mais um dado revelador da tragédia educacional brasileira: a imensa maioria das pessoas em postos de comando no dia-a-dia dos mais de 5.000 municípios brasileiros não completou um curso universitário.
Pesquisa feita pelo instituto Observatório Universitário mostra que somente 27% dos dirigentes, legisladores, diretores ou gerentes do setor público ou de empresas privadas têm formação de nível superior.
Essa situação acontece tanto no setor público quanto no setor privado. No setor público, o percentual dos profissionais com diploma em cargos de chefia é de cerca de 32%.
No setor privado, fica em 27%. O dado foi coletado a partir do Censo 2000 do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Para descobrir a escolaridade dos brasileiros em cargos de chefia, os pesquisadores separaram na classificação brasileira de ocupações utilizada pelo IBGE em seus censos apenas aqueles trabalhadores que se encontram no grupo de membros superiores do poder público, de gerentes ou de dirigentes de organizações de interesse público ou de empresas privadas. Entram nessa classificação profissões como diretores em empresas, legisladores em municípios ou dirigentes em qualquer área do setor público.
"São essas as pessoas que, em todos os municípios, comandam o Brasil. Mas apenas uma pequena parcela delas, tanto no setor público quanto no setor privado, tem formação superior", afirma Edson Nunes, coordenador do observatório e presidente do Conselho Nacional de Educação.
Para o presidente do Conselho Federal de Administração, Rui Otávio de Andrade, os dados mostram que a força de trabalho brasileira ainda está muito aquém, tanto em quantidade quanto em qualidade, para atender às demandas de crescimento da economia.
"A falta de profissionais qualificados e habilitados em níveis gerenciais ou nos cargos mais elevados, tanto no setor público quanto no privado, tem causado enorme prejuízo socioeconômico ao país", diz ele. O vice-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior Particular, Antonio Carbonari Netto, diz que uma possível explicação para a falta de graduados em cargos de chefia é o fato de muitas empresas ainda serem familiares, com muitos pais passando a gestão para filhos sem preparo.
Nunes e Carbonari citam também a rigidez dos currículos universitários como entrave ao aumento da força de trabalho com nível superior.
"Nossa educação superior é muito restritiva. Só há três opções de educação pós-secundária: bacharel, tecnólogo ou licenciado. É muito pouco se compararmos com outros países mais desenvolvidos. É preciso ter mais opções, com mais cursos de curta duração, mas que permitam, principalmente, que os créditos que o estudante acumulou em determinado curso possam ser mais facilmente assimilados em outro. Hoje, esse tipo de crédito não pertence ao aluno, pertence à universidade", diz Nunes.
"A falta de graduados nas organizações brasileiras é reflexo também dos currículos mal desenhados, extremamente academicistas e teóricos, e que mal preparam para a vida social e das organizações", concorda Carbonari.

Municípios sofrem com falta de profissionais qualificados 

DA SUCURSAL DO RIO

A falta de mão-de-obra qualificada para gerir a máquina pública é uma das preocupações da Associação Brasileira dos Municípios, que organiza cursos para capacitar gestores a atuar conforme a legislação e de forma mais eficiente.
Para o diretor-executivo da entidade, José Carlos Rassier, o nível dos cargos de gerência é, na verdade, reflexo do baixo nível educacional de toda a população: "O gestor público vem obviamente dessa sociedade em que a mão-de-obra qualificada é escassa. É por isso que tomamos a iniciativa de criar uma escola de gestão pública".
Uma das razões que levou a ABM a criar esse curso foi a constatação de que boa parte das irregularidades cometidas por municípios não eram fruto de má-fé, mas de má gestão. "Analisamos 860 prefeituras auditadas pela Controladoria Geral da União e constatamos boa parte das irregularidades não estavam relacionadas à corrupção, mas à falta de qualificação para a gerência", diz. Segundo ele, um dos agravantes para essa situação é que a legislação ficou muito mais complexa. "Nós achamos extremamente importante essas iniciativas que dão mais transparência e rigor nas compras públicas, mas é preciso preparar os gestores públicos para lidar com essa complexidade".
Na terça-feira passada, um dos gestores a participar de um curso da ABM era Sylvio Tejada Xavier, prefeito de Tapes, no interior do Rio Grande do Sul. Ele conta que é difícil contratar, em seu município, profissionais com nível superior.
"Felizmente, a administração pública hoje é bastante regulamentada. Mas isso cria também algumas limitações. Eu, por exemplo, tenho dificuldade em achar profissionais de nível superior para trabalhar com os salários que a Lei de Responsabilidade Fiscal me permite oferecer", diz Xavier.
O prefeito relata também uma dificuldade enfrentada tanto em muitas cidades pequenas. "Diariamente, saem do meu município cerca de 250 pessoas para fazer cursos superiores em cidades vizinhas. Só que elas acabam se formando e buscando oportunidades de trabalho em centros maiores", diz ele.
O mesmo problema é enfrentado pelo prefeito Carlos Pereira, de Tanguá (RJ). Ele conta que, por isso, resolveu criar uma escola profissionalizante para funcionários públicos e para empregados de empresas privadas que prestam serviço para a prefeitura.
"Nossa idéia foi investir na formação de agentes públicos que, uma vez capacitados, têm que repassar o conhecimento para os colegas. Buscamos um efeito multiplicador", afirma.
Um desses cursos forma funcionários para aproveitarem futuras oportunidades em uma refinaria da Petrobras, que deverá ser construída no município vizinho de Itaboraí.

Menos de 8% dos brasileiros são formados 

DA SUCURSAL DO RIO

A falta de diploma não é uma característica específica dos brasileiros em cargo de chefia. Tabulações feitas a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE de 2004 mostram que apenas 7,7% dos brasileiros com mais de 23 anos já havia completado um curso universitário. Segundo dados do Censo da Educação Superior do MEC, de 1995 a 2004, o número de matrículas aumentou 136%, passando de 1,8 milhão para 4,2 milhões de alunos.
Mesmo com esse crescimento, o país ainda apresenta uma proporção da população com nível superior em patamares muito baixos. "Esses dados mostram que não podemos falar em frear o crescimento do ensino superior", afirma o coordenador do Observatório Universitário, Edson Nunes.
O presidente do Conselho Federal de Administração, Rui Otávio de Andrade, também concorda com a necessidade de ampliar a educação superior, mas ressalta a preocupação com a qualidade. "A expansão da educação superior é bem-vinda, pois estamos muito longe de atingir as metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação, mas é preciso que isso seja feito de forma ordenada, com o cumprimento de padrões mínimos de qualidade."
Especificamente no caso dos cursos de administração, Andrade afirma que essa expansão já está ocorrendo, já que, de 1994 a 2004, o número de alunos matriculados saltou de 195 mil para 640 mil. Segundo ele, é possível que uma pesquisa mais atual -os dados do Observatório Universitário são do Censo de 2000- possam identificar alguma mudança no quadro de profissionais em cargo de chefia que não possuem um diploma de curso superior. (AG)

FOLHA DE SÃO PAULO – 15/09/2006
SP realiza "provão" do ensino fundamental em novembro

DA REPORTAGEM LOCAL

Os estudantes da 2ª série do ensino fundamental das escolas da Prefeitura de São Paulo farão em novembro o "provão" municipal.
A intenção é levantar dados que possam ajudar na definição de políticas educacionais na cidade.
A prova deveria ter sido realizada em junho passado, mas foi adiada porque a gestão do prefeito Gilberto Kassab (PFL) ainda não tinha uma equipe para elaborar o exame. Os detalhes sobre o provão foram anunciados ontem no "Diário Oficial da Cidade".
Neste primeiro ano, os alunos farão provas de língua portuguesa e matemática. Depois, haverá também avaliação de ciências, história e geografia.
Além disso, em 2007 haverá a participação de todos os alunos da rede municipal, e não só os da 2ª série.

FOLHA DE SÃO PAULO – 15/09/2006 TENDÊNCIAS/DEBATES)
Lula e as escolas técnicas 

PAULO RENATO SOUZA

No seu programa eleitoral, Lula tem afirmado que o governo FHC teria proibido a expansão do ensino técnico no país. É pura mistificação

NOS SEUS programas eleitorais sobre educação, assim como em encontros com lideranças empresariais, o presidente Lula tem afirmado que o governo Fernando Henrique Cardoso teria proibido por lei a expansão do ensino técnico em nosso país. É pura mistificação.
A lei nº 9.649, à qual se refere o presidente, tratava da expansão da educação profissional, indicando que novas escolas técnicas deveriam ser criadas pela União, sempre em parceria com os Estados, com o setor produtivo ou com entidades não governamentais. Neste segmento comunitário, incluíam-se ONGs, fundações e sindicatos patronais e de trabalhadores que passaram a criar novas escolas técnicas com o apoio financeiro do governo federal.
Foram duas as nossas motivações para promover essas parcerias em vez de simplesmente criar novas escolas técnicas federais.
Primeiro, era preciso garantir uma vinculação maior e mais ágil entre as escolas técnicas e as necessidades sempre dinâmicas do mercado de trabalho local, onde os empregos são efetivamente gerados. Dificilmente essas condições são preenchidas por instituições vinculadas burocraticamente a Brasília.
Depois, era evidente que, em geral, nossas escolas técnicas federais ofereciam um bom curso de nível médio que preparava os filhos da classe média para ingressar na universidade, mas não atendiam às necessidades de formar técnicos de nível médio para o mercado de trabalho.
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) já havia definido em 1996 a educação profissional como um segmento complementar ao ensino básico. Com isso, nosso país deu um passo gigantesco no sentido de criar oportunidades para a obtenção de um diploma de técnico por jovens e adultos que concluíram o ensino médio regular nas escolas públicas ou pela via dos exames supletivos.
Em outras palavras, o ensino técnico passou a atender a quem realmente tinha interesse em obter uma qualificação para o mercado de trabalho -em geral, pessoas oriundas dos segmentos de menor renda. Para apoiar a expansão da educação profissional, buscamos financiamento internacional com um projeto de US$ 500 milhões apoiado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Além de criar novas escolas técnicas estaduais e comunitárias, o Proep (Programa de Expansão da Educação Profissional) canalizava investimentos para modernizar as escolas técnicas federais existentes com equipamentos e laboratórios.
Entre 1998 e 2002, aprovamos 336 projetos, dos quais 136 para o segmento estadual, 135 para o comunitário e 65 para as escolas técnicas federais. Desse total, 104 foram concluídos e entregues até dezembro de 2002. Para os 232 projetos restantes, sobravam mais de US$ 150 milhões de recursos do BID e mais a correspondente contrapartida de recursos nacionais a serem utilizados nos anos seguintes. Esses recursos eram suficientes para a conclusão desses projetos e a aprovação de muitos outros.
Inexplicavelmente, o Proep foi bruscamente interrompido a partir de janeiro de 2003. Obras ficaram inacabadas e muitos projetos nem sequer começaram. Em 2004, o governo devolveu ao BID US$ 94 milhões não utilizados. Algumas poucas escolas técnicas foram concluídas graças ao aporte de recursos da iniciativa privada.
Essa situação perdurou até o segundo trimestre deste ano. Foi quando ficou claro aos marqueteiros de Lula que, na campanha eleitoral que se avizinhava, seria difícil sustentar a prioridade para a educação com essa marca tão negativa no ensino técnico.
Assim, tomaram-se 32 projetos daqueles 232 interrompidos que estavam mais avançados e se promoveu a sua federalização, criando novas escolas federais ou novas unidades nas existentes. Isso foi tudo o que o governo Lula fez pelo ensino técnico em seus quatro anos de gestão.
Uma conhecida forma de enganar a opinião pública -muito apreciada por regimes autoritários- consiste em repetir uma mentira constantemente. No futebol, para usar uma metáfora ao gosto do presidente, se diz que a melhor defesa é o ataque. Esses parecem ser os dois pilares de sua estratégia de comunicação nessa campanha eleitoral, como o episódio da propaganda de seus "feitos" no ensino técnico demonstra claramente.
PAULO RENATO SOUZA, economista, foi ministro da Educação no governo Fernando Henrique Cardoso, gerente de operações do BID, reitor da Unicamp e secretário de Educação de São Paulo no governo Montoro.

FOLHA DE SÃO PAULO – 15/09/2006 (TENDÊNCIAS/DEBATES)
Rei nu 

OTÁVIO VELHO

Os argumentos contra as cotas raciais me lembram daquele conto. Como se a declaração de que o rei está nu é que o desnudasse

AS POSIÇÕES expressadas pelos opositores da instalação de um regime de cotas raciais na universidade pública brasileira me fizeram lembrar da história de Hans Christian Andersen em que um menino denuncia: "O rei está nu!". Essa declaração de certo modo revela um pacto em que todos, mesmo não querendo reconhecer, sabem da verdade, mas pelo qual ela, a verdade, não pode ser enunciada. E quem a enuncia é que é acusado de pretender instaurar a ordem denunciada, já que esta não é assumida. Como se a declaração de que o rei está nu é que o desnudasse.
No caso, o que está no lugar da declaração de nudez é a reivindicação de cotas raciais. Uma declaração performática, por assim dizer, não sendo por outro motivo que os defensores das cotas perguntam aos seus opositores que alternativa apresentam: nesse terreno, só ações concretas têm eficácia como declaração.
A resposta dos que propõem mais recursos universalmente distribuídos não satisfaz: sendo essa distribuição universalista justamente o que não temos, mantém-se com isso uma epistemologia intelectualista (declarações "stricto sensu" que se esgotam em si mesmas) e linear. Uma linearidade que, por sua vez, não corresponde à natureza da vida social, feita de paradoxos.
À acusação de que ações afirmativas são contraditórias com princípios universalistas, deve-se responder que é isso mesmo, e que não pode ser de outra maneira num mundo real, que não se reduz a fórmulas abstratas.
Deus escreve certo por linhas tortas, e não há maior contradição do que a proposta -supostamente reconhecida- de que se responda ao ódio com amor. Só paradoxos como esse são capazes de romper impasses aparentemente inamovíveis.
No caso, só políticas desiguais para os desiguais são capazes de nos encaminhar na direção da igualdade. E não deixa de ser curioso que essa prática já se dê entre nós em outros terrenos, sem que jamais tenha sido denunciada com o furor com que as cotas raciais são combatidas (furor que, por si, já é uma contradeclaração).
O que, por sua vez, sugere que a reivindicação das cotas toca num ponto nevrálgico da nossa consciência coletiva e que, ao invés de ser só "politicamente correta", denuncia, justamente, a correção política do suposto reconhecimento do outro que não se sustenta na hora em que somos interpelados diretamente, não "intelectualisticamente".
Assim, o argumento de que se deveria começar pelo ensino fundamental ou pelo ensino médio, além de ignorar a importância de estabelecer modelos, é mais uma demonstração de linearidade e de tentativa de deslocar (para mais longe) a discussão. Como se se tratasse de uma lógica excludente (num duplo sentido, não só social e político) que estivesse em jogo.
A
suposta inexistência biológica das raças é outro argumento não só intelectualista mas também cientificista. Primeiro, porque essa inexistência não é tão clara, como parece revelar a prática clínica no caso da anemia falciforme, que afetaria preferencialmente mulheres negras. E também porque esse não é o único caso: mesmo no terreno da genética, podem ser indicados casos intrigantes que apontam, no mínimo, para a complexidade da questão. Complexidade cujo reconhecimento deveria incluir o próprio questionamento da tendência atual de dar aos critérios genéticos a última palavra, em detrimento de outros, igualmente científicos.
Mas, obviamente, tentar desviar o assunto das cotas para uma discussão científica sobre a existência de raças é também parte de uma estratégia e de uma disputa corporativas que não devemos compartilhar, reveladora de uma disposição em que supostas verdades, válidas em âmbito restrito, parecem se tornar mais importantes que o bem-estar dos seres humanos concretos (já houve até declarações no sentido de restringir recursos para o tratamento da anemia falciforme!).
Deveríamos convencer as pessoas que são objeto de discriminação a abdicar, em seu nome e no das próximas gerações, de qualquer reivindicação até que a sociedade se convença de que tudo isso é ilusório? Ou, em vez disso, deveríamos considerar ser um cientificismo ultrapassado supor que as sociedades humanas devam se reger pelas categorias da ciência em detrimento de outros regimes de enunciação, como o da política?
Além de poder ser esse cientificismo, aí sim, uma ilusão (não necessariamente benfazeja) que não é digna da própria ciência, sobretudo da chamada ciência social. Esperemos que o tempo maior que se levará até a votação da matéria no Congresso permita, pelo menos, que os efeitos da declaração de que o rei está nu reverberem mais amplamente na parte da sociedade que ainda se encanta com a sua vestimenta invisível.
OTÁVIO VELHO, antropólogo, é professor aposentado de antropologia do Museu Nacional.

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