Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo

18/09/2006 – "Repensando São Paulo"

JORNAL DA TARDE – 18/09/2006

REPENSANDO SÃO PAULO (CADERNO ESPECIAL)

Mais sala e mais salário 

Educação foi o tema do 3º debate da série “Repensando São Paulo”, que o JT vem promovendo com o objetivo de discutir o futuro da Cidade. O secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, discutiu o tema com Ilona Becskeházy, diretora-executiva da Fundação Lemann, Cláudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita, e Ismar de Oliveira Soares, professor de Educomunicação da USP. O debate, realizado no auditório do Grupo Estado, na última quarta-feira, também contou com a participação do público. Nesta e nas próximas páginas, conheça os principais pontos debatidos no encontro.

SEM MÁGICAS

Alexandre Schneider - Dizer que nada é mais importante do que discutir a Cidade e o futuro dela. No caso da educação, é importante também discutir o futuro na medida em que é uma área que, diferentemente das outras sob responsabilidade do poder público, é construída no tempo. Não tem solução de curto prazo, não tem solução mágica, e acho que às vezes imaginar que a gente resolve coisas no curto prazo, muitas vezes criando programas com marcas interessantes e tal, faz com que a gente perca o foco do principal, que é o processo de ensino e aprendizagem. Não é segredo para ninguém que, a partir da década de 90, ou em meados dela, a gente tenha, com uma série de políticas lideradas pelo governo federal e também com o trabalho de gestores estaduais e municipais, conseguido fazer com que fossem incluídas as nossas crianças no Ensino Fundamental. Com isso, a escola passou a ter de lidar com um grande desafio, que é trabalhar com aqueles meninos e meninas que chegam à escola. Esse desafio fez com que a nossa educação, aqui no Município, sofresse também alguns revezes. Nós temos uma rede municipal que até o fim dos anos 80 era considerada se não a melhor, uma das melhores redes públicas do Brasil. Os professores tinham salários superiores aos do Estado e também superiores aos da maioria das cidades da região metropolitana de São Paulo. Mesmo que naquela época ainda não houvesse uma medida clara dos sistemas, os pais preferiam e hoje muitos ainda preferem, mesmo tendo uma escola estadual ao lado, colocar os filhos na municipal. Com esses revezes todos, com esse crescimento, o que acontece com a nossa rede? Aí estão os resultados do Prova Brasil, que colocam a nossa rede em 21º lugar em relação às capitais. Ocorre uma queda na qualidade do ensino no Município não só por conta da chegada desse enorme contingente que estava fora da escola, mas também pela ausência de algumas políticas que poderiam ter sido adotadas. A principal delas é a questão da infra-estrutura.
A infra-estrutura disponível, o investimento do Município em novas salas e em novos equipamentos educacionais, não acompanhou o aumento da demanda por educação no Município. Com isso, surgem as famosas salas de lata, as famosas escolas de lata e surge também, de 10 anos para cá, um aumento no número de alunos por sala de aula - que é aquilo que a gente precisa combater. Houve ao mesmo tempo, como já falei no início, uma desvalorização dos salários dos nossos professores nesse período, que recebiam há 20 anos proporcionalmente mais do que recebem hoje e recebiam mais em relação aos seus colegas do Estado.
Junto a isso também a escola de 12 anos para cá passou a ser um depositário de projetos sociais vinculados à escola. Então, a equipe escolar, incluindo aí o diretor e muitas vezes os professores, passou ao longo desse tempo a ter de se preocupar com a entrega do leite, a ter que se preocupar em fazer a separação do uniforme, a ter de se preocupar com cadastramento e acompanhamento de uma série de programas sociais dos três níveis de governo. Eu acho que a combinação desses três elementos ajudou, ao lado da questão do aumento da demanda, a ter uma queda na qualidade do ensino municipal e, a gente sabe, todos nós sabemos disso, os educadores apontam isso dia a dia na sala de aula e nós na secretaria temos consciência disso. Vale lembrar que a nossa rede é a maior rede municipal do País. Só para a gente ter uma idéia, nós temos aqui cerca de 1.300 equipamentos, entre escolas de Ensino Fundamental, Ensino Médio, creches, escolas de educação de jovens e adultos, escolas de ensino especial, além de convênios com creches para que a gente possa atender à demanda. Nós temos cerca de 1,3 milhão de alunos. Para a gente ter uma ordem de grandeza, isso é quase 10% da população desta Cidade. Esse é um desafio, trabalhar uma rede tão grande e trabalhar para melhorar a qualidade, já que as crianças estão incluídas e hoje o desafio nosso e o desafio do País é o de garantir a qualidade da educação.

METAS

Olhando para a frente (afinal esse é o objetivo desse seminário), quais são os princípios que nos guiam e, a partir desses princípios, quais são as metas que nos desafiam, que desafiam esta gestão e devem desafiar as futuras? É importante pensar em desafio contínuo, porque todo mundo que é profissional de educação sabe que desde a época do Paulo Freire (secretário municipal de Educação na gestão de Luiza Erundina) para cá a gente deve ter tido mais ou menos um secretário a cada ano, ano e meio, na rede, cada um muitas vezes colocando sua marquinha, projeto A, B ou C, mas não olhando a educação como um todo. Essa gestão não está comprometida nem vai ficar criando marcas, vai olhar para a educação e para o processo de ensino e aprendizagem. Nós temos dois princípios simples e claros. O primeiro deles é que todas as crianças devem aprender a ler e a escrever até a 2ª série, devem ter essas competências garantidas. O segundo é que todas as nossas crianças devem aprender o equivalente a um ano de estudo sem repetir nem deixar de aprender. É só isso que a gente quer garantir. Para que a gente chegue lá, a gente tem algumas metas que projetamos para o futuro e estamos trabalhando em cima, muitas delas podem ultrapassar essa gestão.

Fim do ‘turno da fome’ está próximo 

No ano que vem mais 78 escolas, totalizando 238, trabalharão com apenas dois períodos 

TERCEIRO TURNO
ALEXANDRE SCHNEIDER - A outra meta é a eliminação do terceiro turno. Não tem sentido numa cidade como São Paulo, com o orçamento que tem, a gente ter uma situação dessa. A nossa proposta é de redução de alunos por classe e fundamentalmente ter uma hora a mais de aula para os alunos no Ensino Fundamental, uma hora a mais na escola. Nós temos 459 escolas de Ensino Fundamental e a gente assumiu a secretaria cinco meses atrás com 160 escolas funcionando em dois turnos e o restante funcionando em três turnos. Isso é horrível. Boa parte das nossas escolas tem uma turma de crianças entrando às 7h e saindo às 11h, outra às 11h e saindo às 15h, outra às 15h e saindo às 19h. E às vezes tem o turno noturno. No meio desse tempo a gente tem de esvaziar a sala de aula, o diretor e os profissionais têm de cuidar do transporte escolar, é uma logística sem tamanho. Com o trabalho que fizemos com os coordenadores e com os diretores, mais ampliações estão sendo previstas para serem feitas pelas subprefeituras.

OBRAS

As obras que a gente está fazendo nós estamos cobrando, passando os recursos e planejando, mas quem vai executar as obras dessa secretaria vai ser a Secretaria de Obras ou as subprefeituras, porque o trabalho da nossa equipe vai estar voltado para a educação. Quem faz obra é engenheiro e a gente tem de trabalhar com os órgãos da Prefeitura que fazem isso. Mas, de qualquer forma, já no ano que vem nós vamos ter agregadas a essas 160 mais 78 escolas, que vão funcionar em dois turnos. Elas funcionavam em três e agora funcionam em dois. Um aumento de quase 50%. Quero fazer uma observação: dessas 78 escolas, 70 integralmente, 7 escolas no ciclo 1, que é o período onde as crianças estão sendo alfabetizadas, e 1 no ciclo 2. Com isso a gente vira o jogo. Tinha menos da metade das escolas com dois turnos, passa a ter 52% das nossas escolas funcionando em dois turnos já no ano que vem.

Música para melhorar o ensino 

O compositor João Justino Leite Filho conseguiu a simpatia do restante da platéia quando pediu a volta das aulas de música. “Antigamente os alunos estudavam música e as mensagens estavam nas letras. Agora pessoas mal-intencionadas se apoderaram da música e o resultado é esse que está aí”, afirmou. Para ele, essa é uma das diferença das escolas particulares para as públicas. “Eu mesmo tenho textos literários em livros didáticos, mas só são usados pelas particulares.”

Por enquanto, só mais cinco CEUs serão construídos 

Os CEUs é um equipamento importante 

CEUS
ALEXANDRE SCHNEIDER - Além de construir novas escolas, aumentar 100 mil vagas, eliminar salas de latas, eliminar as escolas de lata, nós estamos construindo 5 novos CEUs. Para nós não é problema nenhum construir novos CEUs se a gente conseguir ao mesmo tempo reduzir o terceiro turno, acabar com escolas de lata e acabar com salas de lata. Nós não mudamos o nome do programa, porque a gente entende que esse equipamento é importante nos lugares onde ele está construído. Eu entendo particularmente que, se a secretaria tiver recursos para construir, sem roubar recursos da eliminação do 3º turno, do processo de valorização, formação e treinamento de professores, ela deve construir mais CEUs, porque aquela comunidade tem ali à disposição um equipamento importante. O que não dá é fazer isso em detrimento de outras coisas que são urgentes, é deixar de cuidar daquilo que se arrasta por anos na educação. A gente está construindo esses CEUs, não sabemos ainda se vamos construir novos, isso depende também do colegiado Planejamento, Finanças, Governo, Educação e Obras. Mas a gente está construindo esses novos CEUs com 450 vagas a mais. O que acontecia nos CEUs? O número de vagas nas Emefs era menor do que o número de vagas na pré-escola. Então, o aluno começava na creche, ia para a pré-escola e aí de repente tinham de sair do equipamento. Isso foi adequado, a gente aumentou o número de vagas, são 2.600 por unidade, com uma redução de 15% no custo e de 30% no custeio desses CEUs. Como isso foi conseguido? Um exemplo só: hoje, num CEU, quando você precisa acender a luz de uma sala de aula, tem de acender a luz de um andar inteiro. Só na iluminação o que se gasta a mais da necessidade é uma coisa extraordinária.

Escola decide seu destino 

A partir do ano que vem, unidades terão mais liberdade para definir políticas educacionais 

AUTONOMIA

ALEXANDRE SCHNEIDER - Vamos para as nossas metas. A primeira delas, que a gente vem falando desde o início, é mais autonomia para as escolas, que seja financeira e pedagógica. Eu acredito que inclusive essas escolas podem decidir processos como educação continuada dos seus professores. Existe um programa de transferência direta de recursos para as escolas. Esse programa foi iniciado no fim do ano passado. Já repassamos R$ 15 milhões, devemos repassar mais R$ 15 milhões até o fim do ano. A gente quer repassar mais recursos. As escolas vão submeter projetos para um colegiado formado com pessoas da secretaria e de fora. A gente tem muitas unidades, públicos muito distintos. Butantã não é igual a São Mateus, que não é igual a Campo Limpo, que não é igual a Pirituba. Então tem de se entender que essas escolas trabalham com públicos distintos, têm desafios distintos e, portanto, têm o direito de ter autonomia.

INFRA-ESTRUTURA

No caso da infra-estrutura, a nossa meta é a eliminação ou a redução do déficit de vagas na educação infantil. Com o ensino de 9 anos, muito provavelmente a gente deve chegar à universalização no caso da pré-escola, mas a gente tem um desafio muito grande ainda com relação às creches. Hoje a demanda por creche no Município está em torno de 100 mil crianças. Parte dessa demanda vai ter de necessariamente ser coberta com o aumento de convênios, que é mais rápido do que a gente construir, fazer concurso, enfim, isso demora muito tempo. O que a gente já fez até agora com relação a essa questão da infra-estrutura? A gente já criou 62.869 novas vagas até hoje, 11.520 novas escolas, 20.385 reformas e ampliações e 46 escolas de lata foram substituídas por unidades maiores. Até o fim deste ano a gente deve criar mais 45.130 vagas, então nesses dois anos a gente vai aportar à rede 10% a mais de vagas, vão ser 108 mil vagas praticamente a mais.

ESCOLAS DE LATA

A gente assumiu em 2005 com 230 salas de lata no Município, 51 escolas de lata e 3 escolas de madeirite. Eram 73.500 alunos estudando num lugar que é frio no inverno, quente no verão e se tem de torcer para não chover, porque se chove não dá para dar aula, faz barulho. É ruim para todo mundo. Só nas escolas de lata, o número de crianças era equivalente ao número de crianças que tinha os 21 CEUs construídos na gestão anterior. A gente já construiu 46 novas escolas, substituindo essas escolas de lata. A gente resolveu o problema praticamente integral. Até o final deste mês nós não teremos mais nenhuma escola de lata no Município. Com relação às salas de lata, eram 230. Em parte dessas salas eram feitas atividades, não eram salas onde os alunos tinham aula. Em 192 delas os alunos tinham aula, é mais um contingente bastante razoável. Hoje a gente tem aula em 92 dessas salas e são em torno de 7 mil alunos.

QUALIDADE

Vamos usar indicadores de qualidade e de resultado de avaliação do desempenho dos alunos para definir critérios, diretrizes, mecanismos de prestação de contas e responsabilidade pelos resultados. São duas coisas que nós vamos fazer. Uma delas é avaliação dos alunos. Qual é a nossa idéia? Nós temos aí um ciclo de 4 anos. Este ano nós vamos fazer português e matemática, na 2ª série. A gente quer avaliar o processo de alfabetização dos alunos. A partir do ano que vem nós vamos fazer sempre 2ª, 4ª, 6ª e 8ª séries. O que a gente quer com a avaliação é poder fazer com que essa avaliação volte para a sala de aula. Cada escola vai receber não o resultado dos seus alunos, mas um relatório pedagógico no qual ela vai poder verificar como é que estavam seus alunos na 2ª série e a professora da 3ª série vai poder verificar o que ela precisa fazer a partir daí com aquela turma que está recebendo. Não é um processo de avaliação dos alunos que seja feito para ranquear as escolas, mas é para apoiar as escolas no seu processo de ensino, apoiar os professores para que eles possam verificar aonde podem melhorar, quem precisa de reforço e por aí vai.

RECURSOS HUMANOS

Com relação aos recursos humanos, o nosso compromisso é de valorização dos professores, o que inclui salários, gratificações por desempenho e formação e uma série de medidas que a gente vai trabalhar para que possa dar mais tranqüilidade e melhorar o trabalho do professor. O aumento que a gente propôs para a Câmara é uma gratificação para aqueles profissionais que estão em sala de aula e que aumenta o piso de R$ 615 para R$ 950, um aumento de 54%.

LINHA DIRETA

Por último, nós vamos instituir a partir do ano que vem uma política de comunicação direta com os pais e com as escolas. O pai tem de estar dentro do jogo, porque uma escola só vai ser forte se a comunidade tomar conta dela.

Dinheiro ainda não caiu na conta 

A coordenadora de escola Maria de Fátima Vieira soube do debate pelo jornal e foi ao auditório do JT conhecer as idéias do novo secretário. “Na Educação, toda hora muda o secretário e a gente fica perdida. Quando soube que teria uma oportunidade de encontrar com ele pessoalmente, eu vim.” Apesar de satisfeita com as promessas apresentadas, ela já tem uma reclamação. “A gratificação que eles anunciaram como dada aos educadores não chegou na nossa conta até hoje.”

Foco no aluno em busca de qualidade 

Avaliação e capacitação são armas para melhorar ensino 

PERGUNTA
CLÁUDIA COSTIN - Se me permite começar, achei bastante interessante e extensiva a apresentação do secretário. Confesso que fiquei com algumas dúvidas e gostaria de partilhá-las. Primeiro um comentário, não é exatamente uma dúvida. Políticas públicas têm de ser avaliadas pelo resultado da ação. No caso, a aprendizagem do aluno é o foco central da ação educativa. Então eu percebi um certo temor na questão de que a avaliação não vai ser usada para ranquear, não vai ser usada para isso, não vai ser usada para aquilo. Avaliar a qualidade da educação e avaliar se a aprendizagem aconteceu deveriam ser obrigação de toda política pública. Nós na Fundação Victor Civita estamos percorrendo as escolas e uma das coisas que a gente constatou é que há escolas em que os professores têm um contrato que não prevê tempo para formação, para capacitação. Então eu queria saber quais são os planos em relação à capacitação. Outra questão que eu também queria levantar é a do prazo para acabar com o 3º turno. Você dizia, secretário, que o fato de a escola estar envolvida com o Leve-Leite e com uniformes tem prejudicado o tempo alocado à atividade de educação. Eu tenho minhas dúvidas. Acompanhando outras redes, eu vejo que a escola no mundo é o centro para onde se desloca a possibilidade do trabalho intersetorial. Então queria que você aprofundasse essa questão da escola como lugar de intersetorialidade

ALEXANDRE SCHNEIDER - Quando eu falei da questão de fazer uma avaliação que tenha um sentido pedagógico, eu não posso fazer uma avaliação que como resultado tenha o seguinte: a escola tal teve tanto na escala de português e tanto na escala de matemática. O MEC está mandando isso para todas as escolas. O diretor pega isso e diz assim: eu tenho 160, o fulano tem 120, o Estado tem não sei quanto. O objetivo da avaliação para nós tem de ser o seguinte: você tem a sua turma de segunda série com problemas de aprendizagem nessa e nessa questão, você precisa trabalhar com elas. O seu professor da primeira e segunda séries tem de observar isso quando recebe as turmas. De outro lado, o seu professor da terceira vai ter de observar isso nas turmas que recebe. Mais do que isso, a escola tem de se planejar para dar reforço, se necessário, a partir da avaliação. Então no fundo não é um receio de avaliar o resultado. O objetivo é, ao avaliar o resultado, dar um instrumento para a escola para que a partir desse resultado ela possa melhorar. É mais ou menos isso. Por isso eu quero construir os itens com os professores da rede, para que eles se apropriem disso, e por isso eu quero passar para cada uma das escolas não o resultado delas em relação as outras, o que importa também para ela é qual é o resultado dela e como ela pode melhorar.
Com relação ao contrato para capacitação, talvez você esteja se referindo a uma das jornadas que a gente tem no Município, que é a JB. É uma jornada de 20 horas, 18 horas-aula mais 2 horas de preparação. Esses professores, diferentemente dos outros, não fazem a GEI, que é aquele horário em que eles se reúnem com os coordenadores pedagógicos. Na questão da formação, até o momento a secretaria trabalhou muito fortemente com o Ler e Escrever, que é o nosso carro-chefe. Com relação ao prazo para acabar com o terceiro turno, nós vamos fazer tudo para acabar com ele até 2008. Para a gente isso é um ponto de honra, vamos ver se a gente consegue. Na questão do trabalho intersetorial, eu talvez não tenha me colocado bem. Eu acho que é importante ter um trabalho intersetorial, é importante que o aluno tenha contato com outras coisas, que ele possa visitar museus, que ele faça atividades lúdicas, etc. O que acontece é que tudo isso foi muito imposto para a rede de cima para baixo. Então é o seguinte: vai ter de entregar o leite, se vira. Tem escolas com mil alunos, chegam as peças de uniforme e os diretores e professores têm de separar peças para mil alunos, tênis que não cabe, a meia que não cabe, o pai que reclama que as cores não combinam. A gente veste uma cidade de Campinas em São Paulo, 1 milhão de alunos. Isso onera o diretor. Eles têm de usar, por exemplo, uma sala que poderia ser usada para uma atividade para depósito do leite, para depósito de uniformes. A questão da integração dos outros programas que eles têm de cuidar também onera, porque o que eles mandam de informação para a secretaria, o que eles têm que produzir de informação é uma coisa enorme. A gente recebe no sistema da secretaria o que acontece no dia-a-dia das escolas. Então trabalhar ainda para acompanhar Bolsa-Família, Renda Cidadã, Renda Mínima, etc. é uma coisa complicada. O que a gente precisa fazer e quer fazer? Não deixar de ter isso tudo vinculado de alguma forma à escola, mas desonerar a equipe escolar de fazer isso.

O desafio de achar um novo modelo de ensino 

Na avaliação de Alexandre Schneider, o atual modelo educacional não serve mais nem para as escolas públicas nem privada 

ILONA BECSKEHÁZY - Secretário, eu queria em primeiro lugar discordar. Aliás, a minha pergunta é exatamente no ponto em que o senhor disse que a educação em São Paulo era a melhor do País e a percepção da clientela era de que era a melhor do país. Eu queria saber por que critérios. A outra coisa é que a Fundação Lehmann tem uma gama enorme de projetos e em alguns deles a gente está lá na ponta, muito próximo das escolas, incluindo aqui o Município de São Paulo. A gente tem uma atuação específica em gestão escolar e um dos problemas que a gente tem é de formação de diretores. Qual é a situação de falta dos professores no município e que tipo de negociação está sendo feita com os sindicatos e com os representantes dos professores para que esse problema seja resolvido dentro da sua estratégia? E quando o secretário diz que se tudo der certo a gente vai conseguir cumprir nossas metas, quais são os impeditivos atuais para cumpri-las?

ALEXANDRE SCHNEIDER - Essa rede sempre foi considerada boa pelos educadores e pelos pesquisadores. Você tem algo censitário que foi feito agora, que é o Prova Brasil, então talvez a gente tenha uma linha de corte a partir desse ano. Mas o que eu posso te garantir é que essa rede foi considerada boa. Se você fizer uma pesquisa com qualquer professor, entre o Estado e o município, ele sempre escolheu o município para trabalhar, todos, e a comunidade sempre escolheu as escolas municipais. Isso é real, isso aconteceu ao longo da história. Agora, não tenho um número, até porque a única avaliação censitária é essa que foi feita agora. Com relação a deixar a qualidade chegar a esse nível, eu coloquei algumas coisas que deixaram de ser feitas. Então você tem a infra-estrutura que não acompanhou a demanda que aumentou, uma desvalorização da carreira do magistério que ocorreu efetivamente ao longo dos anos, o próprio número de secretários nos últimos anos foi pulando, era um e meio por ano, cada um vinha com uma nova política, um novo programa, CEU, vale isso, Leve Leite, com energia colocada fora da sala de aula. E tem um problema que o nosso país não resolveu. O nosso país não resolveu um problema que é o problema da distribuição de renda e isso se verifica no Município de São Paulo talvez com maior gravidade do que no resto do País. E nós temos um problema que é o seguinte: temos famílias desestruturadas, monoparentais, o pai não consegue acompanhar o trabalho escolar dos meninos. Tem várias coisas que podem explicar isso. Em linhas gerais eu concordo com você. Só acho que essa não é uma tarefa de curto prazo. E do ponto de vista da educação no geral há necessidade de uma discussão dos educadores para entender que essa escola não serve mais as crianças e jovens que estão lá, esse modelo de escola não serve mais e nem na escola privada nem na escola pública isso está sendo feito.

As duras limitações impostas pela legislação 

Leis impedem de fazer obras a punir faltosos 

OBRAS

ALEXANDRE SCHNEIDER - Com relação aos impedimentos das obras, o nosso impedimento maior é achar terreno. É difícil. A gente tem uma lei ambiental que é muito interessante, que levou para os mananciais aquelas pessoas que a gente não consegue tirar. Hoje tem de construir escolas, tem que fazer infra-estrutura, tem que cuidar de uma represa que está morrendo. A gente tem de construir escola num lugar em que a lei municipal proíbe construir. É uma coisa maluca, mas é verdade. Em alguns lugares tem terrenos públicos que estão invadidos por milhares de famílias, eu não tenho onde colocar essas famílias. O nosso desafio é achar terrenos públicos. A gente já está com uma lista de metade da nossa meta para os dois anos, o que já é bom, mas estamos correndo atrás de terrenos privados que a gente possa comprar. Nós vamos comprar terrenos privados para construir escolas, porque os terrenos públicos estão invadidos ou são áreas verdes onde não podem ser construídas. Eu concordo também com você que precisa ser discutida a questão da carreira, a questão das faltas. A própria legislação permite que o professor tenha um número de faltas razoável, a lei permite isso. No setor privado a gente vai até onde a gente pode, no setor público a gente vai só aonde a gente pode. Essa é uma coisa complicada no setor público.

Faltou mais ênfase ao pedagógico 

A idéia do JT em fazer o debate foi fantástica por levar a discussão não só para quem trabalha com Educação mas para todo mundo. Gostei da fala do secretário , principalmente no que se refere à gestão. Para mim, o mais importante foi sobre a autonomia das escolas porque os costumes de cada escola devem ser respeitados de acordo com a região. Mas do lado pedagógico, acho que o secretário não deu muita ênfase. Faltou ele pontuar o que será feito nessa área.

Vladimir Fernandes de Almeida, 41 anos, professor

Três perguntas a Claúdia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita

O que fazer para diminuir o número de faltas dos professores?

Esse é um problema que merece solução urgente. Sei que uma das causas para tantas faltas e licenças está diretamente ligado às más condições de trabalho, mas acredito que a lei que permite esse alto índice de faltas é paternalista. É preciso fazer uma revisão na lei.

Para a senhora, quais as soluções para melhorar o ensino público?

Acredito que é preciso mudar estruturalmente e isso só vai acontecer quando os professores tiverem salários melhores, capacitação contínua e quando as mudanças de escola, tanto de professores quanto de diretores, forem evitadas.

Por quê?

Educação é processo e é preciso inserir-se no dia-a-dia da comunidade e conhecer seus alunos. Não dá para ficar cada semestre em uma escola diferente. Isso impede a formação do vínculo entre professor, aluno e comunidade, que é essencial à aprendizagem e que possibilita melhor avaliação do aluno e da própria escola.

A comunicação ensina 

TECNOLOGIA

ISMAR DE OLIVEIRA SOARES - Secretário, todos os pontos em que o senhor tocou são essenciais, porém algo que me chamou a atenção é a sua preocupação e a da secretaria em chegar na sala de aula, uma discussão de um pacto com o professor, a questão do foco no ler e escrever, a questão de autonomia de projetos nas escolas e a política de comunicação com os pais. Contudo, o que eu achei falta e em nenhum momento se tocou diz respeito à política da secretaria com relação aos desafios que a sociedade está colocando hoje para as novas gerações no que diz respeito ao fato de que é preciso aprender, além de ler e escrever, a conviver, aprender a enfrentar as incertezas, aprender a construir a paz. Isso tudo está num contexto de uma sociedade muito violenta, em que a lei do mais forte impera sobre o mais fraco e nós temos na escola pública o mais fraco. Então, como fortalecer, como empoderar essa criança para que ela enfrente essa sociedade e possa ser um protagonista de mudanças essenciais na sociedade? Também não vi uma palavra a respeito de como a secretaria está pensando a sua relação com a produção de sentido na sociedade, que é possibilitada especialmente pela presença da mídia e das tecnologias. Estou me referindo ao fato de que hoje em dia se entende perfeitamente que a escola tem um papel fundamental de formação, porém parte essencial também dessa formação advém com a presença da televisão, da informática, dos jornais, do universo midiático que cria símbolos, cria valores e acaba sendo a grande fonte de informação da sociedade. É claro que existem processos midiáticos de aliança com a escola, nós estamos justamente dentro do espaço de um jornal que se definiu por isso. O Jornal da Tarde tem matérias sobre a questão da educação durante toda a semana e aos domingos. A grande pergunta é: por que até esse momento apenas umas poucas crianças privilegiadas têm acesso a essas tecnologias através de uma ONG como a Cidade Aprendiz ou como a ONG Cipó? Por que esse direito não é dado a toda a rede de educandos da escola pública no País?

ALEXANDRE SCHNEIDER - Eu queria começar com uma frase solta, mas importante: por que apenas um grupo seleto da escola pública tem acesso a esses projetos? Porque só quem pode dar escala é o Estado, o Estado no sentido amplo, e essas organizações que desenvolvem competências e projetos tão importantes acabam tendo condição de atender a um número muito pequeno de alunos e muitas vezes até com financiamento do Estado. Mas, enfim, eu acho que a questão básica é: existe mesmo um grupo de privilegiados, porque não há escala no trabalho dessas organizações. Há qualidade em algumas das organizações não-governamentais, mas não existe escala. Só quem pode universalizar a política é o Estado. Com relação à questão da mídia, eu vou começar pela informática. Eu concordo com a sua observação de que muitas vezes ela foi utilizada de maneira imprópria. A primeira medida que a gente traz para usar a informática como mídia, leia-se internet, é trazer de volta a sala de informática para a grade curricular, porque isso dá o direito para todos os alunos de, sob a orientação de um professor de sala de informática e de um professor de uma matéria, da regência, ter uma atividade pedagógica desenvolvida ali. A gente não pode olhar para os nossos alunos como se a gente estivesse formando os nossos alunos para ocupar o lugar dos pais deles. Eles têm de ser formados para escolher o seu destino. A gente está longe disso e por isso tem de investir em coisas básicas que eles ainda não têm, aprender a ler e escrever, aprender matemática, aprender aquilo que a escola antiga ensinava e por uma série de fatores que a gente ilustrou aqui hoje tem dificuldade para ensinar. Esse é o nosso objetivo, é focar na educação. O pessoal da informática educativa lá da secretaria vai trabalhar num projeto de formação desses professores e também num projeto que eles possam ter condição de fazer essa ligação, que já era feita no passado, entre a sala de aula e a utilização dessa mídia. Com relação a outras mídias, a gente tem um programa feito com USP, um programa que foi feito na gestão anterior, o Educom. A nossa equipe está trabalhando para retomar o Educom, afinal, a Prefeitura já investiu um dinheiro razoável tanto na formação quanto na compra de equipamentos. A gente tem colocado jornais e revistas nas escolas. Principalmente o pessoal que está trabalhando com o círculo de leitura tem tentado incentivar os professores a utilizar esses outros instrumentos, que eu acho importantes. Acho que eu inverti a ordem das perguntas. A primeira era como preparar as crianças para enfrentar essa sociedade, para serem protagonistas. Eu acho que é o desafio de todos nós. Partindo do pressuposto de que a gente precisa começar do alicerce, ensinar a ler e a escrever, as operações, ensinar ciências das mais diversas formas possíveis, ensinar aquilo que a criança precisa aprender, também ao mesmo tempo ajudá-las a entender o mundo em que vivem. Acho que esse é o desafio da educação brasileira.

Rendimento baixo: um desafio 

Aprovação de alunos que passam de ano sem saber nada foi um dos temas apresentado pelo público 

SELMA REZENDE LEAL - Gostaria de saber do secretário por que as crianças passam de ano sem saber nada? Tenho um neto de 8 anos, que está no 2º ano, mas não sabe nada?
ALEXANDRE SCHNEIDER- Esse é o nosso principal problema. Nós temos um ensino organizado em ciclos, por isso vamos avaliar, a cada dois anos, o rendimento dos alunos, a fim de ajudarmos as escolas a trabalhar com eles. Esses alunos que passam de ano sem saber, provavelmente, não ficavam na escola. Porque eles repetiam, repetiam, por uma deficiência da escola, e acabavam saindo. Agora, com os ciclos, você tem esses problemas.

ADELSON QUEIROZ (presidente do Sindicato dos Professores do Município) - A secretaria tomou o posicionamento de mudar algumas coisas, outras precisarão mudar, e muito. A briga para a redução do número de alunos por sala de aula, há 30 anos vem ocorrendo. Então, a pergunta que eu faço é: como mudar essa situação? As condições materiais são outra preocupação. Como vou trabalhar num local que não tem nem condições físicas?

ALEXANDRE SCHNEIDER- Sobre a questão da infra-estrutura, já conseguimos fazer o aumento de 50% no número de escolas que terão uma hora a mais em 2007. A outra questão que está ligada a essa é relativa à condição de trabalho. Por isso, é que quero passar o dinheiro direto para a escola, assim o diretor tem condições de tocar isso diretamente. Vamos ver se essa é a melhor forma. Mas, pelo menos, pequenas reformas ele poderia fazer.

Três perguntas a Ilona Becskeházy, diretora-executiva da Fundação Lemann 

Qual o maior problema da educação em São Paulo?

Todos. Chegamos em um ponto em que está tudo errado. Há uma geração que não tem conhecimento suficiente para atender ao mercado. Agora, quando começamos a nos comparar internacionalmente - os poucos que podem fazer isso - vemos a situação crítica e começamos a correr atrás do prejuízo.

Os planos apresentados para a rede municipal podem colaborar para mudar isso?

Eu gostei do que foi dito no debate. Foi uma boa surpresa. O problema é que demorou muito, deixamos a água bater à porta para começar a fazer algo. Há muito tempo a educação não tem qualidade. Ninguém nem sabe o que é educação. Se você perguntar a um brasileiro comum o que é, ele vai dizer que é algo essencial para conseguir um emprego depois, mas não sabe o que realmente significa.

Durante o debate o secretário Alexandre Schneider ponderou que toda a educação brasileira está ruim, inclusive nas redes particulares, e a senhora discordou. Há muita diferença?

A rede particular está ruim também, concordo que existem problemas e que as universidades se deparam com ex-alunos de boas escolas completamente despreparados, mas a rede pública é muito pior. Os números do Prova Brasil mostram isso. Ao contrário do que se disse de que São Paulo teria uma das melhores escolas do Brasil, fomos mal como Estado e pior ainda como município. Vamos precisar de muito trabalho sério e contínuo para mudar isso.

Três perguntas a Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da USP 

O que o senhor acha que deveria ser repensado na Educação da Cidade de São Paulo?

É necessário levar em consideração a inclusão de novas mídias e garantir que as escolas se apoderem dos novos meios de comunicação. Projetos como o Ler e Escrever, por exemplo, devem ser ampliados para incluir a educação pelas ondas do rádio. É oportuno para articular saúde, educação, meio ambiente e outras questões do dia-a-dia.

Essa é a proposta do projeto Educom, que o senhor coordenou. Ele foi interrompido?

Nós investimos nesse projeto entre 2001 e 2004, foram empenhados 1.200 profissionais da USP, que treinaram 12 mil alunos e professores. A administração anterior investiu R$ 4,5 milhões, mas apenas 250 das 455 escolas do programa receberam os equipamentos e, ainda assim, sem acompanhamento adicional. Os alunos adoravam lidar com tecnologia. Seria uma pena deixar tudo isso se perder, por isso pedi ao secretário para reconsiderar o projeto.

O senhor concorda com os planos apresentados pelo secretário?

Acho que há boas intenções que precisam ser agora trabalhadas. Várias pessoas da platéia manifestaram idéias e colaboraram. Os resultados obtidos por ONGs em algumas escolas são uma prova de que a autonomia para administrar o dinheiro das escolas, que o secretário diz que vai dar, pode dar bons resultados, com iniciativas criativas.

Discutir é sempre importante 

Acho muito importante existir essa discussão, esse compartilhamento de idéias. Achei o debate explicativo e acredito que o secretário tenha boas intenções. Também gostei das pessoas que compuseram a mesa por trazerem o outro lado da questão.

Andréa Gonzaga Dalio,
32 anos, assessora de Imprensa da Promove Ação Sociocultural

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